As normas ISO têm como característica o aspecto global e a padronização internacional. Mas como uniformizar o conceito de responsabilidade social em países tão distintos? Como admitir desrespeitos às minorias, como a desigualdade de gênero no mundo muçulmano, a quase escravização da mão de obra chinesa, o esquecimento da África, a falta de ética nas relações comerciais entre organizações? A boa notícia: uma tentativa foi feita para que, ao menos no âmbito das organizações, tenhamos um guia que padronize o conceito de responsabilidade social corporativa. Através de um trabalho árduo que demorou cinco anos e com um processo inovador de participação e busca por um consenso internacional chegou-se a norma ISO 26000 – Diretrizes sobre Responsabilidade Social. Em que contexto foi elaborado essa norma? Que mundo é esse que vivemos? Na primeira parte do artigo busca um olhar sobre o fenômeno globalização, trazendo à tona, ainda que de forma limitada, esse conceito tão controverso e cheio de ramificações. Em seguida, embarca-se em um mar ainda misterioso da responsabilidade social corporativa. Para muitos a responsabilidade social nada mais é do que uma estratégia de marketing e que a busca pela maximização de contribuição para o desenvolvimento sustentável é apenas uma cortina bonita para a real intenção das organizações que é a maximização de lucros. Outros acreditam de fato que as empresas estão cada vez mais comprometidas com o aspecto social e que buscam a transparência e o comportamento ético em suas relações. Em um mundo cada vez mais competitivo a forma de atuação responsável de uma organização vem fazendo a diferença para um grupo de consumidores. Será? Ou o que vale é a qualidade e preço do produto? O fato é que não adianta uma empresa ter um bom produto e destruir o meio ambiente, neste caso o consumidor paga duas vezes, pois é a arrecadação de impostos feita pelo Estado que deverá reparar o mal causado por uma organização irresponsável. Diante disso, surge uma discussão: Estaria o Estado transferindo a sua responsabilidade para as organizações privadas? Na norma ISO 26000, houve um cuidado de colocar as coisas em seu devido lugar, deixando claro o papel do Estado e das organizações neste cenário. Um ganha com o outro se os sete princípios de responsabilidade social citados na norma forem cumpridos. O artigo abordará os principais pontos sobre o desafio do consenso internacional de se estabelecer uma norma sobre responsabilidade social que seja aplicável para todos os tipos de organizações, independente do porte ou localização e que auxiliem as organizações na contribuição para o desenvolvimento sustentável. GLOBALIZAÇÃO A globalização é um fenômeno que interfere nas relações internacionais. Não existe um consenso com relação ao seu conceito. (MCGREW, 2011, p.16) Para os céticos é mito, discurso neoliberal e ideológico para outros autores traz uma nova consciência sobre o mundo. Segundo Giddens (apud MCGREW, 2011, p.17), a globalização representa a intensificação das relações sociais mundiais que ligam localidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a milhas de distância e vice-versa. Para Scholte (2000:46 apud MCGREW, 2011, p.17), a globalização diz respeito à desterritorialização, um mundo sem fronteiras. Mcgrew (2011, p.17) afirma que nenhuma economia é capaz de se isolar. Mais de 600 milhões de turistas estão em movimento a cada ano. Habitamos em um mundo onde os acontecimentos mais distantes podem rapidamente, se não quase que instantaneamente, ter consequências muito profundas para a nossa individual e coletiva percepção de segurança (MCGREW, 2011, p.17). Uma catastrofe natural em um país é noticiada instantaneamente no mundo inteiro. O advento de redes sociais como Twitter, Facebook, entre outros, ajuda ainda mais a disseminação dessas informações. Mcgrew (2011, p.17) afirma que a globalização procura capturar a dramática mudança que está em curso na organização dos assuntos humanos. A transformação de um mundo mais discreto para um mundo compartilhado e interligado. O acesso as informações permitem que organizações em todo mundo aprenda uma com as outras em um processo de busca da melhoria contínua. Políticas ou práticas adotadas pelas organizações em diferentes lugares podem ser rapidamente comparadas (ABNT, 2010). A globalização traz aspectos tanto positivos quanto negativos. Mcgrew (2011, p.18) exemplifica que redes terroristas e criminosos operam tanto local quanto globalmente. Guerras civis e conflitos nas regiões mais pobres do mundo aumentam o fluxo de imigrantes ilegais no mundo de países ricos ou até países em desenvolvimento como o Brasil. O tráfico de drogas, os fluxos de capital, a chuva ácida e as atividades de pedófilos não conhecem fronteiras (MCGREW, 2001, p.33). A globalização denota uma mudança significativa na organização social em todas as esferas da vida social, da economia à segurança, da política à cultura, da produção ao crime. Mcgrew (2011, p.21) apresenta um quadro analisando os padrões nas várias esferas contemporaneas. Na esfera econômica, constata-se os padrões de todo o mundo através da operação dos mercados financeiros, na esfera militar através da ploriferação das armas de destruição em massas, o crescimento do terrorismo transnacional e o discurso da insegurança global, no aspecto legal o tribunal penal internacional é um indicativo de uma ordem global emergente legal. Na esfera do meio ambiente, traz a tona temas como o aquecimento global, desmatamento, proteção de espécies e efeito estufa. Na esfera cultural, envolve uma mistura complexa de homogeinização e crescente heterogeneidade, dada a difusão global da cultura, as redes de comunicações, as redes sociais. Na esfera social, constata-se a mudança nos padrões de migração em escala mundial. A globalização trata-se de um processo irreversível e desigual. Os países ricos são muito mais globalizados, não existe uma simetria. De acordo com Held (2001 p.23) As relações de poder fazem parte da dinâmica da globalização assim como, afirma Mcgrew (2011, p.22), a violência também tem sido fundamental para a globalização, seja na forma do novo imperialismo em 1890 ou na atual guerra contra o terror. Em muitas situações, a globalização tem exacerbado tensões e conflitos, criando um mundo potencialmente mais indisciplinado. Para países emergentes como China, Indía e Brasil, a globalização é essencial para o crescimento econômico (MCGREW, 2011, P.20), portanto considera um processo vantajoso para alguns e desastroso para outros. Esses países passam a ter mais expressão, prova disso foi à criação do G-20 – Grupo das principais vinte economias mundiais frente ao extinto G-8. Esse modelo de poder é replicado para o estabelecimento de normas internacionais como a ISO 26000, fruto deste presente artigo. RESPONSABILIDADE SOCIAL CORPORATIVA Antes de entrarmos no conceito de responsabilidade social no meio corporativo ou empresarial, é importante entender a diferença entre filantropia e responsabilidade social. Segundo o Instituto Ethos, referência no assunto responsabilidade social empresarial, a filantropia é basicamente uma ação social externa à empresa, que tem como beneficiária principal a comunidade em suas diversas formas (conselhos comunitários, organizações não-governamentais, associações comunitárias) e organizações. A responsabilidade social é focada na cadeia de negócios da empresa e engloba preocupações com um público maior (acionistas, funcionários, prestadores de serviço, fornecedores, consumidores, comunidade, governo e meio ambiente), cuja demanda e necessidade a empresa deve buscar entender e incorporar aos negócios. Assim, a responsabilidade social trata diretamente dos negócios da empresa e de como ela os conduz. Ainda de acordo com o Instituto Ethos (2012), a responsabilidade social empresarial é a forma de gestão que se define pela relação ética e transparente da empresa com todos os públicos com os quais ela se relaciona. Também se caracteriza por estabelecer metas empresariais compatíveis com o desenvolvimento sustentável da sociedade, preservando recursos ambientais e culturais para as gerações futuras, respeitando a diversidade e promovendo a redução das desigualdades sociais. Já de acordo com a norma ISO 26000, a responsabilidade social se expressa pelo desejo e pelo propósito das organizações em incorporarem considerações socioambientais em seus processos decisórios e a responsabilizar-se pelos impactos de suas decisões e atividades na sociedade e no meio ambiente. Isso implica um comportamento ético e transparente que contribua para o desenvolvimento sustentável, que esteja em conformidade com as leis aplicáveis e seja consistente com as normas internacionais de comportamento. Também implica que a responsabilidade social esteja integrada em toda a organização, seja, praticada em suas relações e leve em conta os interesses das partes interessadas. Tanto no conceito da ISO 26000 quanto a do Instituto Ethos, vemos a ética como um grande pilar da responsabilidade social. Segundo o site do Ethos, não há responsabilidade social sem ética nos negócios. Não adianta uma empresa pagar mal seus funcionários, corromper a área de compras de seus clientes, pagar propinas aos fiscais do governo e, ao mesmo tempo, desenvolver programas voltados a entidades sociais da comunidade. Essa postura não condiz com uma empresa que quer trilhar um caminho de responsabilidade social. O conceito de responsabilidade social empresarial é complexo e dinâmico, para alguns está associado à ideia de responsabilidade legal, para outros ao comportamento ético em todas as relações e para outros os impactos diretos assim como os que afetam terceiros, o que envolve toda a cadeia produtiva e o ciclo de vida dos produtos. (BERTONCELLO & CHANG, 2007, P.72). As empresas ao adotarem um comportamento socialmente responsável em conjunto com parcerias com Estado e a sociedade civil tem um alto poder de transformação na construção de um mundo mais próspero e justo (RICO, 2004, P.73). Ainda segundo Rico historicamente a filantropia e a assistência não fazia parte da cultura empresarial brasileira, as ações sociais promovidas pelas empresas sempre foram de caráter heterogêneo, pontuais, dependentes e tuteladas pelo Estado. A partir do processo de transição democrática, nos anos 70 e especialmente a partir da década de 80, é que se pode identificar uma ação social empresarial com a expectativa de participação no desenvolvimento social do país. (RICO, 2004, P.74). Segundo Mifano (2002 apud RICO, 2004, P.74), a responsabilidade social das organizações surgiu num contexto no qual há uma crise mundial de confiança nas empresas. Segundo o autor, as empresas começaram a elaborar um discurso politicamente correto, utilizando a ética como pilar para implementar ações sociais que podem significar ganhos para os colaboradores e sociedade ou simplesmente tornar-se uma ação de marketing desvinculado de um pensamento socialmente responsável. Segundo a publicação do Ethos e Sebrae (2003) o movimento da responsabilidade social empresarial decorre de três fatores que marcam a época atual: A revolução tecnológica que possibilitou uma grande troca de informações, a revolução educacional que é consequência do número cada vez maior de pessoas que frequentam escolas e querem mais informações e a revolução cívica, que é representada pela defesa de direitos e interesses comum como a promoção social e a proteção ambiental e neste aspecto as ONGs tem papel fundamental. O objetivo da responsabilidade social é contribuir para o desenvolvimento sustentável. As empresas geram impactos tanto ambientais quanto sociais e isso vem sendo mais cobrado, fiscalizado e avaliado pelas partes interessadas, influenciando a visão da sociedade de uma determinada empresa quanto a sua vantagem competitiva, reputação, capacidade de atrair reter colaboradores, percepção de investidores e da comunidade financeira. (ABNT, 2010). Percebe-se que hoje há uma preocupação no sentido de avaliar o “retorno” na percepção do cliente e da sociedade quanto às práticas de responsabilidade social adotadas pela empresa. (RICO, 2004, P.74). Segundo McWillians e Siegel (2002, P.35 apud BERTONCELLO & CHANG, 2007 P.74) a responsabilidade corporativa como estratégia de diferenciação é usada para criar novas demandas e obter um preço Premium para um produto ou serviço existente podendo ser percebida como uma inovação de produtos ou de processos. A empresa pode cobrar preços médios maiores que de seus concorrentes, mas de certa forma justificado pela prática socialmente responsável ou manter o preço e entregar maior valor para seu cliente. Um dos gurus do Marketing, Kotler (2010, p.3), defende a existência do marketing 3.0. Segundo o autor, o marketing 1.0 dizia respeito a vender os produtos da fábrica a todos que quisessem compra-los, produtos estes básicos e para atender um mercado de massa. O marketing 2.0 onde o valor do produto é definido pelo cliente, ele é o rei, toda a estratégia de segmentação de mercado é orientada para o cliente e neste momento vivemos o marketing 3.0, a era voltada de valores onde as empresas enxergam os seres humanos dotados de mente, coração e espírito tendo como objetivo fazer do mundo um lugar melhor, um forte reconhecimento à importância da responsabilidade social corporativa. Segundo a norma ISO 26000, os benefícios que a responsabilidade social pode trazer para a organização são diversos, tais como: Melhorias das práticas de gestão de risco da organização, estímulo a um processo decisório que leve em conta às expectativas da sociedade, melhoria da reputação da organização, geração de inovação, melhoria da competitividade incluindo acesso a financiamento e status de parceiro preferencial, melhoria do relacionamento da organização com suas partes interessadas, aumento da fidelidade, envolvimento, motivação, participação e moral dos empregados, melhoria da saúde e segurança dos trabalhadores, eficiência no uso de recursos, maior confiabilidade e prevenção ou redução de possíveis conflitos com consumidores referentes a produtos ou serviços. O Instituo Ethos e o Sebrae (2003, p.12) indicam sete diretrizes da responsabilidade social empresarial que trata de uma série de ações concretas que podem contribuir para a melhoria da qualidade dos relacionamentos da empresa nas áreas de valores e transparência, público interno, meio ambiente, fornecedores, consumidores e clientes, comunidade, governo e sociedade. Os sete passos são: adoção de valores e trabalho com transparência, valorização de empregados e colaboradores, fazer sempre mais pelo meio ambiente, envolvimento de parceiros e fornecedores, proteção de clientes e consumidores, promoção da comunidade e compromisso com o bem comum. As consequências de um projeto social bem sucedido é o reconhecimento das partes interessadas, logo, o ganho da imagem institucional da empresa, mas será que o cliente percebe e valoriza isso? Hoje há uma preocupação no sentido de avaliar até que ponto o consumidor percebe, como mensurar este ganho de imagem e como desenvolver um planejamento integrado no qual as ações sociais sejam incorporadas à valorização da marca da empresa. Trata-se de uma questão estratégica o investimento na área social (RICO, 2004, P.75). A responsabilidade social empresarial está intimamente ligada ao Estado. Com certa constância deparamos-nos com impactos ambientais proporcionados por empresas. Atualmente vemos que são cobradas multas e sansões para essas empresas, mesmo assim, o cidadão paga por aquilo que não provocou: consumindo o produto da empresa socialmente irresponsável e pagando tributos para que o Estado tome as providências para reparação ambiental. Os caminhos da construção da sociedade democrática perpassam pela constituição de relações éticas e transparentes entre Estado, mercado e sociedade civil e pela presença e o lugar que ocupam as associações e corporações privadas. (RICO, 2004, p.77). Dentro de um contexto local, vivemos um momento propício para que a responsabilidade social corporativa tome forças. O Brasil está em franco crescimento econômico, com o advento do pré sal, jogos olímpicos, copa do mundo, muitas oportunidades surgem para as empresas e estas podem contribuir para uma equidade social. A política social brasileira tem obtido sucesso no combate à pobreza e a desigualdade. Uma das razões é a amplitude de ações e instrumentos, atingindo grupos fragilizados e necessitados da sociedade (GIAMBIAGI; PORTO; 2011, p.163). A importância e momento do Brasil também foi verificada na elaboração da Norma ISO 26000 – Diretrizes sobre responsabilidade Social. A ISO conferiu à ABNT e ao Instituto Sueco de Normalização a liderança do acompanhamento da implementação da norma no âmbito mundial, como reconhecimento da bem sucedida atuação na construção da norma. A seguir será feita uma análise dos pontos mais relevantes da norma e seu impacto, desafio e discussões para chegar a norma que representa na medida do possível o consenso mundial sobre o tema responsabilidade social. A NORMA INTERNACIONAL ISO 26000:2010 – DIRETRIZES SOBRE RESPONSABILIDADE SOCIAL Publicada em novembro de 2010 em Genebra – Suiça a Norma Internacional ISO 26000 – Diretrizes sobre Responsabilidade Social foi elaborada pelo ISO/TMB Working Group on Social Responsability por meio de um processo que envolveu cerca de 450 especialistas de 99 países. Os especialistas vieram de seis diferentes grupos de stakeholders – Consumidores, governo, indústria, trabalhadores, ONG e serviços/suporte/outros (ABNT, 2010; INMETRO, 2012). Buscou-se um equilíbrio entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, no entanto apesar dos esforços para se assegurar uma participação equilibrada, este foi limitado por diversos fatores, inclusive a disponibilidade de recursos e a necessidade de conhecimento do idioma inglês (ABNT, 2010). Em dezembro de 2010 foi publicada a versão em português da norma pela Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT, de conteúdo idêntico à ISO 26000:2010. A norma tem como escopo fornecer orientações para todos os tipos de organizações, independentemente do porte ou localização sobre: a) Conceitos, termos e definições referentes à responsabilidade social b) O histórico, tendências e características da responsabilidade social c) Princípios e práticas relativas à responsabilidade social d) Os temas centrais e as questões referentes à responsabilidade social e) Integração, implementação e promoção de comportamento socialmente responsável em toda a organização e por meio de suas políticas e práticas dentro de sua esfera de influência f) Identificação e engajamento de partes interessadas; e g) Comunicação de compromissos, desempenho e outras informações referentes à responsabilidade social. O Brasil teve papel importante na construção dessa norma, participando representantes do Inmetro, Petrobras, Furnas, Dieese, Fundação Vanzolini, Ethos, ONGs e consumidores. Os trabalhos desenvolvidos no Brasil ocorreram no fórum da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), entidade reconhecida como o fórum de normalização do Brasil. Para isso, foi criada a Comissão Especial de Estudos de Responsabilidade Social – CEE/RS. Foi no âmbito dessa Comissão que ocorreram as reuniões que trataram tanto das normativas nacionais quanto do desenvolvimento da ISO 26000, atuando como Comitê Espelho da ISO 26000. O esforço para se chegar a essa norma vem de longa data, em 2001, a ISO, Organização Internacional de Normalização, convidou o seu Comitê de Política do Consumidor – COPOLCO, a analisar a viabilidade e o interesse de uma norma internacional no tema. O COPOLCO foi absolutamente favorável à elaboração de uma norma internacional sobre o assunto, a fim de atender a uma demanda clara e urgente das organizações, dos consumidores e da sociedade como um todo. O COPOLCO recomendou que se estabelecesse um grupo para o aprofundamento no assunto e o estudo do estado da arte da Responsabilidade Social no mundo. Em 2002, a ISO constituiu um grupo estratégico para essa finalidade que, em 2004, por meio de um relatório técnico, recomendou que a ISO desenvolvesse uma norma internacional. Em junho de 2004, a ISO realizou em Estocolmo, na Suécia, uma conferência na qual se decidiu pela elaboração da norma. Em decisão histórica, o Brasil e a Suécia, por meio de seus organismos de Normalização, Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e Instituto Sueco de Normalização (SIS), foram eleitos para presidir o grupo de trabalho encarregado de elaborar a Norma Internacional de Responsabilidade Social. Depois de 6 anos a norma foi publicada (INMETRO, 2012). A ISO 26000:2010 é uma norma de diretrizes e de uso voluntário; não visa e nem é apropriada a fins de certificação. Qualquer oferta de certificação ou alegação de ser certificado pela ABNT NBR ISO 26000 constitui em declaração falsa e incompatível com o propósito da norma. (INMETRO, 2012). A norma foi elaborada para qualquer tipo de organização nos setores privado, público e sem fins lucrativos, independente de seu porte ou atividade e de sua experiência com o tema responsabilidade social. Todos os temas contêm várias questões e as organizações identificam suas particularidades e a implantam por meio do diálogo com as partes interessadas (ABNT, 2010). A norma foi organizada em sete seções. Na seção 1, traz o escopo, para quem ela é indicada conforme supracitado, na seção 2, os termos e definições, na seção 3, uma breve compreensão sobre responsabilidade social baseado em um bibliografia com fontes de reconhecida autoridade e orientação adicional. Na seção 4, revela os princípios da responsabilidade social, na seção 5, as duas práticas fundamentais da responsabilidade social: Reconhecimento da sua responsabilidade social dentro da sua esfera de influência e identificação e engajamento de suas partes interessadas. Na seção 6, os temas centrais da responsabilidade social e na seção 7 a integração da responsabilidade social em toda a organização visando o alcance da maximização da contribuição da organização para o desenvolvimento sustentável. Apesar de não representar um sistema de gestão como existe nas ISO 9001, 14000 entre outros, na prática a sua representação e aplicabilidade é como se fosse (ABNT, 2010). A norma não pretende substituir, alterar ou, de qualquer forma, modificar as obrigações do Estado. A norma técnica definida no âmbito de uma instituição internacional não governamental não tem este direito, mesmo que a norma tenha um impacto significativo na sociedade através da mudança comportamental das organizações. O funcionamento adequado do Estado é indispensável para o desenvolvimento sustentável, este é responsável para assegurar a aplicação efetiva de leis e regulamentos de forma a promover uma cultura de cumprimento às leis (ABNT, 2010 P.10). A Norma ISO 26000 destaca que a promoção da responsabilidade social nas organizações não é nem pode ser um substituto para o exercício efetivo dos deveres e responsabilidades do Estado. A responsabilidade social não é algo isolado e deve fazer parte de todas as decisões e atividades da organização para se chegar ao objetivo de maximizar sua contribuição para o desenvolvimento sustentável. (ABTN, 2010, P.1). Não deve ser algo imposto, no entanto consumidores, clientes, investidores, proprietários, enfim, a sociedade como um todo exerce influência financeira sobre as organizações em relação à responsabilidade social. Balanços sociais e relatórios que demonstrem o desempenho das empresas em RSE são mais frequentes e isso implica necessariamente em um comportamento transparente e ético e respeito e atendimento aos interesses das partes interessadas. (ABTN, 2010, P.7). A responsabilidade social parte de um princípio fundamental que é o respeito pelo estado de direito e conformidade com requisitos legais, não quer dizer que ela se restringe a isso, muito pelo contrário, ela transcende através de ações que levam em conta os valores éticos e outros valores amplamente aceitos. Apesar das expectativas de comportamento socialmente responsável variarem entre países e culturas, convém que as organizações respeitem as normas internacionais de comportamento, como as definidas na declaração Universal de Direitos Humanos e na Declaração de Joanesburgo sobre desenvolvimento sustentável (ABNT, 2010, P.7). A Norma destaca um “Box” para falar sobre a igualdade de gênero (masculino e feminino). Nesta norma afirma que todas as sociedades designam papéis para homens e mulheres. Somente nesta primeira frase é possível imaginar as discussões calorosas na elaboração da norma, já que os países têm relações sobre o gênero tão distintas. Segundo a Norma ISO 26000 convêm que as organizações busquem a equidade em termos de gênero, quanto a remuneração, desempenho das tarefas, treinamento, oportunidades de progresso. Como conceber esta parte da norma no mundo muçulmano? Marques (2010, P.1) afirma que a situação das mulheres muçulmanas, antes limitada ao trabalho doméstico, modifica-se ainda que não se possam negar algumas fontes de conflitos familiares. As mulheres reivindicam direitos iguais como mulheres e muçulmanas. Marques (2010, P.2) afirma que em alguns países de maioria muçulmana como a Indonésia há mulheres bem sucedidas no mundo dos negócios, mas que continuam a sua luta contra os radicalismos. A Norma ISO 26000, em seu texto muito bem escrito e cuidadoso, afirma que é aconselhável a organização entender em que contexto está inserida e que a mesma mantenha a consistência com as normas internacionais de comportamento e pautem o seu comportamento em normas, diretrizes e regras de conduta. É necessário entender a diversidade global e a utilização do bom senso e conduta moral no tratamento de situações específicas que seria impossível de ser coberta pela citada norma. Os sete princípios da responsabilidade social segundo a norma ISO 26000 são: Accountability, transparência, comportamento ético, respeito pelos interesses das partes interessadas, respeito pelo Estado de direito, pelas normas internacionais de comportamento e pelos direitos humanos. O último princípio de respeito aos direitos humanos tem um item que chama a atenção dos leitores que é o uso da expressão sempre que possível quando a norma registra que as organizações respeitem e, sempre que possível, promovam os direitos previstos na carta internacional dos Direitos Humanos. Sempre que possível? Provavelmente esta forma branda e sem se comprometer foi proposital para que a norma seja aplicável em países que tem histórico de não respeitar os direitos humanos. O engajamento das partes interessadas, item 5.3.3 da norma ABNT NBR ISO 26000:2010 faz parte das práticas fundamentais de responsabilidade social e a norma cita razões para que as organizações façam este engajamento para que: Aumentar a compreensão dos efeitos causados pela organização na relação com suas partes interessadas, diminuindo os impactos negativos e potencializando os positivos. Ajudar na análise do desempenho, determinar se as alegações de responsabilidade social feitas pela organização são vistas como confiáveis, conciliar conflitos envolvendo os interesses da empresa, os das partes interessadas e as expectativas da sociedade como um todo, formar parcerias, aumentar a transparência entre outros (ABNT, 2010, p.19). Os sete temas centrais da norma ISO 26000: Governança organizacional, direitos humanos, práticas de trabalho, meio ambiente, práticas legais de operação, questões relativas ao consumidor, envolvimento e desenvolvimento da comunidade são descritos em detalhes por abordar uma série de questões de responsabilidade social e estes devem ser vistos holisticamente pela organização para considerar todos os temas e sua interdependência, em vez e concentrar-se somente em uma questão (ABNT, 2010 p.20). Os temas centrais são organizados por uma breve visão geral, por princípios e considerações e questões envolvendo o tema central com a descrição, ações e expectativas relacionadas. Devido ao extenso conteúdo, citaremos as questões que mais saltam aos olhos imaginando um concenso internacional que é o relacionado a grupos minoritários e o meio ambiente. Em seu item 6.3.7.2 a norma ISO 26000 diz que uma organização não deve praticar a discriminação e deve facilitar a conscientização entre membros de grupos vulneráveis. Entende-se como grupos vulneráveis, o grupo de indivíduos que compartilham uma ou várias características que são a base para discriminação ou circunstâncias adversas sociais, econômicas, culturais, políticas ou de saúde, e que os priva de meios para gozar seus direitos ou igualdade de oportunidades. São citados os seguintes grupos: Mulheres e meninas, pessoas com deficiência, crianças, povos indígenas, migrantes, pessoas discriminadas com base em sua descendência, inclusive casta, pessoas discriminadas com base em raça, idosos, pessoas deslocadas, pobres, analfabetos, portadores de HIV/AIDS e grupos minoritários e religiosos. A norma trabalha com a amplitude global e as diferenças internacionais que existem. Em determinados países certos grupos vulneráveis podem nem ter este caráter de vulnerabilidade. Não é possível citar a responsabilidade social, sem tocar no assunto de preservação do meio ambiente. As organizações independentes de seu porte geram um impacto ao meio ambiente. A norma sugere que a organização respeite os seguintes princípios ambientais: Responsabilidade ambiental, princípio da precaução, gestão de risco ambiental e de poluidor pagador, ou seja, arque com os custos da poluição causada por suas atividades. A norma ISO 26000 ainda cita abordagens e estratégias ambientais a serem adotadas pelas organizações, tais como: Práticas de compras sustentáveis, uso de tecnologias e práticas ambientalmente saudáveis, aprendizagem e conscientização, abordagem do ciclo e vida, avaliação de impacto ambiental, produção mais limpa e ecoficiência e abordagem por sistemas de produto-serviço. As organizações podem melhorar seu desempenho ambiental evitando poluição de vários tipos, tais como: Emissões atmosféricas, descargas na água, gestão de resíduos, uso e descarte de produtos químicos e outras formas identificáveis de poluição. O uso sustentável de recursos através da eficiência energética, a conservação, uso e acesso à água, eficiência no uso de materiais e minimização da exigência de recursos por parte do produto é a garantia da disponibilidade de recursos para as gerações futuras. O atual volume de consumo e produção precisa ser modificado para que operem dentro da capacidade de suporte da Terra. (ABNT, 2010, p.46). A última seção, e com certeza a mais prática da Norma ISO NBR 26000:2010, mostra o caminho de como implementa-la na organização, integrando-a a todo o sistema de gestão. A responsabilidade social não é algo isolado que deva ser tratado por um grupo de pessoas dentro da organização e sim algo que vai de um espectro maior que é a sociedade e o meio ambiente, chega na organização que deve estabelecer uma estratégia de responsabilidade social, plano de ação, integração e comunicação para que realize o elo que é o engajamento das partes interessadas gerando uma contribuição para o desenvolvimento sustentável melhorado continuamente para que se retroalimente o sistema de gestão. (ABNT, 2010, p.72). A influência de uma organização provém de fontes como a composição acionária, a relação econômica, a autoridade legal/política e a opinião pública. A última e talvez a mais forte de todas (opinião pública) tem hoje uma capacidade de jogar uma empresa para céu ou para o inferno. Meios de comunicação cada vez mais rápidos como as redes sociais divulgam uma notícia sobre a organização que pode, dentro de uma progressão geométrica atingir uma infinidade de pessoas, podendo causar impactos de imagem irreversíveis. A comunicação é vital em várias funções da responsabilidade social, entre as quais: Conscientização sobre suas estratégias, objetivos, planos, desempenho e desafios da responsabilidade social dentro e fora da organização, demonstração de respeito pelos princípios da responsabilidade social, estabelecer o dialogo com as partes interessadas, fornecer informações sobre os impactos das atividades entre outros. (ABNT, 2010, p.79). As informações sobre RS convêm que sejam completas, compreensíveis, responsivas, exatas, equilibradas, tempestivas e acessíveis. Para que se divulguem estas informações existem muitos meios como as reuniões, eventos públicos, fóruns, revistas, vídeos, sites na internet, relatórios dentre outros. Quanto melhor a comunicação, melhor o engajamento das partes interessadas e o retorno da organização. (ABNT, 2010, p.80). Cabe ressaltar que um programa de responsabilidade social deve ser muito bem planejado, caso contrário o efeito pode ser pior do que o não fazer. A organização deve considerar os seguintes fatores: Verificar se a iniciativa é consistente com os princípios de RS definidos na norma, se aborda um dos temas centrais, se foi elaborada para o seu tipo específico de organização ou áreas de interesse, se é local, regional ou tem aspecto global, se ajudará a organização a atingir grupos específicos ou partes interessadas e quanto a acessibilidade desta iniciativa, incluindo todos os tipos de recursos: Financeiros, humanos, logísticos entre outros. (ABNT, 2010, P.86). CONSIDERAÇÕES FINAIS Este artigo teve como objetivo apresentar ainda que de forma breve a norma ABNT NBR ISO 26000:2010 e o desafio para que se chegasse a um texto universal de um tema tão debatido na academia e no meio empresaria, que divide opiniões em relação ao seu conceito, ao seu alinhamento à estratégia da organização, aos interesses – “quem ganha com isso” e a transferência de responsabilidade do Estado para as organizações. Em um mundo globalizado onde diferenças culturais e sociais são tão aparentes, pensar em uma norma que uniformalize o conceito de responsabilidade social soa como desafiador. Como eles conseguiram? Percebe-se o uso da palavra convém, originada do verbo convir que foi uma forma que a norma encontrou para não se comprometer. Assim como expressões como “sempre que possível”, isso não desmerece o valor da norma, mas mostra que este foi apenas um primeiro passo dentro de um campo que deve avançar muito, o da responsabilidade social corporativa. O governo Brasileiro poderia criar um prêmio que valorizasse empresas que adotassem a norma ISO 26000 em suas práticas de gestão. Outra sugestão de grande valia seria privilegiar estas empresas nas compras públicas, gerando uma competição saudável onde o maior beneficiário seria o Estado. O investimento em empresas, principalmente as micros e pequenas é o maior caminho para diminuir a desigualdade social neste país e o Estado ainda retorna parte de seu investimento, através da arrecadação de impostos. A norma é bem completa e extensa e não seria possível citar todos os seus itens. Apenas alguns pontos foram destacados e isto se configura uma das limitações do presente artigo. Uma sugestão de novas publicações seria um estudo mais aprofundado pelos itens da norma e que uma das pessoas que tenha participado da elaboração da norma pudesse contar a o desafio de conciliar interesses e valores tão distintos, chegando a essa norma que não é certificável e serve como um guia para qualquer tipo de organização, independente do porte, atividade ou nível de implementação de um programa de responsabilidade social. REFERÊNCIAS ABNT – Associação Brasileira de Normas técnicas. NBR ISO 26000:2010, Diretrizes sobre responsabilidade social, Rio de Janeiro, ABNT, 2010 BERTONCELLO, Silvio Luis Tadeu; CHANG, João Junior A importância da Responsabilidade Social Corporativa como fator de diferenciação, FACOM – nº 17 – 1º semestre de 2007 ETHOS, disponível em:http://www1.ethos.gov.br/ethosweb/PT/93/ acessado em 21 de março de 2012 ETHOS & SEBRAE, Responsabilidade Social para micro e pequenas empresas – Passo a Passo, São Paulo, 2003 GIAMBIAGI, Fabio; PORTO, Claudio; 2022 Propostas para um Brasil melhor no ano do Bicentenário, Rio de Janeiro, Elsevier, 2011 INMETRO,disponível em:http://www.inmetro.gov.br/qualidade/responsabilidade_social/ acessado em 16 de março de 2012 HELD, David; MCGREW, Anthony. Prós e contras da globalização. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. KOTLER, Philip ET.al, Marketing 3.0, Rio de Janeiro, Ed. 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