Entre o privilégio e a realidade de muitos jovens no mercado de trabalho

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Dê poder às pessoas e, aí sim, você poderá ver se elas são humanas ou não
Por Lucia Faria
Ouvindo Bruno Mars, tive o insight necessário para escrever algo incômodo para muitos e bastante necessário para todos: nossa relação com os jovens entrantes no mercado de trabalho.
Em fóruns diversos, em artigos, nos desabafos com colegas empreendedores e líderes de equipes, esse é um assunto latente. E, num deles, promovido pela Associação Brasileira das Agência de Comunicação (Abracom), uma jovem no palco disse uma frase que não sai da minha cabeça desde então. Conversando com uma amiga, ela ouviu que hoje os jovens nas empresas são “mais humanos” do que os seus antecessores.
Nessa hora, me mexi na cadeira da plateia. Dê poder às pessoas e, aí sim, você poderá ver se elas são humanas ou não. Jovens são naturalmente desafiadores, contestadores e até arrogantes. É maravilhoso ser assim. São pessoas com esse perfil que podem, de verdade, transformar o mundo.
O fato de não pararem em empregos, de não quererem carreiras longevas, é fácil de entender. Eu também não ficava mais de um ano e meio em um emprego até conseguir outro melhor. Só parei quando me senti feliz.
Os jovens buscam algo que preencha seus anseios e, por isso, saltam com menos compromisso na jornada profissional. Mas, no fundo, fico com uma pergunta: de que jovem estamos falando?
Dos privilegiados, que se formam em boas e caras faculdades, cujos pais podem sustentar seus experimentos profissionais? Porque, para aqueles que lutam para chegar a um curso superior e depois enfrentam barreiras nos processos seletivos, a realidade pode ser bem diferente. Esses vão ter de engolir muitos sapos antes de pensar em jogar tudo para o alto e promover uma virada de chave.
Conversando com mães em um encontro informal, soube de uma que acompanhou o filho até uma entrevista de estágio. Claro, ela ficou do lado de fora, mas imagino o perfil do jovem que ela entregou naquele ambiente. Este será o jovem “mais humano” no trabalho? Ou o mais mimado?
Outra mãe, na mesma mesa, contou que fez reserva em um hotel próximo ao que o filho de 14 anos ficará hospedado durante sua primeira excursão escolar. Já o filho da mulher periférica muitas vezes não poderá sequer participar de um passeio como esse, quanto mais se dar ao luxo de jogar tudo para o alto para seguir um sonho.
Uma das minhas colaboradoras mais surpreendentes foi justamente uma jovem negra da periferia do ABC paulista, com inglês, espanhol e MBA. Tudo conquistado na luta. Ela optou por permanecer mais tempo no emprego porque precisava dar entrada em um apartamento para morar com a mãe. Filha única, agora transpira para pagar as prestações e planeja cada passo com extremo cuidado.
Já um colega dela fez uma passagem rápida pela minha agência porque conseguiu entrar num trabalho dos sonhos. Todos nós o incentivamos a se jogar nessa oportunidade, embora tristes com sua partida. Ele está nessa empresa há cerca de quatro anos e vai todos os dias de Mauá até Osasco de trem (para quem não é de São Paulo, pode acreditar que o percurso é muito longo). Se agora ele quer mudar ou não de emprego, eu não sei. Mas, com certeza, é alguém que não pode jogar tudo para o alto com facilidade.
E, afinal, o que Bruno Mars tem a ver com tudo isso?
É que, ao escutar uma sequência de suas músicas, reconheci ali, junto com ele, influências de Michael Jackson, Madonna e Sting. Estes — e tantos outros — estão presentes, de alguma forma, em suas canções.
Somos um amálgama do nosso passado, das referências que carregamos, muitas vezes sem perceber. Respeitar quem veio antes, ter humildade para aprender e coragem para mudar faz parte desse processo.
Espero que os jovens sejam melhores do que nós, hoje e sempre. Agora, quando começam a tomar consciência do que querem para suas carreiras, e lá na frente, quando estiverem na liderança de times.
Amadurecer sem perder a “humanidade”.
Pois, no fim, não é sobre geração. É sobre caráter.











