O MITO DA ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO ou A REPARAÇÃO DE UM ERRO NO ENSINO DA ADMINISTRAÇÃO O ensino da Administração é sempre iniciado com a história de seu nascimento através das suas 'Escolas', sendo a primeira, a Administração Científica, a mais condensada e seu autor o mais insistentemente criticado. Veremos no decorrer dos depoimentos que Frederick W. Taylor, fundador da Administração foi um dos maiores gênios do século XX, e o mais atacado também pela revolução que ele causou nos conhecimentos defendidos pelos seus detratores, sindicatos, psicólogos, gerentes e economistas. Seu nome deve ser respeitado como quem reorganizou a economia americana fazendo os Estados Unidos vencerem a guerra contra Hitler. Não fosse Taylor e seríamos todos países nazistas. Este outro lado da história pode começar mostrando como foi formada a classe operária sobre a qual a administração foi aplicada. Tomamos um depoimento de uma quase testemunha dos fatos narrados: trata-se de KARL MARX, em A Origem do Capital da Editora Fulgor – 1972. 'Na Inglaterra o sistema feudal tinha praticamente desaparecido já no início do século XV. A imensa maioria da população compunha-se de camponeses livres, cultivando suas próprias terras usando os títulos feudais para proteger seus direitos de posse. Os camponeses propriamente ditos, tinham direito ao usufruto dos bens comunais, onde eles faziam pastar seu gado e se proviam de árvores, lenha, turfa etc., para o aquecimento, e para o cutlivo de onde tiravam sua alimentação e outros produtos.' 'Notaremos de passagem que o próprio servo era não somente possuidor, tributário, é certo, das parcelas atinentes à ‘sua casa, mas também co-possuidor dos bens comunais. O traço mais característico da produção feudal em todos os países da Europa ocidental, é a partilha do solo entre o maior número maior possível de semi-servos. O senhor feudal era, como qualquer outro soberano, dependente mais do número dos seus súditos que do conteúdo da sua bolsa, isto é; dependia do número de camponeses estabelecidos em seus domínios. O Japão, com sua organização puramente feudal ela propriedade territorial e sua pequena cultura, oferece, pois, em muitos pontos de vista, uma imagem mais fiel da idade média européia do que nossos livros de história imbuídos de preconceitos burgueses.' 'A revolução que ia lançar os primeiros fundamentos do regime capitalista teve seu prelúdio no último terço do século XV e no começo do século XVI. Nessa época o licenciamento da numerosa criadagem senhorial – da qual Sir James Stewart disse muito a propósito que ela “estorvava -a torre e a casa senhorial” – lançou de improviso, no mercado de trabalho, uma massa de proletários sem lar nem pão. Em guerra aberta com a realeza e o Parlamento, os grandes senhores criaram um proletariado muito mais considerável, usurpando os bens comunais dos camponeses e expulsando-os do solo que estes possuíam com o mesmo direito que seus senhores. O que, na Inglaterra, deu sobretudo lugar a estes atos de violência, foi a expansão das manufaturas de lã em Flandres e a alta dos preços ele lã que daí resultou. A longa Guerra das Duas Rosas tendo devorado a antiga nobreza, criara uma nova para a qual o dinheiro era o supremo poder.' 'Transformar as terras de cultivo em pastos, criar carneiros, produzir lâ e ganhar grandes lucros, tal foi o seu grito de guerra. Se se quiser compulsar os antigos inventários de cada mansão senhorial, ver-se-á que inúmeras casas desapareceram com os pequenos cultivadores expulsos para a periferia das cidades onde a fábricas nasciam. ' 'No norte da Inglaterra e nos outros países da Europa, quando se começou, no último terço do século XVIII, a expulsar os celtas e outros germanos de suas terras, proibiu-se-lhes ao mesmo tempo a emigração, para o estrangeiro, a fim de obrigá-los, deste modo, a afluir a Glasgow e a outras cidades fabris. Georges Ensor diz em seu livro publicado em 1818: “Os grandes da Escócia expropriam famílias como se extirpassem a má erva; procedem para com as aldeias e seus habitantes como os índios ébrios de vingança tratam as feras em suas guaridas. Um homem é vendido por uma pele de ovelha, por uma perna de carneiro ou por menos ainda … Quando da invasão da China setentrional, o Grande Conselho dos Mongóis discutiu se não seria conveniente exterminar a todos os habitantes do país e convertê-lo num vasto campo ele pastagem. Numerosos grandes latifundiários da Escócia puseram em execução em seu próprio país e contra seus próprios compatriotas aquele desígnio.” A iniciativa mais mongólica provém da Duqueza de Sutherland. Esta mulher, logo que assumiu as rédeas da administração resolveu apelar para os grandes meios e transformar em .campos de pastagens todo o condado,cuja população se encontrava reduzida a quinze mil almas. Desde 1814 a 1820, estas 15 mil pessoas, formando aproximadamente três mil famílias, foram sistemàticamente expulsas. As aldeias foram destruídas e queimadas e seus campos transformados em campos de pastagens. Uma velha mulher, que se negava a abandonar a sua choça, pereceu entre as .chamas. Assim foi como a nobre dama se apropriou de 794 000 acres de terras que pertenciam ao clã (tribo) desde tempos imemoriais.' 'Uma parte dos espoliados foi expulsa definitivamente; à outra concederam perto de seis mil acres de terras à beira-mar, terras até então incultas e que jamais tinham produzido coisa alguma. A Duqueza levou a sua grandeza de alma a ponto de arrendá-las pela módica quantia de 2 shilings e 6 pences por acre aos membros do clã, que, durante séculos, tinham derramado seu sangue a serviço dos Sutherland. Em 1825, os 15.000 proscritos tinham deixado lugar para 131.000 carneiros de lã.' Estes camponeses expulsos conseguiram fugir para as periferias das cidades onde eram forçados a trabalhar nas oficinas e máquinas em troca de pratos de comida. Esta é a origem de grande parte dos recém chegados aos Estados Unidos e que formavam filas para trabalhar nas fábricas onde surgia a Administração. O PARADIGMA DAS CLASSES EM CONFLITO. Este paradigma poderia também ser chamado como o da falácia das teorias socialistas, criadas a partir da crítica marxista à economia clássica considerada uma pseudo ciência, como a classifica Mario Bunge, em sua Filosofia do Conhecimento. Dos vários enfoques com que foi tratada a revolução Industrial, todos partilhavam da idéia de que ela fora resultante de um processo econômico e disparadora de outro processo econômico. Como o paradigma das explicações econômicas não conseguiu satisfazer às necessidades práticas de uma sociedade mais harmoniosa, nem reduzir os males que afligem aos três quartos da população mundial que passa fome, não tem saúde nem habitação adequadas, e ainda induziu às agressões ambientais das quais todos nós somos vítimas, optamos por seguir uma linha mais humanizada, apresentada pelos ecologistas e pelo maior dos gurus da administração, Peter Drucker. Drucker, em seu livro A sociedade pós capitalista, descreve que, por volta de 1700, um elemento crítico percorreu a Europa através das idéias de seus maiores expoentes. O valor adquirido pelo conhecimento como capacidade modificadora da sociedade modificou as condições históricas, transformando o capitalismo no Capital Ismo e promovendo o avanço técnico que culminou na Revolução Industrial. Desde os filósofos gregos o conhecimento era reconhecido e analisado. Para Sócrates era auto-conhecimento. Para Protágoras era a lógica, a gramática e a retórica, que se transformariam no “trivium”, o conhecimento trivial que os cavaleiros deviam ter na Idade Média e que deu as bases da educação liberal deste século XX. Este era o conhecimento necessário às elites educadas. Conhecimento era apenas conhecer, para conversar a respeito, demonstrar erudição, diferenciar se da plebe. Não significava a capacidade de fazer, nem era uma utilidade. Aliás, utilidade não era conhecimento, era aptidão, cujo grego é Technê. Sócrates e Protágoras respeitavam a Technê, mas não lhe davam valor. Aquilo que o capitão do navio sabia para guiar seu barco e levar sua carga do porto de Pireu até a costa fenícia e trazê lo de volta não podia ser aplicado a mais nenhum outro, salvo a um outro barco, e cada viagem completa era um presente dos deuses. A única maneira de se adquirir Technê era através do aprendizado como artífice, e a prática se transformava em experiência. Até 1700, Technê não podia ser explicada em palavras ou em textos, só podia ser demonstrada. Não se falava em habilidades mas em “mistérios” que seu possuidor como os pedreiros livres construtores de catedrais jurava jamais revelar. Em 1700 a tecnologia foi inventada, Technê renasceu para o sol , o mistério de uma habilidade, e foi juntada a LOGIA, conhecimento básico, sistemático. Em 1747 foi cria da a primeira escola de engenharia na França, seguindo se em 1770 de uma escola de agricultura e em 1776 da escola de mineração, ambas na Alemanha, até que em 1794 surge a Escola Politécnica, a primeira universidade das técnicas e, com ela a profissão de engenheiro. O grande testemunho desta mudança foi um dos livros mais importantes da história, a famosa Enciclopédia, gerada na revolução francesa. Diderot, d’Alembert e outros, reuniram de forma organizada e sistemática o ” conhecimento de todas as artes artesanais”. Mas a Enciclopédia pregava duas outras revoluções( mais tarde continuadas por Taylor na Administração Científica): • que os princípios que davam certo em uma profissão dariam certo em outra (reduzia o poder do segredo), e • que “qualquer um que ler a Enciclopédia e seguir suas orientações poderá ser um tecnólogo” (reduzia o poder dos artífices em formar aprendizes). Cem anos depois, Justus von Liebig aplicava a ciência para criar fertilizantes artificiais, e estava criada a produção do novo conhecimento a partir de um princípio geral, o início da era da máquina. Enquanto tudo isto acontecia, Adam Smith em 1792 publicava A riqueza das Nações, e não contemplava nem o papel da máquina nem o da tecnologia. A produção descrita por ele de uma fábrica de alfinetes é artesanal apesar das máquinas. O que ele destaca como fundamental é a divisão do Trabalho. Com exceção do nosso escolhido Peter Drucker, dedicado a Administração por toda sua vida, nem Adam Smith, nem os economistas que o seguiram conseguiram entender a transformação operada no sistema social: as empresas tomaram por função tornar produtivos os conhecimentos e, mais do que isto, gerar novos conhecimentos a partir de conhecimentos. A reorganização social re-elaborou o modelo da Polis a cidade para consolidar o das organizações. De desprezada, tornou se veículo da riqueza das nações: a Tchnê criava-se a si própria. Mesmo nos anos 1800, as fábricas transformaram a qualidade de vida da população que fugia da semi escravidão do meio rural. Apesar da vida dura nas periferias urbanas, ainda hoje ela é melhor que em certos ambientes de produção rural, sem a menor assistência e em completo abandono. Apesar disto, o conselho de Adam Smith foi seguido, dividindo o trabalho em partes cada vez menores como na fábrica de Ford, e isolando os trabalhadores do seu trabalho. Continuando esta miopia econômica, Karl Marx pintou de negro o ambiente industrial que ele via como consequência da expropriação de terra construindo as condições anteriores, e profetizou o fim do capitalismo a partir de uma luta de classes, profecia retirada do modelo dialético de choque dos opostos, da vida e do progresso como resultantes de uma contradição. No final do século XIX o pensamento marxista era compartilhado por grande parte da elite, mesmo não acreditando em seus resultados. Aliás, os economistas sempre foram muito usados mas nunca levados muito a sério. O banqueiro J. P. Morgan, citado por Drucker, confiava que os militares manteriam os proletários no seu lugar. Outros se levantaram propondo minimizar a agressividade suposta do ambiente de trabalho, assumido a postura conhecida como Liberal. Uma visão moderna sobre os acontecimentos daquela época baseada na gestalt, mostraria que o cenário criado pelos economistas transformou se na imagem mental de trabalhadores, empresários, sindicatos e governos. Como consequência, seus atos construíram um mundo semelhante a estas imagens. Tudo indicava que a previsão Marxista se concretizaria também na Europa e nos Estados Unidos. No entanto, o marxismo fracassou. Foi derrotado liberalmente, permanecendo apenas como um conhecimento elitizante como Sócrates e Protágoras prescreviam, tão a gosto da nova classe de intelectuais, professores e políticos. Quem, ou o que, o derrotou? Qual força superou as “inevitáveis contradições do capitalismo”, a alienação, a indigência do trabalhador e toda a noção de proletariado? Esta página da história se deve, segundo Drucker, a um só homem, Frederick Winslow Taylor Taylor, como é mais conhecido, o criador da Administração Científica, um dos pais da Administração. Conforme diz Drucker, o que levou Taylor a estudar cientificamente o trabalho do operário foi a sua revolta diante do ódio crescente e mútuo entre empresários e trabalhadores, que dominara os últimos anos do século XIX e o começo do século XX. Taylor viu o mesmo que Marx e os outros economistas. Mas ele viu algo que os outros deixaram de ver: O CONFLITO ENTRE PATRÕES E OPERÁRIOS ERA DESNECESSÁRIO. Taylor desenvolveu um método de análise e otimização do trabalho e um processo de treinamento que transformava, em semanas, um recém fugido da agricultura, num operador de máquina altamente produtivo. A obra de Taylor foi mais bem retratada nas revistas e relatórios da época. Companhias que aumentavam sua produtividade de até 400% em poucos meses eram notícia. Mas sua motivação não era a eficiência nem os lucros para os proprietários. Até o fim de sua vida ele enfatizava que os maiores beneficiários da produtividade deveriam ser os trabalhadores. Como era o método de Taylor ? Vejamos o que se diz a seu respeito depois de passada a fase das invejas e agressões. Apesar de todos os autores dos livros de teoria geral da Administração obscurecerem a importância de Taylor, eis o que diz uma revista moderna, Aventuras da História, nº 41, janeiro de 2007, editora Abril. FREDERICK TAYLOR – O senhor do tempo Pioneiro da consultoria empresarial, ele fez a alegria dos patrões e a tristeza dos operários. Depois de Frederick Taylor e seu implacável cronômetro, o mundo nunca mais trabalhou do mesmo jeito – Reportagem de Cássio Starling Carlos Pouca gente sabe, mas boa parte de nossa mania de organização nasceu com Taylor Não é de hoje que as pessoas se queixam da falta de tempo para executar as tarefas diárias. No trabalho, na escola ou no lazer. No fim do século 19, um homem resolveu parar de reclamar e encarar esse problema crônico. Acabou revolucionando o capitalismo. Até então, a produção não tinha perdido o lado artesanal: na maior parte das indústrias, os operários trabalhavam do modo que achavam melhor. E no ritmo que queriam. A grande idéia do americano Frederick Winslow Taylor foi usar um pouco de ciência nas fábricas. Ele começou a cronometrar o tempo gasto por trabalhadores em cada uma de suas ações – de martelar um prego a empilhar caixas. Depois de padronizar todos esses movimentos, ele era capaz de prever quanto um bom operário demoraria para terminar seu serviço. Bingo! Nascia um jeito de os empresários controlarem seus empregados, exigindo que eles dessem o máximo de si no dia-a-dia e cumprissem metas realistas – evitando o desperdício de tempo e de matéria-prima. As inovações criadas por Taylor ajudaram a salvar o capitalismo de uma séria crise. Com a chamada Revolução Industrial, que tinha começado no século 18, fábricas pipocaram e a oferta de produtos manufaturados, como roupas e sapatos, explodiu. Cada mercadoria lançada era uma novidade, e havia um monte de gente afoita para comprar tudo o que aparecia. Por volta de 1880, essa febre de consumo começou a diminuir. Faturando menos, os empresários tiveram que conter os altos custos de produção. O jeito foi tentar fazer os trabalhadores produzirem mais usando os mesmo recursos de sempre. Foi aí que entrou a ciência de Taylor. Quando seus métodos de planejamento se generalizaram, a partir do início do século 20, o que se viu foi um baita aumento da produtividade. Só entre 1907 e 1915 (ano em que ele morreu), a quantidade produzida por cada trabalhador americano cresceu, em média, 33% ao ano. A diminuição do desperdício de tempo nas empresas garantiu anos de ouro para o capitalismo. Por causa disso, Taylor é considerado o primeiro grande “guru” da administração de empresas. Naquela época, enquanto os patrões tentavam, sem sucesso, diminuir o valor dos salários, os operários procuravam convencer os chefes de que não era possível trabalhar mais rápido. Não demorou para que Taylor entrasse em conflito com seus subordinados, teimando em exigir deles um esforço acima do habitual. Em 1881, ele realizou seu primeiro “estudo de tempo” (que, no futuro, se tornaria a base de seu método). Taylor observou e cronometrou as atividades dos trabalhadores, iniciando sua busca pelo one best way (o “melhor jeito de fazer”), envolvendo desde as ferramentas até o treinamento dos operários. Em 1884, um ano depois de se formar em engenharia, Taylor foi promovido à chefia da Midvale. A partir daí, ele padronizou um jeito e um prazo para cada operário realizar sua função, como o corte de chapas de aço. Mas o taylorismo não inclui só impor regras e pegar no pé dos trabalhadores. Um dos princípios essenciais de Taylor era recompensar os operários pelo esforço, pagando um bônus aos que conseguissem produzir mais. Outra inovação fundamental, iniciada na Midvale, foi a divisão da fábrica em dois níveis de hierarquia. Planejar, conceber e dirigir a produção ficava nas mãos dos gerentes. Enquanto isso, os operários tinham só que executar tarefas repetitivas, sem pensar ou questionar. A maior parte deles era imigrante com origem na agricultura e sem falar ingles. Cinco anos depois, Taylor foi chamado para trabalhar na metalúrgica da cidade de Bethlehem, na Pensilvânia, que tinha o maior conjunto de máquinas do mundo. Em três anos, graças a métodos e equipamentos criados por ele, a produção triplicou. E os salários haviam ficado 60% maiores, para a satisfação dos trabalhadores. Dos poucos que tinham sobrado, claro (só no pátio em que vagões de trem eram carregados, Taylor conseguiu fazer com que 140 homens executassem tarefas que antes exigiam 500 operários). O caso de Bethlehem tornou Taylor famoso nos Estados Unidos. Mas, por ter sido tão bem sucedido na fábrica, Taylor acabou causando prejuízo em outro setor da empresa: o que alugava casas e tinha como principais clientes os trabalhadores – que estavam sendo demitidos um atrás do outro e deixando as residências vazias. Ele acabou saindo da firma em 1901. Taylor jamais voltaria a ter um emprego convencional. Empenhado em divulgar suas idéias, o consultor viajava dando palestras, conquistando cada vez mais adeptos. Em 1908, quando Harvard criou um dos primeiros cursos de Administração de Empresas, baseou parte do currículo no taylorismo. Quando seus métodos chegaram às fábricas de armas, aconteceu o de sempre: os trabalhadores se revoltaram. Mas eles acabaram organizando greves e – como armas sempre foram prioridade nos Estados Unidos – a confusão atraiu a atenção do Congresso. Em 1912, Taylor foi convocado a ir diversas vezes para Washington e explicar seu sistema de gestão a um comitê de deputados. As idas à capital tornaram Taylor ainda mais famoso, mas o deixaram exausto. Em 1915, ele pegou uma pneumonia. Ao comemorar 59 anos, em 20 de março, estava numa cama de hospital. Morreu na madrugada do dia seguinte, momentos após dar corda no seu cronômetro de estimação. Deixou uma viúva, três filhos adotivos e princípios que seguiram sendo aplicados ao redor do mundo. Desde a morte de Taylor, seus críticos têm sido mais barulhentos que seus defensores. “Os contramestres egípcios tinham chicotes para levar os operários a produzirem. Taylor substituiu o chicote pelos escritórios e pelos laboratórios, com a cobertura da ciência”, escreveu a filósofa Simone Weil no livro A Condição Operária e Outros Estudos sobre a Opressão. Mas o taylorismo se tornou tão influente que foi usado até pelos inimigos do capitalismo. Em 1918, um ano depois da Revolução Russa, Lênin falou sobre o assunto no jornal Pravda. Disse que Taylor combinava “crueldade” com “valiosas conquistas científicas”. E concluiu: “Devemos introduzir na Rússia o estudo e o ensino do sistema de Taylor” – o que acabou ocorrendo. Hoje é possível encontrar aspectos do taylorismo em qualquer grupo que trabalhe junto – seja numa fábrica, seja num hospital. E seu impacto não se reduz ao mundo empresarial. “Em múltiplos campos da sociedade, no esporte ou no trabalho doméstico, procura-se obter o máximo rendimento do tempo, não raro obedecendo-se às bulas e guias ‘científicos’ de racionalização do agir, do sentir e do pensar”, diz a historiadora Luzia Margareth Rago em O que É Taylorismo. Assim, Taylor acabou tornando concreto o provérbio forjado pelo estadista americano Benjamin Franklin no século 18: “Tempo é dinheiro”. FLEXIBILIDADE É TUDO O toyotismo quebrou a rigidez dos modelos de Taylor e Ford No Japão do final dos anos 1940, logo após a derrota na Segunda Guerra Mundial, a escassez de matérias-primas e a pequena demanda por produtos industrializados levaram a montadora Toyota a adotar um modo diferente de produção. Era necessário fabricar exatamente o que seria vendido, no tempo necessário, para eliminar ao máximo o desperdício de estoques encalhados por um mercado consumidor diminuído e empobrecido. Conceituando que o piro estoque é o de produtos acabados e sem vender, mudaram-se as regras do fordismo passando a produzir no ritmo das vendas efetuadas, e em equipes de trabalho fora da linha de produção, além de eliminar a produção por lotes def abricação passando a produzir peça por peça. Surgia assim o toyotismo ou Modelo de Produção Toyota. Diferentemente do fordismo e do taylorismo, o toyotismo é maleável – daí também ser chamado de produção flexível (ou ajustada). Ele introduziu na indústria fatores como versatilidade e autonomia em maior escala, abandonando a primazia dada à repetição e à ordem das séries, características do fordismo. Na crise capitalista da década de 1970, esse conceito ganhou popularidade no mundo todo, sendo qualificado como um novo e mais moderno modo de produção. O toyotismo se baseia em dois fatores fundamentais. O primeiro consiste na adoção do procedimento “just-in-time”, por meio do qual, durante o processo contínuo, as peças para a montagem devem ser incorporadas à cadeia só no momento e na quantidade que for necessária. Com isso, evita-se de um lado a sobrecarga nas linhas de produção e o desperdício de materiais. Outra conseqüência é eliminar os custos com armazenamento e conservação. O segundo é a automatização do controle de qualidade, no qual a máquina está conectada a um mecanismo de autocontrole automático que bloqueia a produção quando detectada qualquer erro ou anomalia no processo, impedindo a transferência de produtos defeituosos na linha. Nesse sistema, as máquinas exigem a presença do trabalhador apenas nas situações anormais, o que permite que um mesmo funcionário controle várias máquinas ao mesmo tempo. Isso, por sua vez, leva à redução de custos (e de funcionários) e eleva as possibilidades de lucro para o industrial. A flexibilidade do toyotismo em comparação com o fordismo também aparece na relação com o mercado consumidor. Enquanto o fordismo apostava numa curva de demanda sempre crescente fabricando por antecipação, ignorando a eventual ocorrência de crises ou mesmo a saturação da demanda, o toyotismo se regula a partir de uma expectativa flutuante derivada do acompanhamento das vendas, aumentando ou reduzindo a produção de acordo com os humores do consumidor. Este método lhe permite ainda fabricar produtos diferentes em sequência numa mesma linha, atendendo a cada consumidor quase individualmente, ou seja, significa uma espécie de volta ao artesanato dentro de uma indústria. O SEGREDO DO TOYOTISMO Muito se fala sobre o modelo Toyota sem mostrar sua verdadeira base. Seus criadores, Taiichi Ohno, gerente da Toyoda Motors, depois Toyota, e Shigeo Shingo, Engº e consultor, dizem claramente em seus livros que suas ações se resumiram em 'seguir as lições de Frederick Taylor', que estavam sendo divulgadas no Japão ainda antes da segunda guerra. Seguindo os passos de Taylor: Taylor e seu colega Frank Gilbreth haviam criado a genial concepção de que QUALQUER TRABALHO poderia ser desdobrado em CINCO movimentos: OPERAÇÕES, DEMORAS, INSPEÇÕES, TRANSPORTE E ARMAZENAGEM. Na Toyota apenas as OPERAÇÔES agregavam valor, os demais deveriam ser eliminados. Assim o Engº Shingo via o trabalho: Demoras na armazenagem, nos transportes, na inspeção e no meio das operações. Na sua visão, as demoras ocorriam muito mais do que os trabalhadores e os supervisores descreviam, por isso nas suas observações do fluxo ele pintou demoras em todos os movimentos. A partir daí, decidiu eliminar todos os que não eram produtivos: Eliminou primeiro os Transportes modificando a planta baixa e o lay-out da fábrica – criou pequenos grupos de trabalho junto com suas máquinas – chamou a estes pequenos grupos de Células de Produção. Nas células só era produzido um tipo de produto ou peça. Se houvesse mudança no produto ou na peça uma nova célula era desenhada e a anterior modificada. Nestas células ninguém fabricava em lotes de grandes quantidades como no Fordismo – a produção era feita uma por uma, e em pequenas quantidades para abastecer as que eram vendidas. Os transportes foram eliminados quando se juntavam as máquinas nas células na ordem de sua utilização para fabricar o seu produto. Eliminou as Demoras instalando um grande e único relógio na fábrica que todos podiam ver de onde trabalhavam. Chamava-se Andon. Nele havia a medida do tempo gasto na fabricação além da Meta de Produção do dia e a quantidade produzida que ia sendo comparada diretamente no seu mostrador. Todos sabiam 'qual era o score do jogo', bastava olhar. A Inspeção foi retirada dos tradicionais Controles da Qualidade. Quem inspecionava era o próprio operador, uma vez antes de começar para verificar se o que recebia para o trabalho estava dentro das especificações, e depois de produzir para ver se sua operação estava correta. Assim, embora os japoneses digam que a inspeção foi levada a Zero, isto é apenas uma força de expressão. O que querem dizer é que não esperam produzir tudo para inspecionar e encontrar defeitos depois do custo cometido. Eles inspecionam antes, durante e depois para garantir que seus produtos, ao saírem da fábrica, tenham Zero Defeitos. Muitas vezes, para garantir o zero defeito modifica-se a rotina de trabalho de tal forma que mesmo querendo fazer errado, o operário não consegue porque o trabalho só pode ser feito de um jeito – o Certo. Este procedimento chamou-se Poka Yoke, ou 'à prova de tolos'. Assim o Toyotismo trouxe de volta Taylor e sua glória de ter sido o pai da Administração Científica, da profissão do Administrador, e ser quem garantiu o sucesso e o crescimento da Era Industrial. Os descaminhos levados pelo capitalismo não se devem a ele, e isto um dos seus maiores rivais, Elton Mayo, criador do Movimento de Relações Humanas reconhece em seu livro – Problemas Sociais de uma Civilização Industrial – dedicando um capítulo a descrever a miséria e as péssimas condições de trabalho do operário americano e europeu no início do século XX, apontando como culpado, repetidas vezes, às teorias econômicas e a David Ricardo, um dos seus mais famosos autores. O sonho de Taylor era a criação de uma sociedade na qual, trabalhadores e empresários, pudessem ter um interesse comum pelo aumento da produtividade e viver em harmonia através da aplicação do conhecimento ao trabalho. A prosperidade do patrão dependia da prosperidade do empregado. No entanto, poucas pessoas na história tiveram maior impacto que Taylor e poucas foram tão mal compreendidas e destratadas. Em grande parte, como assinalam seus biógrafos, Taylor sofreu porque a história provou que ele estava certo e os intelectuais, políticos, economistas e psicólogos, estavam errados. A reputação de Taylor sofreu mais ainda com os violentos ataques dos sindicatos para os quais Taylor havia cometido o crime de demonstrar que o trabalho podia ser ensinado para qualquer um como numa escola, acabando com o domínio dos “formadores de artífices”. Uma das fontes de renda dos sindicatos era treinar os aprendizes por cerca de cinco anos até sua aprovação final, quando o aprendiz era sindicalizado e ganhava o emprego em definitivo. Taylor treinava grupos de aprendizes em sessenta dias, portanto, era um inimigo mortal da ordem estabelecida. O segundo inimigo de Taylor foi o grupo de psicólogos defensores do QI, que já falamos. Taylor cometeu o crime de treinar QUALQUER UM, independente do seu QI ou do resultado do seu teste de aptidão, capacitando-o para fazer, bem feito, QUALQUER TRABALHO. Isto punha por terra o aforismo até hoje conservado de “o homem certo para o lugar certo”. Taylor provava diariamente que quaisquer pessoas, inclusive mulheres, podiam aprender qualquer trabalho bastava ser bem treinado e bem acompanhado. O terceiro inimigo de Taylor foram os patrões de visão curta e dominados pelas idéias econômicas. Taylor pregava a recompensa ao empregado toda vez que a produtividade aumentasse. Nas empresas por ele orientadas os salários eram os maiores da região. E ele ainda prosseguia propondo que os operários mais habilidosos fossem participantes do programa de treinamento. Os especialistas de Taylor eram operários como ele, treinados em treinar. O seu Quarto Princípio exigia que o estudo do trabalho fosse feito consultando o trabalhador e feito em parceria com ele. Com seus métodos de treinamento, aperfeiçoando os criados por August Borsig por volta de 1850, que combinava a experiência prática na fábrica com a base teórica na escola e que ainda constitui a base da produtividade Alemã, Taylor ganhou duas guerras. Uma contra Hitler, em 1941. Hitler declarou guerra aos Estados Unidos acreditando que eles não tinham marinha mercante, nem destróieres para protegê los, nem mesmo a indústria ótica necessária. Aplicando a Administração Científica de Taylor, a indústria americana treinou antigos meeiros, vindos da área rural, transformando os em soldados, construtores de navios e técnicos de produção de instrumentos óticos, com precisão maior que a dos alemães. Tudo isto em cerca de três a seis meses. Porém, nos últimos cinco anos de sua vida, Taylor cobrava dos patrões a recompensa devida aos trabalhadores pelos aumentos de produtividade de até 600%. E os patrões se recusaram a dividir. Taylor passou a tratá los com hostilidade e se referia a estes patrões como “PIGS” porcos sujos. A segunda guerra que Taylor ganhou foi contra Marx. As empresas que aumentavam os salários começaram a ser procuradas pelos melhores operários, os mais experientes e mais treinados, forçando as outras a elevar a massa salarial. Como conseqüência, os “proletários”, começaram a ganhar maiores salários, transformaram se em “burgueses”, e a revolução do proletariado morreu antes de começar. O quarto e maior inimigo de Taylor foram os Economistas e Políticos, horrorizados com a possibilidade de que os engenheiros de Taylor fossem chamados a administrar a Nação usando seus métodos. Claro ela poderia crescer de forma espetacular e ainda distribuir a renda proporcionalmente ao volume de trabalho produzido, MAS…como políticos, economistas e classe ociosa fariam para justificar seus ganhos? Como justificariam ficar com todo o lucro produzido pelos operários? Impossível. Então, destrua-se Taylor e todas suas idéias. Jamis veremos a classe trabalhadora ganhando mais do que o suficiente para passar fome mas não morrer e implorar por um emprego. Evidentemente este cenário ainda se aplica aos países do Terceiro Mundo, especialmente ao Brasil de hoje. A crise em que estão mergulhados os países do ocidente é uma crise de idéias ultrapassadas, incapazes de explicar ou resolver nossos problemas atuais. Em 1979 o Washigton Post publicou, sob o título “o armário de idéias está vazio”, a opinião de eminentes professores que admitiam não encontrar apoio ou explicação nas suas ciências para resolver os mais vigentes problemas da nação americana. Irving Kristol, uma das maiores autoridades em economia urbana da Universidade de Nova York revelou estar se demitindo de sua cátedra porque – 'Já não tenho nada a dizer e penso que ninguém tem. As cidades escaparam à nossa capacidade de entendê las”.