Não é preciso ancorar-se em uma pesquisa estatística, para aferir que as culturas atuais, com ênfase nas ocidentais, estabeleceram diferenças notáveis entre aquilo que é benéfico, e aquilo que é maléfico, de tal modo a tornar tais critérios incontestáveis, injugáveis, resultado: ao nascermos, somos lançados em um lago de verdades pronto, valorando atitudes que nem sempre possuem valor digno. Então, pergunta-se a qualquer voluntário social: “o sonho é bom ou ruim?” , ou ainda, “a solidão é algo bom?”, “otimismo ou pessimismo?”, a resposta parece óbvia para maioria, eis a fórmula da nossa civilização: prazer=bem e dor=mal, logo, tudo que não enquadra-se na primeira equação, pertence a segunda; e todos os pertences da segunda, são tidos como coisas a se ignorar, de outra forma, ruins. Nietzsche foi um dos filósofos, e talvez o mais radical, a contestar esse “mar de monstros”. Vejamos o sonho natural ao Homem, aquele que surge no momento de descanso. Nele, todos os acasos interligam-se, de forma a criar um sentido, trazendo-nos sensações, ora agradáveis e ora desagradáveis. Contudo, este primeiro estágio só é possível, porque na natureza deste sonho, ele só existe com a carência do impulso causal, ou seja, da manifestação pela busca de razões, de porquês. Logo, até mesmo um tiro de canhão faz sentido, por mais absurdo que pareça. Ao termos um sonho dessa espécie, não é cabível a nós, humanos, invadir o sonho e perguntar o motivo do disparo do tiro de canhão, a causa é embalada junto ao sonho, ou como Nietzsche (p. 54) diz: “as representações geradas por um certo estado foram mal entendidas como causa do mesmo”. O fato instigante, é que o mesmo fenômeno ocorre quando se está acordado, conforme Nietzsche (p. 54): “Na verdade, fazemos a mesma coisa quando acordados. A maioria de nossas sensações gerais – toda espécie de inibição, pressão, tensão e explosão no funcionamento dos órgãos – estimula nosso impulso causal: queremos uma razão para nos sentirmos desta ou daquela maneira – para nos sentirmos bem ou mal.” Deste modo, para cada situação que produz em nós sensações más ou boas, buscamos uma razão, um porquê. É cabível ressaltar o papel da memória neste processo, superficialmente falando, ela registra tal razão, e em situações da mesma espécie, ele traz à tona a mesma razão, a fim de produzir sensações e interpretações semelhantes. O grande impasse de tudo isso, é que o nosso impulso causal não busca qualquer razão para justificar o ocorrido, ao contrário, ele busca uma causa específica, capaz de aliviar todo estado de tensão que estamos sentindo, de outra forma, uma causa que nos permita sentir-se bem, como consequência, não encontramos, nas mais variadas vezes, as causa reais, mas causas especializadas e orientadas a gerar sensações prazerosas em nós. Como resultado, grande parte das pessoas não assumem a resposanbilidade por aquilo que fizeram, pois seguindo a lógica citada acima, elas nunca fizeram nada de maléfico. O impasse aumenta ainda mais, com o papel da memória, ou seja, quando situações semelhantes voltarem a ocorrer, a memória dirá ao seu “eu” o mesmo que já foi dito em situações passadas. Sintetizando, temos: em uma situação conflituosa, seu impulso causal fará de tudo para te colocar como inocente no cenário todo, não por você ser inocente (não descartando esta possibilidade), mas porque isso te fará se sentir bem, melhor. É um tanto quanto difícil alinharmo-nos plenamente com o pensamento nietzscheano, isso torna toda afirmação parcialmente inválida. Contudo, Nietzsche pode estar tentando nos dizer para olhar para esse desconhecido, esse mundo que o impulso causal despreza para nos fazer se sentir melhor, apresentando-nos razões falsas sobre nós mesmos, colocando-nos na inocência sempre, diante disso, há de se considerar, que se estivermos dispostos a encontar uma verdade sobre a nossa realidade, é preciso que tenhamos a ousadia de entrar nesse “mar de monstros”. Isto quer dizer, o abandono de todo o idealismo que transcende a vida real. Por fim, para conluir a respeito do sonho – grande arma dos empreendedores – é preciso colocar, que o sonho por si só, não segue uma lógica, uma investigação, é o que garante sua existência, assim, o sucesso de qualquer negócio não é produto de um sonho, e sim, produto de um planejamento com base na realidade presente. Referências: NIETZSCHE, Friedrich W. Crepúsculo dos Ídolos. Tradução, apresentação e notas de Renato Zwick. Porto Alegre, RS: L&PM, 2016.