Vive-se em um momento em que o mercado está cada vez mais competitivo e em busca de lucratividade. Nesse contexto as estratégias de gestão estão sendo revistas e a inovação para as organizações é o melhor meio para a sobrevivência. Para atingir essa vantagem competitiva e inovação constante, torna-se fundamental o investimento nas ações de desenvolvimento e valorização do capital intelectual. Neste sentido, as empresas mudam junto com o mundo e resolvem desenvolver seus próprios talentos investindo na educação corporativa como forma de atender as exigências da cadeia de valor. Surgem então as universidades corporativas como forma de personificar a filosofia da aprendizagem da organização, cuja meta é oferecer, a todos os funcionários, o conhecimento e as competências necessárias para que os objetivos estratégicos sejam alcançados. Para que se entenda o surgimento das Universidades Corporativas, é necessário um resgate histórico sobre a evolução dos modelos de gestão e capitalismo. Do antigo Egito aos nossos dias, é explicito a dicotomia entre trabalho intelectual e trabalho manual, do ponto de vista educacional, a separação entre instrução e trabalho, instrução para poucos e trabalho para os 'dominados'. E a história do processo de trabalho e dos modelos organizacionais que foram surgindo, conta com a inteira participação da classe operária nas resistências desenvolvidas por eles e às tentativas do capital de controlar a produção de trabalho e alienar os trabalhadores ao seu interesse de lucro. Com a revolução industrial, as pessoas se viram frente a um novo estilo de vida, totalmente estranho para eles. Esse novo sistema de fábrica assegurava ao capital o controle e a disciplina de mão-de-obra e também garantia ao capitalista a apropriação do saber operário, com a separação do trabalho manual e intelectual. Nesse cenário encontram-se dois principais sistemas de fábricas, o taylorismo e o fordismo, que visavam principalmente atingir a eficácia tecnológica, além de atender ao interesse do capital de estabelecer novas relações de poder hierárquico e de autoridade para com o trabalho, permitindo também o controle da produção. Na organização taylorista/fordista, a mera repetição do trabalho e a reprodução do conhecimento eram suficientes para um bom resultado nos negócios. Aos 'chefes' administrativos cabia a responsabilidade de analisar , interpretar e prospectar o ambiente de negócios e criar normas, manuais e regras que deveriam ser seguidos por todos da empresa. Formam-se as áreas de treinamento e desenvolvimento das empresas, cujo seu papel era apenas de 'entregar cursos' ao público interno por força de demandas concretas, cujo objetivo principal era desenvolver habilidades específicas, enfatizando necessidades da empresa para desempenho do empregado nas atividades operacionais. Outro marco importante na história da administração foi a passagem da administração taylorista-fordista para a gestão flexível, que gerou forte impacto no comportamento das organizações. Nesse modelo observa-se que estruturas verticalizadas e altamente centralizadas cedem espaço para estruturas horizontalizadas e descentralizadas. A rígida divisão entre trabalho manual e trabalho mental tende a ser eliminada; as tarefas exigem cada vez mais, em todos os níveis organizacionais, pessoas com capacidade de pensar, decidir e executar simultaneamente. Os novos modelos de gestão exigem o perfil do trabalhador gestor, este que é informado, participante, dinâmico e corajoso, que possui sentido e eficácia pessoal, é independente e autônomo, anseia pelo crescimento interior e se preocupa com aprendizagem e autodesenvolvimento, dentre outras competências. Essa nova tendência de gestão trouxe um novo ambiente caracterizado por profundas e freqüentes mudanças, pela necessidade de respostas cada vez mais ágeis, para garantir a sobrevivência da organização, influenciando diretamente no perfil de seus colaboradores. As empresas exigem de cada empregado uma postura voltada para o autodesenvolvimento e a aprendizagem contínua. Para isto, será necessário a implementação de sistemas educacionais que privilegiem o desenvolvimento de atitudes, posturas e habilidades, e não apenas a aquisição de conhecimento técnico e instrumental. A partir desse comprometimento da empresa com o desenvolvimento de seus colaboradores surge a idéia da Universidade Corporativa como meio de alinhamento dos talentos humanos com as estratégias empresariais. E para manter-se no mercado de trabalho, torna-se obrigatório que o trabalhador esteja constantemente alimentando-se de qualificações, seja lendo, viajando, ouvindo e aproveitando de todas as formas possíveis sua capacidade de conhecer. O desemprego, neste caso, não está associado a falta de oportunidades, mas ao fato dele não atender aos requisitos necessários para conseguir entrar no mercado de trabalho, cabendo a ele buscar sempre as qualificações necessárias para se tornar 'competitivo' e 'empregável'. Essa ênfase que se tem dado à educação para o trabalho remete a uma nova visão e a um novo padrão de relação trabalho/educação no atual modelo econômico de produção capitalista neoliberal. Neste caso, o papel que concerne à escola e às demais instâncias de formação do trabalhador é o de fomentar, da forma mais eficiente possível, os mecanismos que possibilitem a inserção e a permanência no mundo do trabalho, numa perspectiva que nega a autonomia e produz a adaptação. (RAMOS, 2001) Observa-se então, que os currículos das instituições de ensino convencionais não conseguem atender a esse novo padrão de qualificação. Há também uma mudança de nomenclatura e de paradigmas na qualificação do trabalho. Valorizam-se agora as competências e o desenvolvimento de habilidades cognitivas. Segundo Deluiz (2001), no estágio atual do capitalismo flexível, observa-se um progressivo deslocamento do conceito-chave da sociologia do trabalho – a qualificação profissional – para a noção de competências profissionais. O tradicional conceito de qualificação estava relacionado aos componentes organizados e explícitos da qualificação do trabalhador: educação escolar, formação técnica e experiência profissional. Relacionava-se, no plano educacional, à escolarização e aos seus diplomas correspondentes. É a partir desse cenário que se justifica o surgimento das Universidades Corporativas como um meio de 'qualificar' o empregado, visando atender às exigências, às especificidades de sua função e ao desenvolvimento da empresa e, conseqüentemente, ao aumento de sua competitividade, uma vez que os meios de educação convencionais não oferecem essas vantagens. Essa transição dos modelos de gestão tornou-se necessário a partir do pensamento que Trabalho e aprendizagem são essencialmente a mesma coisa, com ênfase no desenvolvimento da capacidade do individuo de aprender. Para prosperar nesse ambiente global nem constante transformação é necessário um novo tipo de organização em que um modo de pensar compartilhado por todos os funcionários é vital para o sucesso no longo prazo. (MEISTER, 1999, p.3) Essas mudanças exigem dos trabalhadores demandas totalmente novas, exigindo o domínio de funções e qualificações totalmente novas. Dessa forma, o sucesso dos negócios está diretamente relacionado à capacidade da instituição em repensar suas práticas e reformular-se para responder aos anseios e demandas do mercado globalizado. (RICARDO, 2007, p.7) A primeira Universidade Corporativa (UC) que se tem conhecimento foi fundada em 1955 pela General Eletric, mas, segundo Ricardo (2007, p. 14), a origem da Universidade Corporativa é ainda mais antiga, […] remota 1920 quando a General Motors incorporou uma escola noturna para a indústria automobilística. O General Motors Institute (GMI) durante 56 anos ajudou a transformar a GM na maior montadora do planeta. Em 1982 o GMI se transformou em uma escola independente e, em 1997, passou a ser conhecido como Kettering University. É interessante ressaltar que o conceito de treinamento que se tinha nessa época baseava-se na concepção de 'treinar' os operários a 'serem executores', ou seja, apenas a usar as novas tecnologias necessárias para o desempenho de suas atividades, a partir do ensinamento de fórmulas e manuais. Às áreas de Treinamento e Desenvolvimento (T&D) cabiam apenas a função de Entregar cursos ao público interno por força de demandas concretas, oferecendo programas cujo objetivo principal era desenvolver habilidades específicas, enfatizando necessidades individuais e sempre dentro do escopo tático-operacional. (EBOLI, 2004, p.37) No Brasil, a adoção desse conceito deu-se na década de 1990, pressionado com a necessidade de investir em qualificação como elemento-chave para o desenvolvimento do diferencial competitivo. Uma das primeiras Universidades Corporativas (UC's) foi fundada em 1992, para o Grupo Accor, pelo consultor Hugo Nisebaum, proprietário da empresa HN Educação e Performance. Segundo Eboli (2007) existem aproximadamente 80 Universidades Corporativas no Brasil, entre elas empresas do setor financeiro, de telecomunicações, de serviços, de associações de classe, de empresas aéreas, automobilísticas, dentre outras. Hoje, na realidade brasileira, as iniciativas são significativas, mas ainda precisam ser consolidadas, por isso, segundo Ricardo (2007, p.8) […] o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, por meio da Secretaria de Tecnologia Industrial e Diretoria de Articulação Tecnológica, está desde 2003 investindo em desenvolvimento da educação corporativa. Segundo a autora, esse investimento tem como principal objetivo aumentar a competitividade das empresas brasileiras no mercado exterior e estímulo para que outras empresas implantem programas de educação corporativa. É importante destacar algumas das diversas empresas que já desenvolvem atividades de Educação Corporativa (EC), dentre elas: Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Vale, Eletronorte, Petrobras, Rede Globo de Televisão, Telemar, Embratel, entre outras. Ampliando mais ainda as mudanças ocorridas no âmbito empresarial, vêem-se, ao longo da história, as mudanças de concepções de treinamento, bem como a transição da nomenclatura e da concepção de T&D para EC. Segundo Milloni (apud RICARDO, 2007, p.6) O T&D é focado no treinar uma ação sistematizada de educação para capacitação, o aperfeiçoamento e o desenvolvimento. Esta abordagem está sendo substituída pela Educação Corporativa (EC), cujo compromisso é, a partir da educação do trabalhador do conhecimento, promover vantagem competitiva da empresa. Ainda, segundo a autora, O escopo de T&D envolve alguns princípios que delimitam sua aplicação, que tem como ponto de origem as necessidades de treinamento; assimilação e transferência de conteúdos. Centrada ainda, no conteúdo espera-se que o treinando possa usa-lo em sua função. (MILLONI apud RICARDO, 2007, p.69) Para Teixeira (2001, p.19-20), O termo treinamento, quando utilizada essa expressão, refere-se quase sempre ao adestramento, ou seja, o fornecimento de conhecimentos, métodos e/ou técnicas isolados, com objetivos também isolados, sendo supostamente o mais breve possível, em busca de resultados breves. Por outro lado, as empresas que estão redefinindo seu processo de aprendizagem utilizam conceitos de Educação e Desenvolvimento, visando o aperfeiçoamento do homem para o seu crescimento, tanto pessoal, quanto profissional. Nesse sentido, a EC emerge a partir de fundamentos opostos ao T&D, isso faz com que a cada dia esses novos conceitos determinem o crescimento e a expansão das UCs. Para Ricardo (2007, p. 6-7), a EC tem como princípio, Desenvolver processos de aprendizagem continuada que permitam o envolvimento de toda a cadeia de produção com o destino da organização e compromisso com mas estratégias de negócios da empresa. Portanto, define-se Universidade Corporativa como 'um sistema de desenvolvimento de pessoas pautado pela gestão de pessoas por competências'. (EBOLI, 2004, p.48) Teixeira (2001, p.33) vê a Universidade Corporativa como um grupo que oferece a seus funcionários, clientes e fornecedores um ambiente moderno, sistematizado e agilizador de seus esforços de aprendizagem e desenvolvimento. Alperstedt (2003) explica que, na expressão universidade corporativa, o termo corporativo significa que a universidade é vinculada a uma corporação e que serviços educacionais não constituem seu principal objetivo. Já o termo universidade não pode ser entendido dentro do contexto do sistema de ensino superior, no qual oferece o universo de ensino, de pesquisa e de extensão, uma vez que universidade corporativa oferece instrução especifica aliando o conhecimento às estratégias empresariais da organização. De acordo com essas definições, pode-se dizer que Universidade Corporativa é uma organização que tem por finalidade principal desenvolver, armazenar e transmitir, através de diferentes modalidades de aprendizagem, o conhecimento necessário e específico de cada função para o constante sucesso das organizações, procurando diversos meios de desenvolver e estimular as qualificações competências, habilidades e atitudes individuais e grupal. Para tal, é necessário o apoio de algumas instituições especializadas em aprendizagem, como profissionais de treinamentos, consultores e instituições de ensino superior. Segundo Eboli (2007), o principal motivo para o desenvolvimento de uma UC é a intenção da empresa direcionar a área de seus profissionais para as estratégias de negócios. Não se trata, porém, de substituir o papel das universidades tradicionais. Não é papel das escolas de Administração capacitar seus alunos para determinada atividade ou negócio da empresa. A formação acadêmica recebida de uma universidade tradicional esta pautada no domínio das bases cientificas, filosóficas, humanísticas e éticas, além, é claro, do desenvolvimento da pesquisa, nem sempre realizado pelas organizações. Percebe-se que, no mundo empresarial, o termo competência é muito utilizado. Segundo Mundim (apud Ricardo 2007, p.9), o vocábulo competência se refere ao 'conjunto de qualificações que a pessoa tem para executar um trabalho com um nível superior de desempenho'. A partir desse conceito, pode-se entender as competências que são bases da capacidade de empregabilidade do individuo. Segundo Meister (1999, p.13) são elas: 1. Aprender a aprender; 2. Comunicação e colaboração; 3. Raciocínio criativo e resolução de problemas; 4. Conhecimento tecnológico; 5. Conhecimento de negócios globais; 6. Desenvolvimento de liderança; 7. Autogerenciamento da carreira. A partir da necessidade de desenvolvimento dessas competências básicas, é que se justifica a necessidade de formular programas educacionais de qualidade, de alcance universal dentro da empresa, ou seja, que vá do aumento da produtividade do simples operário até o mais alto nível hierárquico para o desenvolvimento organizacional. Essas iniciativas são estruturadas nas UC's, pois permitem o exercício dessas ações de desenvolvimento aumentando a possibilidade da empresa em atender as demandas do mercado. Tobim (apud EBOLI, 2004, p.46) enumera algumas razões para uma empresa criar uma UC, são elas: 1. Valores: muitos líderes empresariais acreditam que conhecimento, habilidades e competências formarão a base da vantagem competitiva futura de seus negócios, o que os estimula a investir na abertura de UC's como meio de intensificar o desenvolvimento dos empregados nessas áreas. 2. Imagem externa: cria-se uma ótima impressão nos clientes ou nos sócios se o diretor presidente de uma empresa puder dizer: 'Nosso pessoal está sendo treinado em nossa própria universidade' ou 'Se assinarmos esse acordo de parceria, podemos abrir as portas de nossas universidades para seus empregados'. 3. Imagem interna: se a iniciativa de instituir a UC provém diretamente de uma organização de treinamento já existente, o grupo responsável por esta vai se empenhar em obter recursos e reconhecimento para sua empreitada. Afinal de contas, o prestigio advindo do estabelecimento de uma UC recairá sobre aquele primeiro grupo. Antes era o 'grupo de treinamento' ou 'departamento de treinamento' que se reportava ao vice-presidente de recursos humanos, agora é a UC que trata diretamente com a presidência. 'Eu era um gerente de treinamento, agora eu sou um reitor'. Nesse sentido, a UC tem como missão, segundo Eboli (2004, p.48), formar e desenvolver talentos na gestão de negócios, promovendo a gestão do conhecimento organizacional (geração, assimilação, difusão e aplicação) por meio de um processo de aprendizagem ativa e continua. Ainda, segundo a autora, 'o objetivo principal desse sistema é o desenvolvimento e a instalação das competências empresarias e humanas consideradas críticas para a viabilização das estratégias de negócios'. (EBOLI, 2004, p.48) Segundo Meister (1999) as UC's devem ser vistas como um verdadeiro laboratório de aprendizagem, no qual deverá haver investimento maciço nas várias metodologias de aprendizagem, como aulas presenciais e semi-presenciais com o máximo de aproveitamento dos meios tecnológicos, como aplicação de cursos à distância (seja por TV Educativa, teleconferências, sala de aula virtual e outras tecnologias), ou seja, deverá otimizar ao máximo os recursos tecnológicos para que se cumpra de maneira efetiva os objetivos das diversas modalidades de aprendizagem. A universidade corporativa se diferencia de um simples treinamento interno por possuir múltiplas escolhas em cursos e em programas para funcionários e colaboradores, dentre eles: workshops, programas de imersão, palestras, cursos em várias modalidades, projetos sociais, entre outros. Acredita-se que por meio dessas ações educacionais oferecidas através das UC's seja possível desenvolver competências e habilidades necessárias para o exercício da atividade de um trabalhador, focalizando principalmente no profissionalismo e em resultados. Na verdade, o que ocorre é que, devido às rápidas mudanças ocorridas no âmbito organizacional, há uma redução do prazo de validade do conhecimento, pois a 'regra da competitividade' exige educação continuada. Isso quer dizer que alguém que se formou há 15 anos, por exemplo, se não fez nada em termos de educação, não se adequa aos perfis de empregabilidade exigidos pelo mercado. Há também uma instabilidade no emprego, ou seja, 'a segurança do emprego não é mais uma decorrência do trabalho em uma única empresa, mas da manutenção de uma carteira de qualificações relacionadas ao empregado'. (Meister, 1999, p.9) As qualificações e os conhecimentos adquiridos, unidas à capacidade de colocá-las em prática, é que garantirão a empregabilidade. Há, portanto, segundo Meister (1999), um 'contrato psicológico' entre empregado e empregador, no qual o empregador oferece oportunidades de desenvolvimento e de qualificação em troca de maior produtividade e comprometimento com o a missão da empresa, e quanto mais produtivo, mais o empregado garantirá sua empregabilidade. Essa valorização do capital humano e do desenvolvimento de suas competências através da educação continuada traz consigo um interesse da sociedade capitalista atual em Conformar sujeitos que aprenderão a valorizar o mérito individual, a mudança da flexibilidade, a insatisfação 'saudável' com nível de aperfeiçoamento conseguido, a participação, a busca constante do novo, a competição. Fornecedores do aumento da produtividade das empresas e, provavelmente, da intensificação do trabalho e sua exploração. (LOMBARDI; SAVIANI e SANFELICE, 2002, p.112) Esses valores são vistos como garantia de empregabilidade, transferindo aos próprios empregados a responsabilidade por sua formação continua e, portanto, a responsabilidade pela sua própria demissão. Essas competências exigidas pelo mercado são mensuráveis por certificados, resultando no advento de cursos imediatistas de curta duração, que muitas vezes não primam pela qualidade do serviço. Essa valorização em títulos como forma de vantagem competitiva é denominada por Bourdieu e Passeron como capital cultural institucionalizado, segundo Silva (2003). Nesse sentido, na busca de um perfil cada vez mais adequado para sua empresa, o empregador investe e ao mesmo tempo exige cada vez mais do empregado. Por outro lado, quanto maior o investimento nesse empregado, mais ele será cobrado e exigido em suas atividades desempenhadas na empresa que trabalha. Essa mesma pressão do mercado, em busca de qualificação e aperfeiçoamento, exige cada vez mais tempo e dedicação, ou seja, prioriza-se o tempo dedicado para o trabalho deixando de lado, cada vez mais, o tempo destinado ao lazer, antes valorizado pelas antigas formas de organizações sociais produtivas. Isso acontece tanto nas relações sociais produtivas como na escola, pois cada vez mais cedo as crianças estão dedicando seu tempo para atividades voltadas para o desenvolvimento individual produtivo, deixando de lado o lazer. Origina-se então, segundo Lombardi; Saviani e Sanfelice (2002), uma pedagogia toyotista na qual se prioriza o desenvolvimento de competências cognitivas com o objetivo de atender às exigências do mercado. Porém, atender apenas às exigências do mercado não deve ser o principal objetivo da educação. De acordo com as proposições da Central Única dos Trabalhadores (CUT) na década de 1990, é necessário que […] a educação não se ajuste simplesmente aos interesses empresariais; vincule o desenvolvimento da cidadania a um tipo de educação de natureza crítica; advoga que a integração entre educação geral e específica tenha como objetivo a formação não apenas do trabalhador competente, mas também do sujeito político, tendo em vista a transformação social. (LOMBARDI; SAVIANI e SANFELICE, 2002, p.108) Deve-se pensar em formar primeiramente cidadãos críticos comprometidos com o desenvolvimento de suas habilidades individuais, mas também com o coletivo. Um sujeito que atenda às exigências do mercado, mas que tenha um comprometimento político a fim de garantir um desenvolvimento para o seu país em todos os aspectos, evitando assim o aumento do índice de desemprego, exclusão e alienação em relação ao trabalho. Portanto, não se deve pensar em Universidade Corporativa como uma forma completa de aprendizagem, pois ela visa atender apenas às exigências de mercado, acabando por excluir uma parcela da sociedade que não se adequa a esse novo cenário de constantes mudanças em que a exigência pelo desenvolvimento de competências e qualificações torna-se cada vez maior e o conceito de empregabilidade consiste no advento do maior número de capital cultural institucionalizado 'sob forma de ações provisórias, reconhecíveis, mensuráveis e, por isso, certificáveis'. (LOMBARDI; SAVIANI e SANFELICE, 2002, p.114) Nesse contexto, questiona-se o uso do termo Universidade Corporativa, uma vez que universidade representa uma ferramenta de desenvolvimento em ensino, pesquisa e extensão, que deve estar voltada para a preparação do indivíduo para a sua formação profissional e sua formação para a vida social, dando-lhe condições de responder às necessidades da sociedade, proporcionando ao acadêmico uma visão holística e multidisciplinar desenvolvendo a criticidade e habilidades de abstração e inovação. Esta deve estar atenta às mudanças do mercado cumprindo seu papel de desenvolvimento da sociedade oportunizando a capacidade de criar novas tecnologias e alternativas sem cair no tecnicismo empresarial. Portanto, a UC não possui estas características, por demonstrar seu interesse apenas em treinar indivíduos para atender suas necessidades de sobrevivência no mercado do que para estimular o trabalhador a pensar como sujeito social do processo produtivo e não como uma extensão tecnológica. Não se vê em UC incentivos à pesquisa ou outras atividades que não sejam voltadas para os fins da empresa. A partir dessa visão de atender unicamente os interesses da empresa e do mercado, as UCs acabam por excluir uma parcela da sociedade que não se adequa a esse novo cenário de constantes mudanças em que a exigência pelo desenvolvimento de competências e qualificações torna-se cada vez maior, onde o conceito de empregabilidade consiste no advento de qualificações e certificações. Portanto, na sociedade do conhecimento deve-se formar indivíduos não apenas atender aos interesses do mercado e das empresas. Essa educação, que vem desde as séries iniciais deve desenvolver cidadãos críticos, através da integração entre a educação geral e específica em que preocupe-se não apenas com a formação do trabalhador, mas do ser político e humano, que tenha compromisso com a transformação social, que não aceita a ideologia alienada das empresas que visam conformar seus empregados a trabalharem muito e ganharem pouco e se culparem por não atenderem às exigências que o mercado impõe. ANA CAROLINE FERREIRA DE SOUSA – PEDAGOGA COM ATUAÇÃO NA ÁREA DE EDUCAÇÃO CORPORATIVA REFERÊNCIAS ALPERSTEDT, C. Aprendizagem corporativa: educação corporativa: estratégias de promoção da gestão do conhecimento. http://www.aprendervirtual.com. Acesso em setembro de 2007. DELUIZ, Neise. O modelo das Competências profissionais no mundo do trabalho e na educação: implicações para o currículo. In boletim técnico do SENAI, 2001. Disponível em: <www.senac.br/INFORMATIVO/BTS/273/boltec273.htm>. Acesso em: 21 set 2007. 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