O Brasil que o mercado já desistiu de projetar

Imagem: Divulgação/Felipe Fogaça
A eleição está sendo discutida como um risco fiscal. O problema é mais fundo, e nenhuma das campanhas está falando dele
Toda segunda-feira o Banco Central publica o Boletim Focus, com a mediana das projeções de cerca de cem instituições financeiras. Quase todo mundo olha a linha da Selic. A linha que importa está mais embaixo.
O mercado projeta que o PIB brasileiro cresça 1,99% em 2026 e 1,69% em 2027. Para 2028 e 2029, projeta 2,00%. Essas duas últimas estimativas estão praticamente congeladas há mais de dois anos, sem revisão relevante. Ou seja: mais de cem casas de análise, com equipes inteiras dedicadas ao Brasil, olharam para o país, para a eleição, para as duas candidaturas principais e concluíram que nada disso altera a taxa de crescimento no fim da década. O mercado não está com medo do Brasil. Está entediado com o Brasil. E tédio é uma condição financeiramente pior do que medo, porque medo se reprecifica quando o cenário muda, e tédio simplesmente não olha mais.
Vale entender de onde vem esse número. A produtividade total dos fatores brasileira, medida pelo FGV Ibre, cai cerca de 0,6% ao ano desde 2014. O ganho de produtividade das últimas três décadas veio quase todo da agropecuária, e o crescimento do PIB veio majoritariamente de colocar mais gente para trabalhar, não de fazer cada trabalhador produzir mais. Em 1980, o Brasil respondia por 2,8% do PIB mundial; em 2024, por 2,1%, segundo o Banco Mundial. A taxa de investimento, que ficou em torno de 22% do PIB nas décadas de 70 e 80, hoje ronda 17%, contra uma média latino-americana de 22% e algo perto de 23% nos grandes emergentes. Em infraestrutura, o país aplica cerca de 2,2% do PIB por ano, quando o consenso técnico aponta 4% a 4,5% durante uma década para fechar o déficit. Segundo a Abdib, a União gastará em 2026 cerca de cinquenta vezes mais com juros da dívida do que com investimento em infraestrutura de transporte e saneamento.
Nada disso é notícia. É exatamente esse o ponto: virou paisagem.
A tarifa americana de 25% que entrou em vigor nesta quarta-feira oferece uma leitura desconfortável dessa paisagem. Olhe a lista. Ficaram de fora café, carne bovina, açaí, suco de laranja, ferro-gusa, terras-raras, aeronaves e componentes aeronáuticos. Foram taxados etanol, máquinas agrícolas, calçados, vestuário, papel, açúcar e produtos químicos. O padrão não é ideológico nem punitivo em relação a setores específicos: os Estados Unidos pouparam aquilo que não conseguem substituir e taxaram aquilo que compete com a produção deles. Fomos protegidos justamente onde somos insubstituíveis como fornecedores de matéria-prima e atingidos onde tentamos vender valor agregado. A lista de isenções do USTR é um raio-X involuntário da nossa pauta exportadora, e não é um retrato lisonjeiro. Commodities representam mais de 70% do que o Brasil vende ao mundo. Um país com pauta sofisticada teria sido atingido de forma muito mais dolorosa, e teria muito mais com o que negociar.
É por isso que reduzir a discussão eleitoral à âncora fiscal me parece uma leitura curta. Disciplina fiscal é condição necessária e ninguém sério discute isso. Mas ela não gera crescimento por conta própria; no máximo evita que a casa pegue fogo. O que muda a trajetória de um país é ganho de produtividade, e produtividade se constrói com educação básica que funcione, infraestrutura que
reduza o custo de escoar produção, capacidade de subir na cadeia de valor, uso eficiente de recursos naturais e energéticos, e um plano de desenvolvimento que sobreviva a mais de um mandato. Nada disso cabe em um ciclo de quatro anos, e é precisamente por isso que nenhum governo brasileiro recente teve incentivo para fazer.
Do lugar de onde acompanho isso, em Frankfurt, a diferença de horizonte é gritante. Alocadores europeus decidem exposição a emergentes olhando prêmio de risco e previsibilidade de longo prazo, não simpatia ideológica. Quando um comitê de investimento alemão pergunta “onde o Brasil estará em dez anos”, a resposta que ele encontra nos próprios modelos é: no mesmo lugar. Então o
capital vem, mas vem pelo preço. O real se valorizou cerca de 5% neste ano, com a Selic em 14,25% e o juro real longo fechando junho perto de 8%, dos maiores do mundo. Isso é carry, não é tese. E a diferença aparece na bolsa: o Ibovespa acumula alta no semestre e mesmo assim vem perdendo espaço entre investidores estrangeiros, segundo relatórios de casas como o BTG. Dinheiro que entra por taxa sai quando a taxa muda.
Sobre a disputa em si, os dados de julho mostram Lula à frente de Flávio Bolsonaro nas quatro principais pesquisas nacionais, em primeiro e segundo turno, com margens que vão de folgadas a empate técnico, dependendo do instituto. A aprovação do governo voltou a superar a desaprovação (48% a 47% na Genial/Quaest) pela primeira vez desde dezembro de 2024, embora 43% dos brasileiros ainda digam que a economia piorou nos últimos doze meses. Flávio chega à convenção do PL, marcada para sábado, sem vice definido e sem coligação fechada com os principais partidos do Centrão, o que o mercado tende a ler como desconto de governabilidade. Vale registrar que Ronaldo Caiado aparece melhor do que ele em confronto direto com Lula, sinal de que o teto do campo é mais alto do que o teto do candidato escolhido para representá-lo.
Convém alguma humildade histórica aqui. Em 2002 o risco-país brasileiro passou de 2.400 pontos diante da possível vitória de Lula, e o que veio depois foi o melhor ciclo de ativos da história recente do país. Em 2018 a euforia com a agenda liberal foi total, e o Ibovespa terminou aquele mandato abaixo do ponto de partida quando medido em dólar. A correlação entre o candidato preferido do mercado e o retorno subsequente dos ativos brasileiros é, na melhor das hipóteses, próxima de zero. Quem opera 2026 por convicção política está confundindo preferência com previsão.
Para quem precisa de indicadores práticos nos próximos meses, o Ibovespa e o dólar serão ruído. O termômetro é a taxa das NTN-Bs longas, onde o mercado registra o que efetivamente pensa sobre 2027. Vale acompanhar também a composição das chapas até 15 de agosto, pelo que revela sobre capacidade de governar, e a segunda investigação americana em curso, que pode acrescentar 12,5 pontos à tarifa. Mas o indicador que eu observaria com mais atenção nos debates de agosto e setembro é outro: se algum dos candidatos disser uma frase concreta sobre produtividade. Não sobre gastar mais ou gastar menos, e sim sobre o que exatamente muda no ensino médio, no custo logístico e na complexidade do que o Brasil vende. Até agora, ninguém disse.
Fica um recado para quem produz e exporta, que talvez seja o mais acionável de tudo isso. Passar da 13ª para a 2ª posição no ranking dos países mais tarifados pelos Estados Unidos, em uma única rodada, por razões que não têm nada a ver com competitividade, é um aviso sobre risco de concentração. Diversificar mercado é proteção de balanço, não ambição estratégica, e o acordo Mercosul-União Europeia torna a Europa a alternativa mais óbvia e menos explorada pelo empresariado brasileiro. Mas há um segundo efeito, menos evidente e mais valioso. Vender o mesmo produto para um comprador novo diversifica risco. Vender na Europa obriga a empresa a atender exigências de certificação, rastreabilidade, padrão ambiental e qualidade que forçam ganho de
produtividade dentro da própria firma. É desenvolvimento pela porta dos fundos, empresa por empresa, sem depender de plano nacional nenhum. Enquanto o país não decide se quer crescer mais de 2%, a companhia individual ainda pode decidir por conta própria.









