A obra de Herbert Simon é um marco na Administração, pública ou privada, compreendendo várias faces da gestão e da conformação das organizações como sistema, seja em aspectos estruturais, seja em seus aspectos dinâmicos. Sua contribuição agrega valor não somente na explicação das organizações como estruturas funcionais, mas também no sentido de entender os comportamentos dos agentes envolvidos. Dentre suas principais contribuições, a teoria do equilíbrio organizacional (desenvolvida com a participação de James March ) é uma das mais importantes, pois alia a análise de vários fatores da organização com a participação dos agentes e seu desempenho em termos de eficiência e eficácia. São postulados básicos da teoria do equilíbrio organizacional: 1) Uma organização é um sistema de comportamentos sociais inter-relacionados de numerosas pessoas, que são os participantes da organização;2) Cada participante e cada grupo de participantes recebe estímulos (incentivos, recompensas) em troca dos quais faz contribuições à organização;3) Todo o participante manterá sua participação na organização enquanto os estímulos que lhe são oferecidos forem iguais ou maiores do que as contribuições que lhe são exigidas;4) As contribuições trazidas pelos vários grupos de participantes constituem a fonte na qual a organização se supre e se alimenta dos estímulos que oferece aos participantes;5) A organização continuará existindo somente enquanto as contribuições forem suficientes para proporcionar estímulos e motivação para induzirem os participantes à prestação de contribuições. (MARCH, SIMON, 1975, p. 70). Assim, a teoria tem como conceitos fundamentais as ideias de: • Estímulos ou incentivos: são os “pagamentos” que a organização faz aos seus participantes (p. ex.: salários, benefícios, prêmios de produção, elogios, promoções, reconhecimento, etc.);• Utilidade para estímulos: cada incentivo possui determinado valor de utilidade que varia de um indivíduo para outro; • Contribuições: são os “pagamentos” que cada participante efetua à organização (p. ex.: trabalho, dedicação, esforço, assiduidade, pontualidade, lealdade, reconhecimento, etc.);• Utilidade das contribuições: é o valor que o esforço de cada indivíduo tem para a organização, a fim de que está ao alcance seus objetivos (MARCH, SIMON, 1975).Os participantes da organização são todos aqueles que dela recebem incentivos e que trazem contribuições para sua existência. Existem cinco classes essenciais de participantes: empregados, investidores, fornecedores, distribuidores e consumidores, todavia, está claro que nem todos os participantes atuam dentro da organização, embora todos mantenham uma relação de reciprocidade com essa. Os participantes podem ser identificados desta maneira em termos de contribuições e estímulos:1) empregados: fornecem trabalho e recebem salários e benefícios2) investidores: fornecem capital e recebem lucros e dividendos3) fornecedores: fornecem mercadorias/serviços e recebem pagamentos 4) distribuidores: fornecem meios para levar os bens ao mercado e recebem pagamentos 5) consumidores: fornecem meios de realização financeira das mercadorias/demanda/receita e recebem mercadorias/bens Organização Participantes Estímulos ContribuiçõesEmpregados Salários, benefícios trabalhoInvestidores Lucros, dividendos capitalFornecedores Mercadorias, bens pagamentosDistribuidores Serviços, distribuição, disponibilização no mercado pagamentosConsumidores Mercadorias, bens e serviços mercadorias/demanda/receita Tais participantes influem direta e indiretamente na dinâmica da organização, podendo seus comportamentos e desempenho serem mais ou menos funcionais ou até mesmo disfuncionais para a manutenção e melhoria da organização. Para provar sua funcionalidade, a teoria deve estimar empiricamente: a) os comportamentos dos participantes ao permanecer, ingressar ou sair da organização; b) o equilíbrio de estímulos e contribuições para cada participante, medidos em termos de utilidade. Ainda, para estimar o equilíbrio entre estímulos e contribuições deve-se verificar a satisfação individual dos participantes, no sentido da seguinte suposição: quanto maior a diferença entre os estímulos e as contribuições, maior a satisfação individual. O 'ponto zero' do equilíbrio estaria relacionado ao momento em que o indivíduo é indiferente ao fato de deixar a organização, supondo ainda que, normalmente, pouquíssimos satisfeitos deixam a organização, mas alguns dos insatisfeitos a deixam, embora nem todos. Logo, a teoria afirma que convém medir a satisfação conforme o movimento dos indivíduos, ou seja, o desejo de mover-se considerada a facilidade de movimento, ou seja, os obstáculos internos e externos à mudança. As organizações solventes apresentariam um equilíbrio entre contribuições e estímulos, sendo que a melhoria do desempenho da organização poderia ser medida em termos do superávit de contribuições em relação aos estímulos fornecidos. A análise de viabilidade da organização passaria pelas ações de: 1) analisar entradas e saídas, taxa de conversão de contribuições em estímulos; 2) analisar estímulos financeiros necessários para obter as entradas (inputs) no montante necessário, e para obter as contribuições financeiras que podem ser exigidas ou cobradas pelas saídas (outputs), isto é, os preços dos fatores de produção e dos produtos. Por exemplo: 1) salários em geral: analisar o valor do salário em comparação com mercado e referente à quantidade/qualidade (e intensidade) do trabalho; 2) capital: analisar a quantidade de investimento, oportunidade, risco, taxas de juro, etc. No caso específico dos empregados, por exemplo, funcionariam como critérios de participação: a) aceitação da autoridade; b) condições de trabalho (ruins se não interessantes para ele ou desagradáveis) e recompensas por isso. O pagamento, obviamente, é condição básica para o trabalho e não critério de participação. Assim, convém à organização, para otimizar seu desempenho e não se desgastar com conflitos improdutivos, deixar à discrição do empregado aspectos de pouco interesse para o empregador e de muito para o empregado; bem como sujeitar o empregado à autoridade em aspectos que forem de muito interesse para o empregador e pouco para o empregado. Já a medição da importância e quociente de participação, no caso dos empregados ainda, poder-se-ia dar pela: a) quantidade de produção individual do empregado; b) ausência física do empregado; c) exclusão e substituição do empregado. Deste modo, por exemplo, em termos de mau desempenho e prejuízo funcional, vigeriam aos seguintes ações e consequências: 1) baixa ausência de natureza voluntária (e ou produtividade) associada a um alto grau de mudança nos quadros: penalidades extremas são impostas à ausência, mas é alto o afastamento do emprego; 2) relação positiva entre ausência e mudança de pessoal, muitas faltas e mudanças: falta de motivação, insatisfação para com a relação estímulos-contribuição; empregado prefere faltar ou sair, pois não tem motivação, isto se penalidades por ausência forem normais (MARCH, SIMON, 1975). O equilíbrio organizacional se basearia na relação entre estímulos dados e contribuições recebidas, de modo proporcional e satisfatório tanto para os participantes quanto para a organização. Todavia, se ilustrarmos unilateralmente os lados da 'balança', tem-se que, do ponto de vista dos participantes, cabe maximizar os estímulos recebidos conforme as contribuições (positivamente) dadas. Já do ponto de vista da organização, o é essencial buscar maximizar as contribuições em relação aos estímulos dados. Entretanto, conforme o último postulado da teoria, 'A organização continuará existindo somente enquanto as contribuições forem suficientes para proporcionar estímulos e motivação para induzirem os participantes à prestação de contribuições'. – Situação 1), positiva: participantes colaboram: estímulos > ou = contribuições;– Situação 2), negativa, participantes não colaboram: estímulos < contribuições.Assim, conforme o previsto, seria possível (embora Simon não explore tal caso) que os participantes, no curto prazo, estejam satisfeitos e motivados, embora a organização encaminhe-se para uma situação de disfuncionalidade ou mesmo de insolvência.O caminho 'natural' para o equilíbrio seria a proporcional e adequada relação, no médio e longo prazos, entre todos os elos da cadeia. A teoria do equilíbrio relaciona, assim, a solvência, funcionalidade e otimização em termos de desempenho da organização aos investimentos em termos de recompensa aos participantes que, por sua vez, motivados pelos benefícios recebidos, contribuem proporcionalmente (ou além) para a organização. Ou seja, está baseada numa noção comportamentalista de conduta dos indivíduos que, por sua vez, funda-se na crença em padrões necessários e frequentes que se repetem uma vez repetidas as mesmas condições e reforçados os estímulos. Há de observar, no entanto, que as ações dos indivíduos não são completamente determinadas, necessárias e previsíveis, nem sequer se repetem conforme o mesmo ambiente e estímulos oferecidos, assim, a teoria do equilíbrio só se sustenta como explicação em termos de tendências e possibilidades, talvez probabilidades, uma vez que nada garante que os participantes vão reagir do mesmo modo uma vez dado a mesma situação. A posta nos padrões comportamentais é, por um lado, a pedra de sustentação da teoria, por outro, a fragilidade nos seus alicerces. Referências bibliográficas ALBUQUERQUE, A. F.; ESCRIVÃO FILHO, E. Administrar é decidir: a visão de Herbert Simon. Disponível em: <http://www.ceul.ufms.br/dcs/dcsonline/artigos/artigo_01.pdf>. Acesso em: 10 abr. 2014. BALESTRIN, A. Uma análise da contribuição de Herbert Simon às teorias organizacionais. Disponível em: < http://robertobalbino.files.wordpress.com/2008/08/herbert_simon.pdf >. Acesso em: 10 abr. 2014. ETZIONI, A. Organizações complexas: um estudo das organizações em face dos problemas sociais. São Paulo: Atlas, 1975. LODI, J. B. História da administração. 11ª ed. São Paulo: Pioneira, 1993. MOTTA, F. C. P.; VASCONCELOS, I. F. G. Teoria Geral da Administração. São Paulo: Thomson, 2002. MARCH, J.; SIMON, H. A teoria do equilíbrio da organização. In: ETZIONI, Amitai. Organizações complexas: um estudo das organizações em face dos problemas sociais. 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