O processo de globalização passou a ser – nos últimos anos – uma expressão corrente na literatura e noticiário cotidiano. Sua presença e sua influência são suficientemente marcantes para que não possam deixar de ser consideradas. Sua caracterização pode ser feita sob diversas óticas, uma vez que o processo de globalização, por sua própria natureza, afeta diversos aspectos das relações sociais. Aqui, abordar-se-á a globalização sob uma ótica estritamente econômica. Não existe a pretensão de conceituar globalização, se é que isso é factível. O objetivo principal é mostrar que – mesmo que um ponto de vista econômico – o termo globalização compreende, de fato, uma variedade de fenômenos. Embora o caráter financeiro da globalização seja o mais evidente, o processo tem outros ângulos de análise. Sob a abordagem econômica, resume-se a controvérsia conceitual em cinco enfoques: financeiro, comercial, produtivo, institucional e de governabilidade. Vejamos de que se trata cada um deles: Enfoque financeiro: A parte da economia com maior grau de internacionalização é o sistema financeiro. Por esta razão, é o aspecto mais frequentemente associado à idéia de globalização e significa aumento do volume e/ou da velocidade de circulação dos recursos entre as diversas economias. O aspecto positivo desse processo é a superação das barreiras anteriormente impostas ao movimento internacional dos capitais. O lado negativo é a maior exposição dos países aos riscos de movimentos especulativos em grande escala, a exemplo do que ocorreu a partir de julho de 1997, quando a Tailândia foi induzida a deixar flutuar sua moeda, ponto de partida para a crise asiática. Enfoque comercial: Com a globalização, a competição passa a ocorrer em escala mundial e não dentro de cada país. Há uma crescente homogeneidade das estruturas de oferta e demanda, possibilitando o surgimento de ganhos de escala e uniformização das técnicas produtivas e administrativas e a redução do ciclo do produto, ao mesmo tempo em que em muda o eixo focal da competição – de concorrência em termos de produto para competição em tecnologia de processos. Como conseqüência, a competitividade na fronteira tecnológica passa a implicar custos cada vez mais elevados tanto em termos de P&D de produtos quanto da necessidade de mecanismos de consulta freqüente aos clientes, para provisão de assistência técnica e adaptações da linha de produção. A competição passa a ocorrer em escala mundial, com as empresas frequentemente reestruturando sua atividade em termos geográficos, e sendo beneficiadas tanto pelas vantagens comparativas de cada país como pelo próprio nível de competitividade de cada empresa. Enfoque produtivo: Do ponto de vista do setor produtivo, observa-se uma convergência das características do processo produtivo nas diversas economias (que se traduz na semelhança do tipo de técnicas produtivas, de estratégias administrativas de métodos de organização do processo produtivo, etc.). Entretanto, não existe consenso quanto aos efeitos da globalização sobre a estrutura produtiva. Ao mesmo tempo em que se argumenta que ela pode estimular a consolidação de oligopólios em nível mundial, a evidência disponível questiona essa tendência à concentração por empresa. O que se observa até agora é o crescimento do número de empresas que operam no mercado internacional, mas o seu raio de ação predominante é circunscrito às regiões próximas ao país de origem de sua matriz. Por enquanto, poucas empresas poderiam ser classificadas como transnacionais. Enfoque institucional: Devido à globalização, há uma tendência a uma maior homogeneidade dos sistemas de regulação d atividade econômica nos diferentes países. Isso significa que as relações entre os setores público e privado tendem a ser cada vez mais uniformes. As políticas comerciais do Japão e dos Estados Unidos servem como exemplo. Tradicionalmente, a economia japonesa era considerada fechada, enquanto os Estados Unidos constituíam referência de liberalismo comercial. Nos últimos anos, no entanto, o Japão tem caminhado para uma maior abertura, enquanto que a economia norte-americana caminha em sentido oposto. Com o passar do tempo, acredita-se que se tornarão bastante semelhantes. Enfoque da governabilidade: a globalização retira graus de liberdade dos governos na condução das políticas fiscal, monetária, cambial, etc., reduzindo a soberania econômica e política das nações. Pode-se chegar a uma situação em que os efeitos dos instrumentos convencionais de política econômica sejam neutralizados pela dinâmica do mercado global. Um bom exemplo é a política salarial. A globalização induz a manutenção – via repressão salarial ou outras formas – de custos reduzidos como forma de manter a competitividade no mercado internacional. Com isso, a capacidade dos governos de proporcionar garantias sociais aos trabalhadores declina, bem como o poder dos sindicatos nas barganhas salariais.