Nassim Taleb em seu livro 'Antifragil – Coisas que se beneficiam do caos' lançado em 2017 , dá continuidade ao seu outro best seller 'Cisne Negro' que por definição são aqueles eventos de larga escala, inesperados e de grandes consequencias. Teria o Brasil condições para administrar tais eventos? Nassim Taleb é um autor, ensaísta, estatístico, e analista de riscos líbano-americano, matemático de formação. Atualmente residente nos Estados Unidos, Reino Unido e Líbano, é conhecido por ser um megainvestidor do mercado financeiro, sendo professor do Instituto Politécnico da Universidade de Nova Iorque e presidente da empresa de investimentos Empirica, também atua como conselheiro do grupo Universa. Ao longo de sua carreira, ocupou cargos importantes em bancos, dentre eles: CSFB, UBS, BNPParibas e Bankers Trust. Os livros de Taleb tratam das incertezas e eventos imprevisíveis. Ele chama de 'Cisnes Negros' grandes acontecimentos que são inesperados e que trazem junto grandes consequências, boas ou ruins. Como exemplos, ele cita os ataques de 11 de setembro de 2001, a Primeira Guerra Mundial e a internet. O autor propõe que se pode beneficiar e até crescer com certos eventos imprevisíveis. Taleb teria feito sua fortuna com o crash de 1987 (Segunda-Feira Negra) e teria ganho dinheiro em outras crises posteriores. Taleb descreve em seu livro 'Antifragil – Coisas que se beneficiam do caos', lançado em 2017, que há uma inerente condição do ser humano de ser induzido por teorias e leis descritas pela academia , não levando em consideração os aspectos relacionados a incerteza e eventos imprevisiveis e que a sociedade, negócios e também o estado deveriam estar preocupados em inovar no sentido de tornar as organizações Antifrágeis. Mas o que isso significa? Para ele não é o antonimo do que conhecemos como frágil , mas algo que vai além de robusto, que se beneficia do caos, das incertezas e da volatilidade. Nos preparamos para ser Antifrágeis ? O Brasil infelizmente não está preparado para antifragilidade pelo fato de não chegarmos no meio do caminho, que é ter uma Economia 'robusta', ou seja, que não dependa somente de comodities onde o valor agregado é explorado por outros Paises do primeiro mundo que são exportadores de tecnologia e de bens diversificados e de alto valor agregado. Nós podemos exemplificar alguns de nossos produtos como minério de ferro, aluminio, café, soja e proteina animal, exploração de Petroleo em aguas profundas, aviões para vôos regionais como a Embraer, tecnologia da informação como a TOTVS , etc…. Se perguntarmos para o cidadão comum quais são os produtos de alta tecnologia criados e produzidos no Brasil, a grande maioria terá dificuldade de dar uma resposta e com certeza teremos respostas como: jogadores de futebol, carnaval , jeitinho brasileiro, etc.. O que demonstra que a matriz de produtos criados e desenvolvidos aqui são poucos e temos vários problemas estruturais que dificultam o processo de industrialização no Brasil, que não podem ser corrigidos da noite para o dia e dependem de gerações. Gerações estas que para serem beneficiadas precisam de politicas publicas adequadas. Então vamos observar alguns indicadores básicos: dívida pública, endividamento das familias , desemprego , educação, saude, agronegócios , industria , comercio e serviços. O crescimento da dívida bruta em Abril/2020 passou de 57% do PIB, de acordo com os dados do Banco Central, contra 35,6% em dezembro de 2015, reduzindo a capacidade de investimento em infraestrutura e somam-se a este índice todos os pacotes aprovados pelo Governo para o enfrentamento da pandemia a partir de março de 2020 contribuíram para a marca histórica de 88,8% em Setembro/ 2020, o endividamento das famílias de acordo com o Confederação Nacional de Comercio aumentou e atingiu em Agosto de 2020 a marca de 67, 5 % interferindo diretamente no consumo. Este endividamento também é resultado das taxas de desemprego que possuem indicadores alarmantes desde 2015, tendo atingido 13,8% da população ativa no 1º semestre de 2020, segundo informações do IBGE Todos esses indicadores são resultados de uma economia frágil no qual Taleb reforça a redução do endividamento dos países e pensar na economia como um ser vivo dando maior atenção ao dinamismo que ela representa, incentivando o empreendedorismo e a inovação. Em uma entrevista recente em evento promovido pela XP Expert em 17 de julho de 2020, Taleb disse em entrevista a Alberto Bernal 'O empreendedorismo é muito poderoso numa sociedade e os governos deveriam desburocratizar a criação e a falência das empresas'. Defendendo que um empreendedor fará muito mais para redução da pobreza, através da criação de empregos e tecnologias, do que alguém em uma ONG ou trabalhando para o governo. As políticas voltadas na promoção de leis e regras que promovam segurança jurídica e com visão de longo prazo, reforma administrativa com a redução da máquina pública, a busca pela eficiência fazendo mais com menos e com mais qualidade, descentralização como meio de agilizar os processos decisórios considerando o fato de termos dimensões continentais e problemas socio econômicos diferentes de um estado para outro e; com a efetiva redução do intervencionismo do estado na economia. Taleb reforça que: 'O trabalho do governo não é iniciar empresas. É encorajá-las para que tenham coragem de empreender e oferecer proteção no caso de elas falharem.'. Taleb acredita que a descentralização política aplicada em federações , cantões suíços, cidades-estados são modelos muito mais propícios à democracia, ao progresso e à paz do que o de grandes nações com governos centrais nas quais muitos problemas políticos e administrativos poderiam ser solucionados partindo da premissa: 'Só quem bebe da sua água poderia administrar a sua vida' . A educação deve ser um fator crucial na formação de bons profissionais, empreendedores, pesquisadores e formadores de opinião e para isso devem haver atualizações constantes que superem e excedam as expectativas do mercado e não deixar de lado aqueles que desenvolvem atividades, produtos e serviços com tecnologias a partir da experimentação. Taleb reforça de que a experiência supera o conhecimento acadêmico e com isso é muito criticado por ter mencionado: 'que acadêmicos em geral habitam uma bolha de abstração em que eles acreditam piamente (ou fingem acreditar) em ideias que nunca foram testadas'. A pandemia do Covid 19 iniciada em março de 2020 no Brasil é uma situação que ainda não temos uma ideia de quando haverá a retomada da vida normal , se é que poderemos chamá-la de normal no futuro, visto a antecipação de várias tendências e mudanças na vida das pessoas como: Home Office , serviços de delivery, comercio eletrônico, virtualização de processos trouxeram uma nova perspectiva na forma e na essência de vários negócios , onde o ocasional tende a ser a prática daqui para frente de inúmeras companhias e empresas dos mais variados setores. A pandemia do Covid 19, que alguns acreditam ser um Cisne Negro devido ao alto impacto em todas as economias do globo, não é considerada na visão do Taleb por ser de natureza previsível, visto que historicamente já existiam evidências de pandemias semelhantes como: a gripe espanhola, H1N1 , SARS …onde a ocorrência de uma nova pandemia seria somente uma questão de tempo. No Brasil, assim como em vários países do mundo, foram constatadas dificuldades de gerenciar uma crise desta magnitude com problemas de infraestrutura de atendimento no sistema de saúde pública, politicas desencontradas de enfrentamento da pandemia foram evidenciados em vários países inclusive de primeiro mundo como os Estados Unidos. Devemos lembrar de casos de sucesso como a Nova Zelândia que apesar de ser praticamente uma ilha no meio da Oceania com uma população menor que 5 milhões de habitantes onde as ações do governo central foram eficientes; demonstrando as vantagens de uma liderança forte ou nas palavras do Taleb colocar a pele em jogo ( 'Skin in the game') e a Alemanha através de sua chanceler Angela Merkel com ações efetivas usando recursos de um governo que possui um excelente sistema de saúde e organização e recursos financeiros para poder suportar os impactos da pandemia por um tempo prolongado. O Brasil apesar de ter uma estrutura de saúde unificada através do SUS, modelo adotado para permitir o direito a saúde a todos os cidadãos brasileiros, possui problemas de infraestrutura e de recursos há muito tempo. A pandemia simplesmente mostrou claramente a situação de um direito constitucionalmente aprovado em 1988, onde a população teria direito a um serviço de qualidade e igualitário em todo o país. Com um serviço de saúde deficitário associam-se problemas de condições sanitárias nas grandes cidades e nos rincões do Brasil, onde a mortalidade infantil pela ausência de condições sanitárias mínimas é recorrente com 12,8 mortes para cada mil nascidos vivos conforme IBGE e estamos longe de nações desenvolvidas como Japão e Finlândia com 2 mortes para cada mil nascidos vivos. Prédios, casas, estabelecimentos comerciais, oficinas, etc…são construídos de qualquer forma, desrespeitando regras ambientais, sem conexão à rede de tratamento de tratamento, despejos de produtos químicos sem nenhum controle, onde a ação do Estado ou administração pública de organizar o zoneamento urbano e fiscalizar efetivamente as construções irregulares são ações pouco efetivas e o resultado é a mortalidade causada por doenças que poderiam ser facilmente evitadas. A mudança de comportamento das pessoas moldadas por indução a repetir e a copiar hábitos sejam do consumo, descarte, respeito ao próximo, respeito às leis são condições que só podem acontecer com educação de qualidade que fundamentalmente não depende somente das escolas e sim de uma mudança de comportamento dos próprios cidadãos. Aqui não estamos falando em pensar fora da caixa, mas efetivamente seguir regras e padrões consagrados em países que prezam pelo meio ambiente onde a sociedade é o elemento principal no alcance do sucesso. O Brasil já foi referência em controle da AIDS, erradicação da febre amarela, meningite, varíola, poliomielite, e outras doenças através de ações do próprio Estado e hoje temos severos problemas de organização associada a politização da pandemia, como se o Covid 19 pertencesse a um partido político. O vírus da Covid 19 é democrático porque está comprovado que atinge o jovem, o idoso, o rico, o pobre, o acadêmico, o analfabeto, chefe de estado, político, cientistas, artistas… No agronegócio a EMBRAPA desenvolve tecnologias que demonstram a capacidade técnica no desenvolvimento de pesquisas voltadas para o melhoramento de espécies de plantas e processos que influenciam diretamente a produtividade como adaptações em diferentes climas e condições de solo e com isso busca a antifragilidade. Temos potencial e capacidade de alimentar não só o Brasil como o mundo. O Brasil em 2020 vai ter uma das maiores safras da história, mas tropeça nos assuntos relacionados a sustentabilidade, questões políticas relativas a protecionismo ou subterfúgios para impedir a comercialização dos produtos com países importadores, mas aquele que toma a decisão de consumir, que é o cidadão comum, que imbuído pelas suas crenças em sustentabilidade deixa de comprar carne e derivados se o governo não tem políticas públicas para evitar o desmatamento e as queimadas. O crime ambiental possui penas brandas demais, há falta de fiscalização adequada de maneira preventiva e repressiva e o rito processual concede muitos benefícios ao infrator. Uma empresa exportadora que faz tudo dentro das melhores práticas poderá ser prejudicada por não haver ações de responsabilidade do Estado para melhorar a imagem nos mercados consumidores, o que enfraquece um dos principais pilares dos produtos de exportação brasileiro. O assunto nos noticiários é a Amazônia por ser um dos maiores biomas do planeta, mas também devemos atentar que o problema existe em todo o território brasileiro havendo evidências inclusive em áreas densamente povoadas, desmistificando o argumento que o problema da falta de fiscalização são as dificuldades de acesso em áreas remotas. O cidadão comum poderia ser um fiscal, no entanto qual é a proteção que o Estado pode dar ? A fragilidade de nossa sociedade é uma realidade , pois temos leis que não são seguidas, excesso de burocracia que aumenta a possibilidade de fraude e corrupção, falta de compromisso dos agentes públicos para que não só promovam, mas que cumpram com o bem comum no curto e no longo prazo e não somente visando a próxima eleição. A divisão da atividade econômica por setor nos dá a dimensão do nível de desenvolvimento que estamos, onde o crescimento de valor agregado anual agricultura é de 0.1 % , indústria 0,6% e serviços -2,6 % ( Fonte : WorldBank) , impedindo que o Brasil alcance um nível de estabilidade adequada , onde é certo a necessidade de uma revisão de nossos conceitos e aceitarmos a tríade proposta pelo Prof. Taleb. A triade proposta: FRÁGIL =>ROBUSTO => ANTIFRAGIL , é a sequência que deve ser estabelecida para que hajam transformações e a melhoria continua. Estar no meio do caminho é obrigação de um país que deseja ter representatividade no cenário internacional e a busca da antifragilidade que proporcione beneficios maiores que as perdas, preparando o país para as transformações futuras . Aprendendo com os erros, mitigando e eliminando todos os riscos possiveis ou em outras palavras estarmos preparados para o mundo VUCA que é um acrônimo criado na década de 90 pelos militares americanos que significa Volatility (Volatilidade) , Uncertainty (Incerteza) , Complexity ( Complexidade) and Ambiguity ( Ambiguo) pois o mundo muda em velocidade muito acelerada e com destino incerto, proporcionando várias respostas para uma mesma questão. O Brasil está patinando e os problemas políticos, sociais e econômicos existentes são de décadas e por esta razão que uma mudança de pensamento poderá ser um direcionador para podermos seguir em busca da Antifragilidade. E para que ocorram mudanças podemos considerar algumas ações do Estado e do proprio cidadão : – Redução dos custos da máquina pública ( servidores públicos e políticos ) e aumento da eficiência através de uma reforma administrativa ampla. – Redução da burocracia. O Brasil é um dos países mais complicados para abrir e manter uma empresa, seguido do número de impostos e contribuições. – Modernizar as relações de trabalho e emprego. – Fomentar a exploração do meio ambiente de forma sustentável. – O Estado deve promover fiscalização e políticas públicas eficientes para proteção do meio ambiente evitando construções em areas protegidas ou que não tenham infra-estrutura adequada. – Fomentar a ampliação do numero de produtos e serviços de exportação. – Investir e fomentar tecnologiaS e inovação ( saúde, indústria , serviços ). – Reduzir o intervencionismo do Estado na economia através de privatizações e orgãos reguladores. – Garantir a governança na administração pública com o uso eficaz das melhores práticas. – Garantir o cumprimento eficaz da lei e as penas por elas impostas através de reformas do sistema judiciário. – Dar acesso a Educação e Saúde de qualidade. – Os politicos e novos politicos devem olhar para a administração publica com visão de longo prazo. O que e como devemos estar preparados para daqui 50 , 100 anos? Não é possivel garantir um fortalecimento da sociedade pensando em eleições a cada 4 anos. São inúmeros os aspectos daquilo que o Estado representados pelos políticos e servidores devem fazer , mas não devemos esquecer do cidadão comum através de práticas universalmente consagradas : – Respeito as autoridades e as leis. – Respeito ao patrimônio publico e privado. – Cultivar valores como respeito a família , a comunidade e aos direitos individuais ( religião , etnia, diversidade, etc..). – Fazer o certo e esquecer o 'famoso jeitinho brasileiro' . O caminho é longo , mas não impossivel de ser alcançado. O ser humano tal e qual é hoje não chegaria onde chegou frente aos desafios que enfrentou desde o inicio de sua evolução, sendo assim a humanidade é o maior exemplo de Antifragilidade , no entanto muitas nações aproveitaram destas evoluções e construiram sociedades melhores , robustas e até certo ponto antifrágeis e o Brasil que se autoproclama como o 'Pais de Futuro' precisa ter pressa . Autor : Sandro Cubo é Tecnólogo em Processamento de Dados , pós graduado em Gestão de Negócios pela USP ESALQ e Mestrando em Gestão de Negócios pela FIA – Fundação Instituto de Administração atualmente é Gerente de Serviços da empresa Krones do Brasil Ltda Coautor: Rodolfo Leandro de Faria Olivo é PhD em Administração pela FEA_USP e professor de Finanças , Economia e Empreendedorismo pela FIA – Fundação Instituto de Administração