Em quase toda minha carreira profissional (muito bom falar isso), trabalhei em locais e funções que exigiam contato constante com os clientes, mas foi na Rits que eu realmente senti na pele o que era ser “atendimento”, por necessidade, já que meus outros sócios tinham que colocar a mão-na-massa e produzir os projetinhos que nos transformaram nos milionários que somos hoje. Quem me conhece, sabe que não sou lá muito simpático e social, características importantíssimas para um bom baba ovo atendimento, mas acho que consegui me virar durante esses anos, não sem receber muitos comentários negativos, é claro. Lidei com todos os tipos de pessoas possíveis e imagináveis, em reuniões onde o teletransporte seria muito útil e outras muito boas. contudo, eram poucas as pessoas que eu gostava de estar próximo nesse mundo-business-do-inglês-sofisticado-e-termos-novos-que-falam-a-mesma-coisa-sempre. São as mesmas pessoas que eu conseguia ficar à vontade num bar e contar minha vida pessoal, sem ficar pensando antes de falar. pela manhã, nos reuníamos para pensar nas campanhas (e no real resultado que ela ia proporcionar) e à noite, estávamos enchendo a cara com bebidas fortes, da cachaça aos drinks com guarda-chuvazinho afrescalhado, motivo de malhação desenfreada. falávamos sobre tudo, sem frescura, trocando experiências que só a diferença de idades sabe fazer. Nunca precisei dar tapinhas nas costas, nem apertar a mão com um sorrisinho falso no rosto pra conseguir o que eu queria. sempre fui honesto comigo, com meus clientes e minha empresa. é uma boa obrigação que eu tenho com meu pai, que me fez um único pedido, quando eu era criança: “meu filho, só te peço uma coisa na vida: seja honesto”. Ser honesto dá trabalho e é muito abrangente, então é meio foda cumprir isso à risca, mas eu acho que entendi o recado dele. O problema é quando você esbarra em pessoas que não gostam de honestidade e acham que fazer negócio é viver engravatado e falar bonito, ser um robô e ficar repetindo jargões idiotas, munidos de cartões de visitas que contenham palavras como “consultor” e “analista”. Pessoas que você não pode falar a palavra “bate-papo”, pois o correto é “reunião”, que preferem viver em colunas sociais, posando para fotos narcisistas (sempre de ladinho) com pessoas que ela odeia; que adoram fazer reuniões para apresentar idéias “geniais”, pois é óbvio que entendem de todas as áreas do conhecimento; que não sabem segurar a onda do seu cargo e saem fudendo os que estão abaixo sempre que levam uma pancada vinda lá de cima; que vivem correndo atrás de cartões vips para festas da high society, pois estas são palcos para mostrarem o falso refinamento que possuem. Prefiro conviver com o cliente que me manda uma mensagem quando está cagando (sim, eu tenho clientes que fazem isso), dizendo que se lembrou de mim. Prefiro aquele que eu posso ligar de manhã e dizer que não vou à reunião porque estou ressacado. Prefiro o que confia no que eu digo, mesmo que não concorde à princípio, pois tem a básica noção de que se ele me paga é porque não sabe ou não entende do assunto tanto quanto eu. Prefiro aquele que eu posso atender de bermuda e chinelo, pois sabe que eu sou calorento pra caralho e minha roupa não irá interferir em nada nas idéias. Enfim, sou mais chegado aos que valorizam mais a representação da vida real do que os padrões chatos dos negócios e entendem que informalidade não é falta de profissionalismo.