Sempre admirei a figura dos camelôs. Além dos slogans criativos e gritos bem-humorados apregoando sua mercadoria e atraindo a freguesia, têm uma inegável qualidade. São dotados de um raro e intuitivo senso de oportunidade. Onde haja uma aglomeração com mais de meia dúzia de potenciais compradores, lá estão eles. Lançam moda e detectam tendências – o esmalte da mocinha da novela a bijuteria da celebridade de então, o creme do penteado do galã que faz as mocinhas suspirarem. E, assim, este “jeito camelô de ser” tem contaminado nossa postura e a maneira de fazer negócios e levar a vida. Não pelo lado bem-humorado e criativo. Mas pelo vício da improvisação. O camelô não planeja. Ou se planeja, planeja pouco. Está sempre se virando ou trabalhando até que a onda passe. Não tem visão do médio prazo pra diante. Trabalha por espasmos e de uma forma rudimentarmente intuitiva. O Sebrae e algumas entidades do mundo econômico periodicamente publicam pesquisas apontando o brasileiro como empreendedor. Aquele que, cansado da rotina e do salário, resolve demitir o patrão e se aventurar pelo mágico e maravilhoso mundo do “negócio próprio”. Mas uma coisa é comercializar quinquilharias verde-amarelas em plena Copa do Mundo. Outra é vender. Qualquer coisa, desde uma garrafinha de água mineral no semáforo até ideias e projetos. Não se trata de complexas equações de matemática financeira ou conselhos que mais se assemelham a pílulas de livros de auto-ajuda barata. Na verdade, não somos mesmos é capazes de planejar. Avessos à burocracia, optamos por uma informalidade suicida. Recentemente, a Seleção Brasileira pagou caro por um planejamento inconsistente e a aposta no personalismo e nos gritos à beira de campo. E esta postura – a de trabalhar por espasmos – se espalha. É o estudante que presta vestibular porque determinada profissão está 'bombando'! 'Concurseiros' atrás de um emprego público que promete estabilidade e devolve inadequação. São empresas que surgem prometendo a fórmula milagrosa ou o enriquecimento milionário em questão de segundos… Passada a euforia, a profissão está saturada (o mercado de trabalho tem limitações) e as promessas estavam mesmo sempre muito perto do charlatanismo. Planejar, pensar, estudar, estudar, estudar, ler… Pesar prós e contras – sem o ufanismo oficial e o pessimismo oposicionista, por gentileza! Por falar nisso, você já se planejou para o fim do ano? Ou será que #naovaiternatal?