Além de comprometer o orçamento, o endividamento pode se agravar diante de comportamentos de risco, como as apostas esportivas Para 81,9% dos brasileiros diagnosticados com ansiedade, depressão, estresse crônico ou burnout, questões financeiras tiveram participação relevante no surgimento ou agravamento do quadro psicológico. O dado é de uma pesquisa da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (Abefin), em parceria com o Instituto Axxus, que ouviu 1.000 pessoas. O levantamento mostra que essa relação assume diferentes graus de intensidade. Para 27,1% dos entrevistados, os problemas financeiros foram a causa exclusiva do adoecimento, enquanto para 32,4% eles apareceram como o fator predominante entre as causas envolvidas. Os números indicam que a dificuldade de organizar compromissos financeiros pode comprometer o orçamento e interferir diretamente na rotina e no bem-estar dos consumidores. O impacto também aparece entre quem está inadimplente. Uma pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e da Offerwise Pesquisas mostra que 86% dos consumidores com contas em atraso há mais de três meses relatam danos à saúde física provocados pelo estresse financeiro. Entre os 609 entrevistados nas capitais brasileiras, 64% citaram alterações no sono, 52% mudanças no apetite, 78% preocupação constante, 73% ansiedade e 61% prejuízos no desempenho profissional. Para Rodrigo Mandaliti, presidente do Instituto de Gestão de Excelência Operacional em Cobrança (IGEOC), o endividamento compromete mais do que a capacidade de pagamento das famílias. Segundo ele, a vergonha e o receio de expor as dificuldades costumam atrasar a busca por alternativas. “Procurar informação é importante para retomar o controle. Quanto mais cedo o consumidor dimensionar a situação, maiores serão as possibilidades de encontrar uma solução”, afirma. A popularização das apostas esportivas adiciona uma nova camada a esse cenário. Segundo Mandaliti, as bets podem se tornar um fator de risco quando passam a interferir na vida financeira, profissional, familiar e emocional do consumidor, já que o acesso fácil pelo celular permite apostar a qualquer momento, inclusive em situações de estresse ou frustração. Para a psicóloga Jussara Silva, a tentativa de recuperar o dinheiro perdido, conhecida como perseguição das perdas, acontece quando a pessoa acredita que precisa apostar novamente para recuperar o que perdeu. 'Nesse processo, a frustração da perda pode aumentar a ansiedade e levar a pessoa a assumir riscos maiores na tentativa de reverter rapidamente o prejuízo. O problema é que uma nova perda tende a intensificar o sofrimento emocional e pode fazer com que ela entre em um ciclo cada vez mais difícil de interromper', alerta. O primeiro passo para recuperar o equilíbrio é encarar a realidade financeira e colocar no papel dívidas, gastos e renda mensal. A partir desse diagnóstico, torna-se possível identificar quanto do orçamento já está comprometido, cortar despesas não essenciais e definir prioridades. 'O objetivo não é apenas quitar uma dívida, mas recuperar o equilíbrio financeiro', orienta Mandaliti. Além da reorganização das contas, o cuidado com a saúde mental também deve fazer parte desse processo. Manter a convivência com pessoas próximas, preservar atividades que tragam bem-estar e buscar apoio psicológico quando a preocupação financeira começar a afetar a rotina são medidas que podem ajudar a atravessar o período de endividamento. 'Quando a ansiedade se torna intensa ou frequente, interfere no sono, na concentração, na alimentação ou nas relações e começa a limitar a rotina, é importante buscar ajuda. A psicoterapia pode ajudar a lidar com as emoções, desenvolver estratégias para enfrentar o problema e reconhecer comportamentos que estejam agravando a situação', conclui a psicóloga.