Em um ambiente complexo e evolutivo, as empresas necessitam constantemente alterar sua realidade para se manterem competitivas, onde dependem da sua flexibilidade, criatividade, experiência e das pessoas que nela trabalham. A melhoria dos processos de fabricação é fundamental para atender os atuais e novos mercados de maneira competitiva. A concorrência atualiza-se a cada dia, inovar em processos é uma necessidade para reduzir custos e gerar valor para a empresa. Por meio da automação de processos, o fator de produção será elevado, garantindo resultados operacionais para a empresa. Para a aquisição de processos automatizados na substituição de processos manuais é essencial analisar a viabilidade financeira do projeto de investimento. A cadeia de valor é um conjunto de processos que uma empresa realiza para criar valor para seus clientes. Para Porter (1989) a vantagem competitiva resulta da capacidade da empresa realizar eficientemente o conjunto de atividades necessárias para obter menor custo que seus concorrentes ou de organizar essas atividades de uma forma única, capaz de gerar um valor diferenciado para seus clientes. Os investimentos de modernização referem-se aos que consistem na adoção de um modo de organização industrial pela implantação de um novo processo de produção, com equipamentos que visam à melhoria da produtividade, da qualidade dos produtos e à flexibilização do sistema produtivo. Esses investimentos permitem à empresa fazer frente ao futuro crescimento da demanda (GASLENE; FENSTERSEIFER; LAMB, 1999). O objetivo da empresa bem como de seus administradores e colaboradores é maximizar a riqueza de seus proprietários. Em um projeto de investimento, quando se examinam alternativas de decisão financeira, os administradores devem aceitar somente aquelas que tendem a aumentar o valor da ação (GITMAN, 2004). As finanças corporativas, quando dirigidas às decisões sobre investimentos, financiamentos e dividendos, colaboram para maximizar o valor da empresa. Considerar o valor do dinheiro no tempo (remuneração ou desconto do capital com base em uma taxa de juros) é fundamental nas finanças corporativas, visto que para análise de projetos os fluxos de caixas são gerados por vários anos e os ativos são avaliados com as mesmas características (DAMODARAN, 2004). O estudo de viabilidade de um empreendimento, como a aquisição de um novo equipamento para melhoria de um processo de fabricação, define-se como a análise de um projeto a ser executado com o objetivo de verificar sua justificativa, considerando os aspectos técnicos, econômicos, financeiros, entre outros. Hirschfeld (2007) complementa que o levantamento das posições econômicas do projeto é realizado por meio de um fluxo de caixa, que é definido como a avaliação das contribuições monetárias (entradas e saídas de dinheiro) ao longo do tempo. Nessa perspectiva, para obter vantagem competitiva, a indústria precisa inovar seus processos de fabricação. Segundo Tidd, Bessant e Pavitt (2008), a inovação de processo refere-se às mudanças ou melhorias significativas no processo, envolvendo técnicas, equipamentos, sistemas de informação ou produção para alcançar eficiência, como o processamento mais rápido, maior rendimento ou menor custo. Em relação à análise de investimentos, o foco é fornecer uma estimativa de valor adicionado ao negócio de uma empresa diante de uma oportunidade. Assim, faz-se necessário traduzir essa oportunidade em termos quantitativos e monetários sobre o fluxo de caixa descontado. A análise do fluxo de caixa descontado tem como resultado os desembolsos e retornos financeiros que devem ser analisados de maneira a obter uma indicação sobre a rentabilidade do investimento. O desconto do fluxo de caixa é realizado por uma taxa de juros, que também pode ser conhecida por taxa de desconto ou taxa mínima de atratividade (MOTTA et al., 2009). Dentre os métodos clássicos de análise de investimentos que consideram o valor do dinheiro no tempo, destacam-se: o método do custo anual uniforme (CAU), o método do valor presente líquido (VPL) e o método da taxa interna de retorno (TIR). Esses métodos são equivalentes entre si e convergem para a mesma alternativa de ação como sendo a melhor (PILÃO, HUMMEL; 2011). Além disso, os autores citam o método payback (tempo de retorno), mas justificam que essa técnica desconsidera o valor do dinheiro no tempo, regra fundamental da matemática financeira e da engenharia econômica. Entretanto, esse método pode ser aprimorado, ao se descontar os fluxos de caixa para uma mesma data, tornando uma técnica mais racional, conhecida por payback descontado. Para exemplificar os conceitos teóricos, será apresentado um estudo de caso envolvendo uma aplicação de análise de viabilidade financeira de investimento para aquisição de uma célula automatizada de soldagem em uma indústria do setor metal mecânico. Conforme a Confederação Nacional da Indústria (CNI, 2020), a indústria como um todo representa 21,4% do PIB do Brasil, responde por 70% das exportações de bens e serviços, 69,2% do investimento empresarial em pesquisa e desenvolvimento e 33% dos tributos federais (exceto receitas previdenciárias). A indústria de transformação é responsável por 20,4% do emprego formal e para cada R$1,00 produzido são gerados R$2,40 na economia como um todo. Nos demais setores, o valor gerado é menor, sendo R$1,66 na agricultura e R$1,49 no comércio e serviços. Esse estudo de caso reporta-se a um fabricante de conjuntos soldados para atender o segmento de implementos rodoviários. Atualmente, são necessários cinco operadores para realizar as operações na célula de trabalho em dois turnos. A análise da viabilidade financeira do projeto consiste na aquisição de uma célula automatizada de soldagem para realizar a mesma função dos operadores. Para a análise financeira do projeto de investimento, foi elaborado um fluxo de caixa para cinco anos, período do contrato de fornecimento dos conjuntos soldados pela empresa de implementos rodoviários. As principais premissas adotadas foram: • análise financeira pelo método VPL (somatório dos fluxos de caixa líquidos descontado o investimento inicial); • investimento inicial de R$ 450.000,00 para a célula automatizada completa instalada, inclusos impostos e frete, itens de segurança conforme legislação e os sistemas de fixação para os conjuntos soldados; • depreciação linear de cinco de anos para a célula automatizada de solda; • alíquota de 34% para o IRPJ (imposto de renda pessoa jurídica) e CSLL (contribuição social sobre o lucro líquido). Para o projeto foi considerado que a empresa tem recursos financeiros próprios, não necessitando de capital de terceiros. No fluxo de caixa constam os valores das receitas já subtraídas das despesas. As receitas originam-se do aumento do volume de produção, da redução de retrabalho e de custos com a mão de obra. As despesas são referentes aos insumos para manutenção da célula e treinamento operacional. Em relação aos cinco operadores da linha de produção, um deles será treinado e qualificado para operar o robô e os demais serão transferidos para outras áreas da empresa. A taxa mínima de atratividade (TMA) utilizada no projeto foi de 15,58% a.a., calculada pelo modelo de precificação de ativos, conhecido por CAPM (Capital Asset Pricing Model), por meio da equação 'Ke = Rf + β X (Rm – Rf)', com base nas seguintes premissas: • Rf – taxa de juros livre de risco: 6,50% a.a. (taxa Selic projetada para o período); • β – índice beta do segmento em análise: 2,0; • Rm – taxa de rentabilidade do mercado: 11,04% (considerando a série histórica do índice Ibovespa desde 1998). Na análise do fluxo de caixa do projeto, aplicando a depreciação, descontando o IR/CSLL e aplicando a taxa de desconto aos valores líquidos projetados para cinco anos, apresentou um VPL positivo de R$137.735,34. O resultado do VPL positivo (VPL > 0), indica que houve retorno de capital para empresa. Com o objetivo de mitigar os riscos, o projeto se viabiliza ainda que houver variação da TMA em até 27% a.a. e se as receitas esperadas do fluxo caixa, mantendo todas as premissas, forem reduzidas em até 28% a.a. Para além do resultado financeiro, esse projeto obteve aumento de produtividade, melhoria da qualidade das peças produzidas, menor variação do volume de produção, redução de custos e redução do risco de acidentes. O objetivo desse estudo de caso foi demonstrar a viabilidade do investimento, permitindo a tomada de decisão alinhada à estratégia de negócios. A inovação em processos industriais pode ser uma estratégia que gera valor para a empresa e conduz na obtenção de vantagem competitiva no mercado. Nesse contexto, os benefícios de um projeto de investimento compreendem as prioridades da empresa, as informações de mercado e a coleta e análise de dados para a tomada de decisão. Conclui-se que a tomada de decisão de investimento para a automação de processos na indústria, baseado na análise de viabilidade financeira, consolidam os benefícios que a inovação de processos traz para a produção industrial no âmbito econômico. Referências BANCO CENTRAL DO BRASIL. Focus: relatório de mercado. Abril, 2021. Disponível em: <https://www.bcb.gov.br/publicacoes/focus>. Acesso em 3 mai. 2021. CNI. Portal da indústria: entenda a economia do Brasil, seu contexto, atualidades e perspectiva. Dezembro, 2020. Disponível em: < http://www.portaldaindustria.com.br/industria-de-a-z/economia>. Acesso em 3 mai. 2021. DAMODARAN, A. Finanças corporativas: teoria e prática. 2.ed. Tradução de Jorge Ritter. Porto Alegre: Bookman, 2004. GASLENE, A.; FENSTERSEIFER, J. E.; LAMB, R. Decisões de investimentos da empresa. São Paulo: Atlas, 1999. GITMAN, L. J. Princípios de administração financeira. 10.ed. Tradução de Antônio Zoratto Sanvincente. São Paulo: Pearson Addison Wesley, 2004. HIRSCHFELD, H. Engenharia econômica e análise de custos: aplicações para economistas, engenheiros, analistas de investimentos e administradores. 7.ed. São Paulo: Atlas, 2007. MOTTA, R. R. et al. Engenharia econômica e finanças. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009. PILÃO, N. E.; HUMMEL, P. R. V. Matemática financeira e engenharia econômica. São Paulo: Cengage Learning, 2011. PORTER, M. E. Vantagem competitiva: criando e sustentando um desempenho superior. 16.ed. Rio de Janeiro: Campus, 1989. TIDD, J.; BRESSANT, J.; PAVITT, K. Gestão da inovação. 3.ed. Tradução: Elizamari Rodrigues Becker et al. Porto Alegre: Bookman, 2008. Autor: Edson Urtado, MBA em Finanças e Engenheiro Mecânico, Mestrando em Administração pela FIA (Fundação Instituto de Administração). Coautor: Rodolfo Leandro de Faria Olivo, PhD em Administração pela FEA-USP, professor de Finanças, Economia e Empreendedorismo pela FIA (Fundação Instituto de Administração). SAIBA MAIS Uma boa forma de simular a TIR e o VPL para diferentes valores de investimento inicial, depreciação, alíquota de imposto e TMA é utilizando uma planilha para isso. A galera da Hashtag Treinamentos preparou um modelo pronto que pode te ajudar bastante.