Um tema delicado, que nem sempre me parece abordado com a profundidade que merece e que acaba, por vezes, sendo avaliado de maneira parcial e criando estereótipos que dificultam ainda mais a realidade de enxergar a problemática. A invisibilidade social é o cenário em que se encontram alguns cidadãos, denominados pela sociedade contemporânea como inferiores pelo fato de exercerem determinada profissão.O termo invisibilidade é utilizado no sentido denotativo, pois esses indivíduos não são vistos pela sociedade – ou então são ignorados, como se fossem invisíveis. A invisibilidade social é uma forma de exclusão social e já é debatida há algum tempo, porém ela ainda não se consolidou como um tema relevante – principalmente no contexto empresarial. Neste artigo, estabeleço o foco em colaboradores da limpeza, o que não isenta outros profissionais de estarem inseridos nessa árdua realidade, como por exemplo: garis, frentistas, operadores de caixa, porteiros, motoristas e cobradores de ônibus e lixeiros. Um dos fatores que perpetua a invisibilidade social ,é a pressa do dia a dia agregada ao estereótipo de que uma zeladora ou faxineira não é digna de receber um bom dia. O motivo? Ela não possuir uma formação, ou seja, pertencer à classe dos que tem baixa escolaridade (por opção ou falta dela) o que justifica estar exercendo sua atual profissão – que é composta por tarefas que são erroneamente consideradas degradantes. Não obstante, observa-se ainda o fato de a invisibilidade social ter se tornado tão forte a ponto de eliminar automaticamente do campo visão um gari ou colaborador da limpeza, por conta deste estar vestindo seu uniforme profissional e consequentemente ser rotulado como inferior e invisível. Vale lembrar que esse estereótipo se tornou comum, porém não é normal. Comum é aquilo que a grande maioria está acostumado a fazer e pensar, normal é aquilo que está congruente com normas: uma forma acordada de se fazer algo baseando-se no bem e respeito mútuos. Por que limpar,zelar e cuidar de um ambiente é considerado degradante por algumas pessoas, sendo que é fundamental para o ambiente ficar confortável e além de tudo propício para se trabalhar? Tirar o lixo das lixeiras, tirar a poeira de móveis, limpar asujeira que as pessoas trazem da rua através de seus calçados, limpar as janelas, passar aspirador.. tarefas que não são raras de fazer em nossas próprias casas certo? Além dos cuidados de higiene e limpeza com roupas, calçados, toalhas ,tapetes, almofadas, edredons,lençóis e demais objetos presentes em nossas residências e até mesmo nos veículos. Então, por que rotular alguém que tem sua profissão composta por tais atribuições como inferior? Algumas pessoas dispõe de uma empregada doméstica full time para realizar essas atividades, outros preferem uma diarista semanal,quinzenal ou mensal, o que distribui melhor o tempo para com os cuidados domésticos. Talvez, por esse motivo não reconheçam o valor dessas tarefas , não tenham dimensão de sua importância e de como a ausência delas impactariam suas vidas – no sentido negativo, é claro. Eis a pergunta: Por que a inteligência de alguém com uma titulação em um curso superior não se equipara à competência, ao capricho de alguém que zela pelos bens móveis e imobilizados de uma empresa? Ao concluir que nossa sociedade sofre um retrocesso com relação à essa questão – pois fere a humanização de um indivíduo, ao ser menosprezado pelo trabalho que executa – ainda surge outro ponto importante: o não reconhecimento desses profissionais acarreta em conseqüências sérias e em alguns casos irreversíveis para eles. Justifico essa afirmação utilizando a Hierarquia das necessidades de Maslow. Abraham Harold Maslow – norte americano, doutor em psicologia pela Universidade de Wisconsin – propôs uma teoria sobre a motivação humana, na qual as necessidades humanas obedecem a uma hierarquia conforme a sua importância para os indivíduos. A teoria da motivação de Maslow classifica as necessidades humanas de acordo com uma escala que varia de necessidades primárias até necessidades secundárias. As primárias são as necessidades fisiológicas e as de segurança; as secundárias são as necessidades sociais, as de estima e as de auto- realização. O ser humano passa a ter necessidades secundárias somente depois que as primárias estiverem saciadas. Essa escala de valores nos faz refletir em que grau de necessidades estão os (as) colaboradores da limpeza e demais profissionais que estão na atmosfera da invisibilidade social. É preciso considerar também que as pessoas são diferentes e a manifestação e a intensidade de suas necessidades também. A teoria de Maslow é uma ferramenta útil para os próprios colaboradores orientarem-se em relação às suas motivações. Além disso, também é útil para gestores e corporações que terceirizam aprestação de serviços de colaboradores da limpeza e portaria refletirem quanto à isso e tomar a iniciativa para trabalhar essa questão com seus colaboradores, bem como escutá-los, explorar eventuais conflitos ou dúvidas, se prontificar a ajudá-los no que estiver ao alcance e principalmente passar a enxergá-los como um ser humano que tem necessidades sociais. O reconhecimento desses profissionais está diretamente ligado à hierarquia das necessidades de Maslow, o que nos aprofunda na questão das conseqüências do não reconhecimento e da invisibilidade à que estão sujeitos: 1- As necessidades sociais não são sanadas pois há ausência de compreensão, integração e aceitação; As necessidades de estima não são atendidas pois orgulho, reconhecimento e progresso estão distante da realidade de quem sofre com a invisibilidade social; As necessidades de auto realização já se explicam pelo título, ou seja, a ausência de auto realização é a que mais impacta na vida dos invisíveis socialmente. Lendo a respeito da auto realização, também constatei que sua necessidade nunca é saciada,ou seja, quanto mais se sacia, mais a necessidade aumenta. E quem nunca nem chegou perto de estar auto realizado? Consequências como as descritas acima podem levar à depressão e isolamento, devido à sensação de exclusão, discriminação e de ser irrelevante que são causadas em quem pertence à classe dos invisíveis. Para compreendermos um pouco do que acontece, podemos nos colocar no lugar dessas pessoas. E se nós mesmos lidássemos diariamente com uma realidade igual a escrita acima, como nos sentiríamos? Como iríamos agir com os que estão a nossa volta? E no nosso interior como seria? Muitos irão pensar que é besteira, que cada um colhe o que planta e que não somos obrigados a gostar de ninguém. Tudo bem, porém existe uma coisa chamada respeito e quando este acaba ou nem começa a existir, a possibilidade de relacionar-se e confiar em alguém é falha. Portanto, além de respeitar podemos passar a refletir sobre os profissionais inclusos na invisibilidade social e dar a eles bom dia ou até mesmo um sorriso – atitudes que podem mudar o dia deles e fazerem se sentir ENXERGADOS e porque não dizer: Como você está? E se houver uma resposta, por que não prolongar a conversa? Afinal, é um ser humano como nós.