POR QUE SOMOS OBRIGADOS A FAZER TUDO COM PRESSA? X “Festina Lente” (Apressa-te Devagar) Octavius Augustus (Caivs Jvlivs Caesar Octavivs Avgvstvs), Imperador Romano – 27 a.C. a 14 d.C. é considerado pela Dicta Sapientia Latina o autor desta frase atribuída a muitos – Festina Lente – “Apressa-te Devagar”. No filme “Um dia de Fúria”, Michael Douglas interpreta um cidadão comum, consumido pelos excessos da modernidade, alucinado pela correria do dia a dia, que chega a seu limite e explode toda a sua incontida fúria a partir de seu estresse. Esta sabedoria milenar deve nos levar a uma reflexão profunda nos dias de hoje. Tanta correria. Globalização. Rapidez. Velocidade… Sem dúvida a disponibilidade e velocidade da informação global nos dão uma sensação irresistível de “pressa”. Porém, temos que ter a sabedoria para distinguir “velocidade” de “pressa”. Não há dúvida que, hoje, os velozes vencerão os lentos. Mas “velocidade” não é “pressa”. Ser “veloz” é saber adequar a velocidade às condições da estrada (no caso de um automóvel, por exemplo) ou do tempo (no caso de um avião) ou do mar (no caso de um barco ou navio). Ter “pressa” sem atentar para as condições de segurança é buscar um acidente que poderá ser fatal. E a maioria dos acidentes por falha humana ocorre justamente pela imprudência da “pressa”. Assim é na vida pessoal e profissional de cada um de nós. Assim é na vida empresarial e na própria empresa como organização. Temos que ser velozes, ágeis, rápidos no decidir e no agir. Mas, sem “pressa”. A pressa é inimiga da perfeição – a velocidade, não. É preciso saber dar tempo ao tempo para que as coisas realmente amadureçam e aconteçam. É preciso compreender que a aprendizagem de novos conceitos, atitudes e comportamentos levam algum tempo. E não há como “atropelar” o tempo. E como dizia Alexis Carrel, “ninguém ultrapassa impunemente os limites da natureza”. Os que querem atropelar o tempo pagarão por essa imprudência. Sempre pensei que, com a evolução, teríamos mais tempo para o ócio. Mas hoje vivemos o paradoxo de estar sempre correndo para resolver as coisas da vida. Mas existem alguns fatores da vida contemporânea que continuarei pelo resto da vida sem entender direito. Ou talvez sem querer aceitá-los. Entre eles, a obrigação de se fazer tudo com pressa. Isso, aliás, é um comportamento que considero completamente paradoxal. Há mais de meio século os avanços científicos e tecnológicos levam a humanidade a utilizar inventos e objetos criados para facilitar a vida ou simplificar os afazeres diários. Da vassoura ao aspirador de pó, há um salto inegável. Das obsoletas máquinas de datilografar, que só permitiam correções ou emendas malfeitas num trabalho, à rapidez e eficiência do computador, o avanço é mesmo espantoso. Mas o que quero mostrar é o seguinte: essas milhares de mudanças vieram para nos proporcionar o maior tempo livre possível. Não é assim que pensamos todos? As dezenas de controles remotos, acessos de banco via internet, contas pagas em cobrança automática, emissão de bilhetes aéreos on line, fax, celular, palmtops, vôos diretos, microondas, comida congelada – e outras centenas de pequenas coisas, cuja utilidade nem percebemos direito – têm ao menos uma função bem específica: proporcionar conforto ao homem e à mulher modernos. Conforto e praticidade ninguém discute. Existem certas casas que parecem até inspiradas nos desenhos da família Jetsons: tudo é automatizado, informatizado e plugado a uma central de comando. Só falta a robô Rosie, mas creio que em poucos anos a robótica estará disponível como um serviço. Estamos nos aproximando do final do ano. Passou muito rápido, passou. Perguntamos como pode? Parece que janeiro foi ontem. Será que o tempo está passando mais rápido, ou será que nós é que estamos tão absorvidos em nossos afazeres que acabamos por não perceber a evolução do tempo? Isso nos leva a um paradoxo. A uma situação onde o tempo passa e nossas ações convergem para se tentar amenizar a falta de tempo. Conversas fiadas, nem pensar. A pressa da consecução é inevitável. Aqueles que são lentos acabam sendo esmagados pela necessidade de respostas imediatas. Não importa que sejam inconsistentes. Elas devem ser imediatas. Esta é uma situação que certamente não leva o homem a interagir com seu ambiente. Em vez disso ele tenta criar um ambiente diferente. Mesmo que seja artificial, o importante é que venha a preencher sua apatia a qualquer custo. Geralmente, à custa da sua própria integridade, ou de novas doenças que no seu cerne trazem disfunções orgânicas, nem sempre combatidas pelos remédios, os quais, na maior parte das vezes acabam por provocar efeitos colaterais muito piores. Andamos meio mal-acostumados… Com o tremendo desenvolvimento tecnológico da nossa sociedade, muitas das nossas necessidades e desejos podem ser atendidos com o simples apertar de um botão! Faça-se a luz! E click! A sala está iluminada! Tecle um ENTER e sua mensagem atinge dezenas, centenas, milhares de pessoas instantaneamente! Tire do congelador, remova o lacre protetor e leve ao microondas por alguns minutos e sua lasanha está pronta para o consumo! Com descartáveis, então, após o uso é só jogar fora, não precisa nem lavar! Depois tome uns comprimidos para emagrecer o mais rápido possível (ainda vão inventar um emagrecedor instantâneo…). E ligue já para o número que está na sua tela, do conforto de sua poltrona, para receber o produto na porta de sua casa (ainda não é perfeito, pois temos que levantar da poltrona para receber a entrega…). Fast food, disk Express, gerente-minuto, instant tudo! Quanta pressa! E ainda tem gente que se espanta: “Nossa, parece que o tempo está passando cada vez mais rápido!” Um efeito colateral interessante disso tudo é que ficamos viciados em respostas e resultados cada vez mais instantâneos para as nossas “exigências”. Uma rápida reflexão sobre os momentos de transformações que estamos vivendo e a necessidade de nos prepararmos para assumirmos responsabilidade pelo nosso próprio futuro. Dizem que devemos tomar cuidado com os nossos desejos, pois eles podem se concretizar! Pois creio que estamos vivendo exatamente esse drama no presente. Pense bem, o quanto a indústria cinematográfica americana explorou filmes de guerras, apocalipses, heróis renegados, etc… Não é exatamente isso que eles estão enfrentando agora? E pior, a realidade pode ser muito mais dramática e contundente que a ficção! Quando nascemos como seres humanos, encontramos um mundo que já existia antes de nós e que provavelmente continuará a existir após nossa existência. Diferente de qualquer outra civilização da história humana, a cultura ocidental permite e convida cada indivíduo a contribuir na construção do conhecimento e do próprio mundo. Isso porque, diferentes de outras culturas do passado, não aceitamos mais o mundo como pronto e acabado, como se fosse definitivo e permanente. Mudança e transformação se tornaram parte de nossa compreensão! Assim sendo, termos o privilégio de existir na Era da Informação, exige também uma grande responsabilidade: a flexibilidade de nos adaptarmos às necessidades do mundo e, quem sabe, retribuirmos ou oferecermos ao mundo o nosso legado pessoal de conhecimento, descoberta, criatividade, trabalho e experiência. No passado, a posse de propriedades e patrimônio imóvel garantia riqueza, sucesso e prosperidade… Da mesma forma, jóias, ouro e riquezas dessa natureza. Mas, se refletirmos sobre a origem das maiores riquezas da atualidade, talvez cheguemos à impressionante conclusão que é o conhecimento a maior riqueza e o verdadeiro patrimônio que possuímos, embora este seja completamente imponderável! Pense, quanto vale a fórmula da Coca Cola, os segredos da farmacologia (indústria de medicamentos), o conhecimento de informática e de estratégia comercial que possui a Microsoft, entre outros tantos! Quem sabe, exatamente por causa disso, nunca foi tão fácil na história da humanidade, escalarmos ou despencarmos da pirâmide social, mudando rapidamente de nível sócio-econômico e de classe social… Tudo graças a esse “ouro sem peso” chamado de informação e conhecimento, cada vez mais disponível, melhor e mais rápido, para quem souber encontrá-lo, selecioná-lo, interpretá-lo e utilizá-lo! Entretanto, na mesma proporção que essas “pérolas” e esses “diamantes” do conhecimento estão disponíveis e espalhados pelas ruas, “jogados no chão”, existe também cada vez mais “lixo”, na forma de boatos, informações desatualizadas e falsas verdades! O mais interessante é que quase a totalidade do conhecimento disponível atualmente está codificado na nossa escrita dos livros, revistas, jornais e, mais recentemente, nos meios virtuais tais como a internet. Pense bem, tudo está cada vez mais rápido… Os carros são melhores, mais seguros, mais econômicos e possuem maior rendimento… As viagens de avião, os trens, o metrô… Todos cada vez mais rápidos… Se, no passado, você escrevia cartas que demoravam dias ou semanas para alcançarem seus destinos, hoje, ao enviar uma mensagem pela internet, ela chega do outro lado do mundo em poucos instantes! Tudo anda melhorando, ficando mais rápido e mais barato (ou será que um carro era acessível no início do século vinte ou um computador compatível com uma residência nos anos 60?). O que comentamos até aqui, talvez você já esteja cansado de saber, mas o que possivelmente ainda não saiba é que, graças a todas essas evoluções, em vários campos do desenvolvimento humano e tecnológico, resultados das mais modernas pesquisas das ciências do comportamento e do funcionamento do cérebro humano (neurociências), novas e sofisticadas “ferramentas” estão sendo criadas para, de agora em diante, tornar o ser humano cada vez mais rápido e apto a se adaptar, viver, criar e prosperar nesse mundo em constante transformação. Esse novo ser, “super-humano”, capaz de fazer as coisas melhor, mais rapidamente e com menos esforço… Sim! Todos nós sonhamos com essa época na qual as máquinas trabalhassem por nós… E agora, esse tempo chegou nos trazendo uma das crises mais cruéis e universais – descobrimos que talvez não fosse bem isso o que desejávamos: falta de empregos, fome, miséria, etc. Profissionais de todos os níveis sem ocupação, mudando de profissões, necessidade de se construir currículos cada vez mais exigentes e especializados e, por outro lado, vagas disponíveis no mercado não sendo ocupadas por falta de profissionais qualificados! Contraditório, não? Chegou a hora de arregaçarmos as mangas e enfrentarmos a dura constatação que chegou a nossa vez de experimentar a construção de um mundo mais humano, quem sabe, super-humano! E nada vamos conseguir apenas ficando sentados esperando que algo seja feito por nós… Olhe a sua volta e poderá até escolher por onde começar, tamanha a quantidade de coisas que devem ser feitas para melhorar nossas vidas e de nossa comunidade próxima. Normalmente, o que não conhecemos, nos assusta. E muito. Pouquíssimas pessoas conseguem ter tranqüilidade diante de situações cujo teor não é previamente sabido. O mundo moderno nos surpreende a cada dia e isso pode ser a causa de muitos medos e pânicos. Quanto estresse causa não saber onde as coisas vão parar. É assim na empresa, (“os diretores estão reunidos, o que será que vai acontecer?”), quando empreendemos uma viagem, quando recebemos um e-mail de quem não sabemos o emissor (“será que contêm vírus?”), é assim com o futuro dos filhos e é assim também no amor e na paixão. Até a criança se estressa se alguém lhe diz: “Abra a boca e feche os olhos!” E o mundo atual nos convida toda hora a fazer isso. A exigüidade de espaço é hoje uma das maiores causas de estresse, medo e violência nas grandes cidades. Antigamente o ser humano vivia num espaço médio de 80 hectares, atualmente sua vida íntima é vivida em espaços com menos de 80 metros quadrados. Todos nós precisamos de um “espaço vital” e a falta dele estressa demais o ser humano. Quando o nosso cérebro detecta a invasão desse espaço vital por outras pessoas ele deflagra um estado de alarme e de resistência, que pode resultar num comportamento de fuga ou ataque. A multidão comprime, reduz o espaço de vida e, além do mais, abriga, no seu interior, também, o desconhecido. Todos queremos ter a certeza e segurança de que tudo que vai acontecer na nossa vida, vai ser bom e agradável. E se possível, para sempre. Não saber se vai ser mesmo assim, nos causa muito estresse. Há até quem sofra por antecipação! Fazemos de tudo para evitar crises, mudanças abruptas, perdas, doenças, e, com certeza, por não ter certeza como é do lado de lá, fazemos de tudo para evitar a morte. O pior é que o mundo atual esta cada dia mais incerto, inseguro, mutável, imprevisível. E isso é uma das mais fortes fontes de estresse. Não são só os atletas que se debatem pela vitória. Nossa vida cotidiana virou um grande jogo num enorme campo de competição. Desde criança aprendemos a competir para poder progredir na vida. Disputamos tudo na vida moderna, do pedaço de chão no trânsito das cidades, à posição de destaque na empresa. Irmãos disputam entre si pelo poder e atenção na família; marido e mulher competem para ver quem tem mais razão. A competitividade tomou conta de nossa vida. Sem dúvida alguma, até certo ponto, ela é saudável. De forma exacerbada ela nos faz doentes, depressivos, paranóicos. Existem pesquisas mostrando que 48% daquilo que compramos, na verdade não precisamos. Se todos reduzíssemos nosso afã de consumo pela metade, viveríamos muito bem, e o que o mundo produz, seria plenamente suficiente para todos. Além do mais, não precisaríamos trabalhar tanto para adquiri-las. Nosso cérebro recebe atualmente, todo dia, cerca de 1.500 mensagens novas e diferentes. Todas elas são registradas, processadas, classificadas e categorizadas, nada fica solto. E é da capacidade de organização do nosso cérebro que depende a nossa saúde mental-emocional. Esse processo se repete a cada dia e durante todo o tempo nossos neurônios vão tendo que armazenar esses dados de forma lógica e precisa, e, o pior, com uma rapidez cada vez maior. Nos anos 60, antes da tv a cabo e da internet, Caetano Velloso e Os Novos Baianos se perguntavam: “quem lê tanta notícia?”. E foi aí que eles decidiram ir “caminhando contra o vento, sem lenço nem documento” para evitar o estresse. A sensação de não ter tempo para mais nada; de estar correndo contra o relógio; de que o tempo está passando numa velocidade incrível todos nós conhecemos suficientemente. Tudo é feito em cima da hora, com atraso, no último minuto. Na verdade esse estresse é resultado de uma falácia de nosso aparelho psicológico, pois o tempo nunca se apressa, nem se deixa apressar. Nós achamos que ele está correndo, mas o relógio conta os minutos e as horas no mesmo ritmo há milhares de anos. O tempo é o mesmo. É nosso estresse interior que distorce a nossa vivência dele. No nosso mundo moderno, sem senha você não entra. Seu nome, caráter, filiação, não são tão importantes quanto seu CPF, RG, senha do banco, de funcionário, do cartão de crédito, etc… Sua memória precisa funcionar bem, ter bem guardadas todas essas senhas, para que, rapidamente, elas sejam digitadas nos computadores e processadores de dados. Se você não for rápido, você bloqueará o sistema. E a fila atrás de gente querendo entrar é grande. As peças que compõem o quebra-cabeça da vida moderna são tantas, tão coloridas e multiformes que montá-las todas corretamente é um enorme desafio ao nosso aparelho cognitivo. Às vezes, se lembramo-nos de virar algumas delas de cabeça para baixo, conseguimos rápido sucesso. Quando isso acontece, razão e emoção se juntam num momento de alegria. Quando não achamos a solução, o estresse é certo. A solução para grandes problemas é, na maioria das vezes, bem simples. Nós é que complicamos demais nossos pensamentos quando as buscamos. Quantas vezes nos estressamos tanto e por tão longo tempo, que quando a solução vem, nós ficamos irritados ou decepcionados por ela ser tão óbvia. Cada vez que descobrimos uma forma nova de resolver problemas saltamos para um novo paradigma. Pensar e procurar solução é uma tarefa muito gratificante quando somos capazes de desfrutar do prazer da descoberta. Caso contrário, fica só o estresse. É através do brincar que aprendemos a viver. Nossa primeira atividade real, na vida, é brincar. Na vida adulta somos ensinados a abandonar a brincadeira para nos tornarmos pessoas sérias, de responsabilidade. E aí ouvimos a toda hora que “a vida não é uma brincadeira!”, que quanto mais séria ela for, mais dura e estressante ela deve ser. E, se sempre que possível, nos permitíssemos ser crianças novamente, por uns instantes, rir e sorrir, sem ter vergonha de mostrar que lá dentro de nossa alma ainda existe algo que fomos um dia, tudo, absolutamente tudo, seria muito mais prazeroso! Quando cuidamos de nossos negócios (ou do negócio dos outros) costumamos assumir uma postura extremada, engajando-nos de corpo e alma, labutando 14 horas diárias, negligenciando nossa saúde, nossa família, nossa vida social e cultural. Os dias tornam-se curtos, insuficientes para a realização das atividades propostas. O almoço torna-se supérfluo. Dificilmente lembramo-nos dos aspectos positivos, do que aconteceu de bom naquele dia. Os problemas são recorrentemente mais pujantes. Os finais de semana são comemorados no escritório ou em casa, porém regados a “trabalho atrasado”. Sentimo-nos quase reféns de uma espiral interminável, mas sempre com a impressão de que ela está por findar-se. “Em três meses poderei tirar férias”. “Estou concluindo esta etapa de crescimento da empresa em uns seis meses e então poderei trabalhar menos”. Você já disse frases similares a alguém (ou a si mesmo) recentemente? Enquanto isso, a vida vai passando. Seus filhos crescem e você deixa de participar de suas apresentações na escola, no clube, da perda de seu primeiro dente. Seus relacionamentos pessoais desgastam-se, namoros perdem o encanto e casamentos são rompidos. A dieta saudável e as atividades físicas ficam relegadas a um segundo ou terceiro plano. A coisa mais importante da vida é saber o que é importante. E apesar de o trabalho ser muito relevante, as coisas mais fundamentais são a família e os amigos. O dinheiro pode trazer conforto, mas não constrói uma boa família. A melhor herança que podemos dar a nossos filhos e companheiros são alguns minutos diários de nosso tempo. É impressionante como não conseguimos nos aperceber disso. Eles precisam de nossa presença mais do que de nossos presentes. Diz um provérbio latino “Bendito aquele que consegue dar a seus filhos asas e raízes”. Nossa postura profissional pode estimulá-los a criar asas, vislumbrando sonhos e um futuro brilhante. Mas apenas a convivência será capaz de criar as raízes dos valores e da cultura que embasarão adequadamente estas visões. Quanto aos amigos, não se consegue construir um relacionamento por telefone ou e-mail. Sempre existirá a necessidade de se fazer as coisas “cara a cara” pois as pessoas acreditam em quem elas vêem regularmente. Por isso, mantenha contato com seus amigos. Não deixe que as relações se percam. Um bom amigo é como um bom cachorro – com ambos é preciso dar uma volta e exercitar-se regularmente. Uma frase: “Eu deveria ter visitado mais meus amigos e lhes contado como me sentia em vez de só encontrá-los em enterros”. Saúde é o preceito básico para todas as suas demais atividades. Se você não tomar conta de seu corpo, onde vai viver? A saúde é como a liberdade: seu verdadeiro valor só é dado quando as perdemos. Você pode optar por passar metade de sua vida arruinando sua saúde desde que esteja disposto a transcorrer a outra metade tentando restabelecê-la. Por isso, cuide-se. Durma o número de horas que seu organismo exige para recuperar-se, respeitando seu biorritmo. Pratique esportes com regularidade. Pode ser uma caminhada diária, um futebol com os amigos duas vezes por semana, uma visita ao clube com seus filhos e amigos no final de semana. E sorria. Cultive o bom humor mesmo diante das adversidades. Sua visão, outrora turva, tornar-se-á espantosamente lúcida. Existe um velho ditado entre os pilotos: “O principal é fazer o avião voar”.E para tanto, não basta conhecer de navegação: é necessário ter um bom equipamento. Trabalhe com paixão e com entusiasmo. Com amor e com empolgação. Mas lembre-se: o trabalho irá esperar enquanto você mostra às crianças o arco-íris, mas o arco-íris não espera enquanto você está trabalhando. A verdade está no caminho do meio, disse Sócrates. Por isso o equilíbrio tem o poder de trazer a felicidade. Fumar dois maços de cigarros diariamente com certeza custar-lhe-á um enfisema, mas um bom charuto com os amigos será muito prazeroso. Beber em demasia poderá causar-lhe desde um acidente de trânsito até uma cirrose, mas uma taça de vinho no jantar contribuirá positivamente com sua saúde. Todos os excessos, até mesmo o amor obsessivo, o sexo compulsivo, acabam sendo tratados, em última instância, como assunto de cunho médico… Os dois únicos fatos verdadeiros na vida são que você nasce um dia e vai morrer em algum outro dia. O que acontece entre essas duas datas depende de seu modo de vida. Por isso, tente apreciar as coisas simples. Aprenda a dizer NÃO. Lembre-se de que pequenas coisas só afetam mentes pequenas e que somente quem pensa grande também erra e acerta grande. Reconheça sempre o que já conseguiu, deixando de mirar no que você não tem: a inveja destrói a felicidade e a gratidão a assegura. Aceite o perfeccionismo não como uma virtude, mas como um excesso, pois mesmo as pastagens mais verdes têm partes queimadas, ou seja, nada é perfeito. Você não será nada se quiser ser tudo. Faça uma lista “secreta” das coisas que você quer fazer. Guarde-a em sua carteira e leia-a de tempos em tempos. Não se esqueça dos pequenos prazeres – um pôr-do-sol, uma caminhada na praia, uma cerveja gelada, um beijo atrás da orelha. E viaje leve através da vida, e não carregado como uma tartaruga. Siga as batidas do seu coração. Mas aqui vem a pergunta-chave de tudo o que foi comentado acima: sobra tempo para alguém? Aparentemente, não. Cada vez mais as pessoas reclamam que não têm tempo, que precisam sair correndo, que estão atrasadas ou que andam estafadas com a correria diária. Isso não ocorre apenas nas grandes metrópoles. As pessoas desse início de século parecem não ter mais tempo para nada. Por que fazemos tudo com tanta pressa? Por que ninguém mais reúne a família para jantar? Por que não se desliga a tevê algumas horas do dia, para que a casa encontre um pouco de paz e silêncio? Por que nos sentimos obrigados a acompanhar índices, resultados, novidades, lançamentos e outros prodígios inúteis? Há quanto tempo você não conversa com sua parceira sem a interferência de algum ruído, seja tevê, som ou liquidificador? Qual foi a última vez em que você caminhou com calma, olhando para as árvores ou reparando em detalhes o trajeto? Será mesmo necessário acompanhar aquela minissérie até às duas da manhã e ter que acordar com o barulho do despertador? Será mesmo necessário só preparar alimentos descongelados? Todos deveríamos nos lembrar desse fato: a tecnologia também existe para trazer melhor qualidade de vida. Acredito que, se começássemos a preparar pequenas mudanças no cotidiano, os resultados não demorariam a aparecer. Nem se trata de nada complicado, mas sim coisas como tentar acordar mais cedo, ler livros interessantes com maior freqüência, perder menos tempo com a vida irreal das novelas, conversar mais em casa, cuidar de plantas, comer alimentos saudáveis, mastigar com calma, conversar com amigos ao telefone, jogar xadrez, afagar o cachorro, olhar a lua, pensar na existência e dormir com serenidade. Para evitar ritmos apressados, basta que muitas funções inúteis sejam evitadas ou suprimidas de nosso cotidiano. As pessoas eternamente apressadas têm vida curta, envelhecem mais cedo e passam pelo mundo sem deixar rastros. Que tal começar hoje mesmo a repensar esse seu ritmo? Viver com calma é uma sabedoria que se aplica a todos os aspectos da vida. Que tal, para começar, reler esse texto mais uma vez, bem devagar? José Augusto Dantas