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O mundo já escolheu o Brasil. Falta o Brasil se escolher

Ricardo Queiroz
Ricardo Queiroz
27 out 2026 às 14:35
Última atualização: 27 out 2026
11 min leitura
27 out 2026 às 14:35
11 min leitura
Última atualização: 27 out 2026
O mundo já escolheu o Brasil. Falta o Brasil se escolher

Roberto Rodrigues, Tania Cosentino e Marco Castro no painel de abertura do Agtech Meeting 2026, em Piracicaba. Foto: Divulgação/Agtech Meeting 2026

Com US$ 169 bilhões em 2025, quase metade de tudo o que o Brasil exporta, o agro colocou o país no centro da nova geopolítica. Aproveitar esse lugar depende de estratégia, de confiança e de gente.

O Agtech Meeting 2026 começou falando de chuva, guerra e inteligência artificial. Terminou falando de gente e sobre o quanto precisamos uns dos outros. Estive em Piracicaba no dia 21 de outubro, a convite da PwC Brasil, e esse caminho entre a geopolítica e as pessoas diz muito sobre o momento do agro.

A 12ª edição tinha como provocação “A força das convergências: geopolítica, economia e tecnologia no novo mapa do Agro”, e um dos cinco eixos da programação se chamava capital humano e cultura. Saí de lá com uma conclusão que vai além do campo: o agro brasileiro deixou de ser uma questão de um setor e passou a ser uma questão de posição do país no mundo.

O mundo que ficou difícil de prever

Nas boas-vindas, Hércules Maimone, sócio líder de Advisory da PwC Brasil, deu o tom: o Brasil criou muito valor no agro e chegou a hora de internacionalizar, exportando, além de grão e proteína, processos, tecnologia e conhecimento.

Marco Castro, CEO da PwC Brasil, abriu o painel com um diagnóstico curto. As médias históricas de chuva já não servem para prever o clima. As regras do comércio internacional pedem reforma. A inteligência artificial muda a forma de trabalhar numa velocidade que assusta. Para conversar sobre isso, ele chamou duas trajetórias que raramente dividem o mesmo palco: Tania Cosentino, conselheira com passagem pela liderança de grandes empresas de tecnologia, e Roberto Rodrigues, professor emérito da FGV e ex-ministro da Agricultura.

Roberto Rodrigues: comida e energia viraram poder

O professor partiu da pandemia. A segurança alimentar, tema do pós-guerra que parecia resolvido, voltou ao centro quando os países que não produzem a própria comida foram ao mercado e encontraram estoques baixos e preços dobrados. A frase dele dispensa comentário: um país com fome derruba o governo. Segurança alimentar deixou de ser expressão técnica e passou a ser condição de estabilidade política.

Nessa corrida, o Brasil foi o país que respondeu mais rápido, com tecnologia e empreendedorismo. E isso tem consequência. Nas palavras dele, o país virou objeto de desejo de quem precisa comprar comida e de inveja de quem disputa o mesmo mercado. A guerra no Irã somou energia à conta: o mundo descobriu que o Brasil tem resposta para biocombustível de carro, navio, avião e até de data center. “Sem comida e no escuro não tem sossego para ninguém”, resumiu.

Mas o ponto que mais me interessa veio depois. Para Roberto Rodrigues, o hemisfério norte já ocupou o que tinha para ocupar. O espaço para o agro crescer está nos países tropicais, na América Latina e na África subsaariana, onde há terra e a tecnologia ainda é baixa. E o Brasil tem a melhor tecnologia agrícola tropical do mundo, replicável nessas regiões. Levar esse conhecimento significa gerar riqueza, emprego e renda onde a desigualdade é maior. O diagnóstico dele fecha com uma cobrança: a oportunidade está aberta, falta estratégia pública e privada para aproveitá-la, “e estamos perdendo mais uma vez”.

Tania Cosentino: o propósito é ser o parceiro mais confiável

Tania trouxe a palavra que atravessou o painel inteiro: confiança. Para ela, o propósito do Brasil deveria ser o de parceiro global mais confiável em alimento e em energia, e o de quem espalha o conhecimento do agro tropical pelo Sul Global.

Confiança, nesse caso, tem um lado muito prático. Cada acordo internacional que o país assina traz novas obrigações de rastreabilidade, da cadeia de fornecimento inteira. De nada adianta fechar um acordo e sofrer uma sanção sanitária logo depois. Por isso ela defende que tecnologia não é tema de TI, é tema de conselho e de alta gestão. É a tecnologia que certifica cada fase da produção, do grão ao porto, do boi ao frigorífico.

Ela também apontou o risco de concentração. A China tem um plano de longo prazo para depender menos do Brasil, e uma pauta exportadora pendurada num único cliente é vulnerável. E fechou pelo ponto que, para quem trabalha com gestão, é o mais duro: não existe soberania sem educação. O Brasil está estagnado no PISA há anos, e não há como formar engenheiros e cientistas sem base. O agro precisa de um plano para 2050 que seja de Estado, não de governo nem de empresa.

Marcos Troyjo: do mundo plano ao mundo das certezas geopolíticas

Marcos Troyjo, diplomata e ex-presidente do Banco do BRICS, deu a moldura global. Se esta conversa acontecesse em 2006, lembrou, estaríamos em plena globalização profunda, a do livro “O mundo é plano”, de Thomas Friedman. Hoje a geopolítica comanda o comércio. E, no meio de tanta incerteza, ele propõe olhar para três certezas.

A primeira é demográfica. Somos 8 bilhões de pessoas e seremos 10 bilhões em 2050. Dois bilhões a mais equivalem a somar outra China, outros Estados Unidos e outra Indonésia. A segunda é a origem do crescimento. O que ele chama de E7, as sete economias emergentes de maior peso (China, Índia, Brasil, Indonésia, Turquia, México e Arábia Saudita), já puxa mais o crescimento global que o G7. Renda que sobe a partir de uma base baixa vira consumo de calorias e de proteína. A terceira é a China. Autossuficiência total em comida é inviável, e ela vai ter de escolher de quem depender. Com a guerra comercial, tende a comprar menos dos Estados Unidos, da Europa e da Austrália, e mais do Brasil.

Troyjo, porém, não vende o cenário como garantido. A concentração na China é risco, e por isso ele vê no acordo Mercosul e União Europeia, em vigor desde maio, um passo importante de diversificação. Lembra que o Brasil foi importador líquido de alimentos de 1500 até o fim dos anos 1970, ou seja, a potência é recente. E faz uma leitura que eu gosto muito sobre infraestrutura: num mundo tranquilo, a logística deficiente do Brasil é problema do Brasil. Num mundo com insegurança alimentar e energética, vira problema do mundo, e problema global atrai solução global, o que ajuda a explicar o investimento estrangeiro chegando ao país. O freio, para ele, está dentro de casa: juros altos, Estado que absorve o crédito e carga tributária de 33% do PIB.

No fim do dia, a ideia dele que mais circulou pelos corredores foi uma troca de palavra: mais do que o nearshoring, comprar de quem está perto, o que passa a pesar é o trust-shoring, comprar de quem é confiável.

A nova arquitetura

Juntando as três falas, o desenho que aparece tem três camadas.

A primeira é que comida e energia viraram ativos de segurança nacional, para quem compra e para quem vende. O agro brasileiro passou a pesar na política externa, não só no PIB.

A segunda é que confiança virou infraestrutura. Rastreabilidade, certificação e cumprimento de regra sanitária e ambiental definem quem fica no mercado. É um ativo que se constrói com tecnologia e governança, e que se perde num único episódio.

A terceira é o novo mapa de destinos e de parceiros. A Ásia segue central, a Europa reabre com o acordo, e o E7 concentra a demanda que vem. A África aparece com um papel duplo: mercado que vai importar cada vez mais e território onde o conhecimento tropical brasileiro pode ser exportado como tecnologia, e não apenas como grão.

Confiança se constrói entre pessoas

O evento poderia ter terminado no mapa-múndi. A organização escolheu terminar na gente. O painel de encerramento trouxe Ana Suy, psicanalista e autora de “A gente mira no amor e acerta na solidão”, para uma pergunta simples: por que ainda precisamos uns dos outros.

Foi a conversa que amarrou o dia, porque devolveu à palavra confiança o sentido que ela tem antes de virar indicador. Para Ana Suy, confiança é a condição da vida humana: o bebê não escolhe confiar, depende disso para sobreviver. E não se conquista uma vez. É uma coisa de altíssima demanda, refeita todo dia. Ela descreveu o que acontece quando essa base falta no trabalho: a cultura de que todos podem ser substituídos, por um robô ou por alguém mais barato, faz cada pessoa tratar o outro como rival, confiar menos, se abrir menos. Por fora, parece força. Por dentro, cresce o desamparo. Sem conseguir confiar, ninguém relaxa nem consegue ser quem é, e o nome que ela dá ao resultado é burnout existencial.

Antes do painel, a própria Ana Suy se surpreendeu com o que ouviu do público do agro sobre quantas pessoas do setor estão com depressão e procurando ajuda. E o conselho dela para os líderes cansados de tanta mudança foi bom senso: recalcular a rota como o GPS, sem reinventar tudo todo dia, e pôr o limite humano no centro das decisões. A energia é limitada, a capacidade de se relacionar é limitada, a capacidade de trabalhar é limitada.

O dia inteiro falou de confiança entre países, cadeias e mercados, e o último painel mostrou que ela só existe se existir entre pessoas. O mesmo setor que quer ser o parceiro mais confiável do mundo vive juros altos, endividamento, clima extremo e mudança contínua, e tudo isso cai sobre quem trabalha nele. Rastreabilidade, certificação e tecnologia sustentam a confiança de quem compra. O que sustenta a confiança de quem produz é a forma como o trabalho está organizado e liderado.

É nesse ponto que a saúde mental entra na conversa, e não como doença. Entra como o pilar que mantém a engrenagem girando. O agro vive a passagem de gerações no comando das propriedades e das empresas, adota novas formas de trabalhar a cada safra e pede habilidades que ainda está formando. Tudo isso depende de gente com condição de continuar: líderes treinados e interessados em aprender e a suceder, equipes capazes de aprender o novo, e um ambiente de trabalho em que a mudança não cobre um preço humano que custe a sustentabilidade da operação. Cuidar disso é estratégia de continuidade, tão central quanto a tecnologia e o crédito.

A necessidade do mundo já existe e ecoa. Precisa de comida, de energia e de um fornecedor em quem confiar, e neste contexto o mundo olha para o Brasil. Toda a arquitetura que se desenha para o agro, dos acordos à rastreabilidade, depende de uma confiança que nenhum sistema certifica sozinho: a que existe entre as pessoas que fazem o setor andar. Um país para ser o parceiro mais confiável do mundo começa por construir ambientes onde se pode confiar em quem está ao lado.

Ricardo Queiroz é CEO da Flora Insights, plataforma de diagnóstico organizacional e de riscos psicossociais que transforma a leitura das pessoas sobre o ambiente de trabalho em indicadores para a decisão da liderança que busca resultados sustentáveis. É colunista convidado do Administradores.

Nota de transparência: texto e opinião criados por mim e revisados com uso de inteligência artificial.

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    Sobre o autor

    Ricardo Queiroz

    Ricardo Queiroz

    Ricardo Queiroz é publicitário e CEO da Flora Insights, plataforma de diagnóstico organizacional e de riscos psicossociais que transforma a leitura das pessoas sobre o ambiente de trabalho em indicadores para a decisão da liderança. Na Flora, trabalha para que a saúde mental entre na gestão como pilar de estratégia e de continuidade dos negócios. Foi cofundador da Shawee e diretor executivo da Campus Party, e sócio da NextGen Exp. Na coluna, escreve sobre estratégia, inteligência artificial e saúde mental no trabalho, e mercado de modo geral. É colunista convidado do Administradores.

    Ricardo Queiroz é publicitário e CEO da Flora Insights, plataforma de diagnóstico organizacional e de riscos psicossociais que transforma a leitura das pessoas sobre o ambiente de trabalho em indicadores para a decisão da liderança. Na Flora, trabalha para que a saúde mental entre na gestão como pilar de estratégia e de continuidade dos negócios. Foi cofundador da Shawee e diretor executivo da Campus Party, e sócio da NextGen Exp. Na coluna, escreve sobre estratégia, inteligência artificial e saúde mental no trabalho, e mercado de modo geral. É colunista convidado do Administradores.

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