Você chega na Santa Casa (hospital) de sua cidade (caso dependa do SUS) ou no postinho de saúde. Com uma dor estranha nas costas e nas pernas. Algo que nunca sentiu. Faz a ficha no guichê e é convidado(a) a esperar no saguão. Espera, espera… espera muito… e mais um pouco. Logo, finalmente, a triagem chama e você vai até lá. Uma bateria de perguntas. Você responde tudo. Aí, terminando a triagem, volta para o saguão. E espera… espera… uma espera que nunca termina. O tempo passa, e sua paciência vai esmaecendo. Até que, graças a Deus, você é chamado(a) à sala do médico. E assim que a porta é fechada, ele começa a perguntar tudo outra vez. Tudo de novo. E uma pergunta é impossível de não ser feita: onde está o prontuário, com todo o histórico de passagens pelo hospital, a lista de fatos, de remédios receitados, o processo completo com medicações pregressas. Tudo o que deveria estar à frente do profissional antes dele perguntar sempre tudo outra vez, o tempo todo, todas as vezes, como um “déjà-vu” sem fim. O prontuário é o documento principal do médico, para que ele possa observar todos os acontecimentos na esfera da saúde, concernente ao paciente. Assim, o prontuário está para o médico, assim como o currículo está para o gestor de talentos, ou RH, ou headhunter. Nesses tempos de inchaço de talentos em busca de empregos, o que mais existe é currículo flutuando. E a tendência, agora, é que o currículo seja como um outdoor, só com o que é muito importante e relativo à vaga pretendida pelo(a) candidato(a). Algo sucinto, com no máximo, 2 páginas. Algo resumido, simples. Sim, pois, os profissionais de RH não têm mais tempo para analisarem tantos currículos, onde grandes volumes são taxados de “perda de tempo” e vão para o lixo, dependendo das mãos que analisam o documento. Sim, podem ser trainees que analisam currículos ao invés do próprio profissional especialista. A mesma situação acontece nos MP (Ministérios Públicos) etc. O caçador de talentos, como é dito agora, não tem tempo para olhar detalhes. Einh??? Mas, esse não é o trabalho dele??? Alguns médicos de postos de saúde, ou de hospitais, fazem coisas semelhantes: parecem não se interessar pelos históricos e simplesmente ignoram toda a informação pregressa, bastando simples conversa com o paciente, uma anotação e um remédio. O tempo é curto para tantas pessoas. O paciente percebe a apatia e a pressa do profissional, sai pior do que quando entrou. Sua busca por soluções termina com uma receita e um atendimento “meia boca”. Sim, é frequente essa situação. É igual na sala de entrevistas. Como não tem tempo? Como não ler todo o currículo (ou prontuário). Como não desejar ver todo o histórico do(a) candidato(a)???? Por quê o currículo tem de ser menos quando o(a) candidato(a) é mais? Sabe por que um processo seletivo demora? Porque um caça talentos não analisa TODAS as habilidades do(a) candidato(a) e o(a) submete a dezenas de etapas que poderiam ser suprimidas com análises mais simples e focadas no conjunto de competências. Hoje, as empresas querem só “filet mignon” do(a) candidato(a). Não querem mais o resto das outras “carnes”. Dizem que certas competências são inúteis para certos cargos. É mesmo? Então, por que, em grandes empresas, colaboradores de níveis operacionais são os que recebem mais premiações através dos planos corporativos de ideias??? Alguns deles surpreendem com soluções para as áreas gerenciais e operacionais. Mas, eles não têm o conhecimento dos profissionais de níveis gerenciais. Como pensaram nisso e os outros não??? Habilidades cruzadas e transacionais. Simples. A quantidade de várias habilidades diferentes coadunando, conhecimentos distintos fazem a diferença. Mas, isso é ignorado. O currículo não serve porque tem “coisa demais”. Não dá pra ler tudo isso. Tem muita coisa. Agora, ninguém tem tempo para nada. Nem médico e nem gestor de RH. Um, nem olha na cara do paciente. O outro quer resumo do resumo do currículo. Sim. Porque não têm tempo. Gestores de RH ignoram o modo simples de analisar as habilidades transacionais. Ignoram o “algo a mais”. Esse médico, que o texto fala, ignora a vida pregressa do paciente. Lamentável. Provamos hoje o fast food profissional. Tem de ser rápido. Tem de ser, porque não há tempo. E os talentos ficam flutuando por causa de convenções esdrúxulas e ridículas. O vasto material humano é descartável por causa de axiomas pobres de hermenêutica. Reflexo dessa insanidade: veteranos sendo reempregados após aposentadoria, devido ao vasto conhecimento que possuem (ahahaha. Puxa, parece “indução matemática”: a prova de uma hipótese pela tese”). O mercado quer fast food, mas, incorre no erro de exigir demais de quem não pode oferecer muito, causando demoníaca depressão em muita gente. Além disso, tem empresa que não absorve pessoas com qualificações além daquelas solicitadas, por terem “coisas demais” no currículo. Currículo tem de mostrar a vida profissional do candidato. Não pode ser resumido, mas, tem de ser simples e claro, sendo sucinto e objetivo. Prontuário tem de ser visto assim como o currículo. Só assim, referências, habilidades cruzadas e transacionais poderão ser utilizadas nas empresas. Quando isso acontecer, as empresas, SIM, terão um banco de talentos de verdade, não apenas uma reles menção do(a) candidato(a) num papel, como uma nota de rodapé a ser esquecida por olhos apressados, com péssima vontade de realizar seu trabalho, baseando-se em uma “tendência” medíocre chamada “falta de tempo”.