Vai aí um Feitiço do Patrono para Dementadores Corporativos?

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Outro dia, conversava com um bom amigo sobre mazelas corporativas quando ele me disparou pergunta surpreendente que parecia fora de contexto. “Você já assistiu aos filmes de Harry Potter”? Como ainda vivo neste planeta, respondi que naturalmente tinha visto todos aqueles ótimos filmes do jovem bruxo. E ele continuou: Lembra dos dementadores? Como não me recordaria daquelas personagens absolutamente sinistras? Minha curiosidade aumentava de intensidade. Afinal, o que tinha Harry Potter e dementadores que ver com nosso papo sobre organizações e lideranças? Pois “fulano de tal” é um tremendo dementador, acusou meu colega, com a certeza da definição perfeita e inspirada para um dos líderes de sua empresa.
Investigando pela web, dementador é descrito como um não-ser, uma criatura das trevas que se alimenta de felicidade humana, consumindo a alma das pessoas e deixando suas vítimas apáticas como conchas vazias, deprimidas, em estado vegetativo. Reconheci nesta descrição vários líderes com quem interagi pela vida e aposto que você também pode fazer sua lista.
Fui procurar se a ideia de dementadores corporativos era original e atraente apenas para mim ou se já era conceito antigo e desbotado. A primeira coisa que brotou na memória foram referências a vampiros organizacionais. Porém, os textos sobre estes seres igualmente temidos relacionam vampiros com perfis pessimistas, desanimados, excessivamente críticos, que contaminam negativamente o ambiente com seu baixo astral. Embora existam aos montes, não se enquadram em nosso conceito de dementadores.
Encontrei ainda citações a zumbis corporativos, ora associados a funcionários desmotivados, sem vontade individual, apoiando-se exclusivamente em grupos numa relação de parasita-hospedeiro, ora vinculados àqueles líderes sem credibilidade e respeito dos liderados.
Quanto a dementadores corporativos, encontrei pouca coisa, com destaque para artigo de 2010 do professor Américo Ramos que explicitava sua visão sobre tais agentes em contexto de aprendizagem no qual encarnariam a face castradora do controle, com total foco na preservação da rotina e eliminando o potencial de inovação e questionamento do status quo.
Na conversa entre os dois amigos que abriu este texto, o entendimento é que dementadores corporativos são líderes que contribuem para drenar nossa motivação e desestabilizar os alicerces do nosso estado de felicidade. Ao crescer em suas carreiras, se desumanizam e vão inflando seu ego, tendo cada vez mais certeza de suas competências que os alavancam a posições mais elevadas. No entanto, se intoxicam com a ilusão desse poder e perdem uma das capacidades humanas mais importantes que é a empatia. O pior de tudo é que gestores de pessoas em altas posições exercem uma influência tão gigantesca que nem imaginam o estrago que fazem com um simples gesto, comentário ou atitude inadequada.
Frequentes piadas irônicas, abordagem constantemente repressora, questionamentos negativos sobre coisas que vêm sendo bem feitas e gerando valor, uma abordagem nada apreciativa dos fatos funcionam como minas de guerra explodindo e fraturando o entusiasmo dos colaboradores por todo o tempo. Claro que não podemos ser frágeis como cristal e melindráveis com qualquer gesto, mas se você já travou batalha com dementadores corporativos, sabe do que falo. A ação do dementador organizacional costuma ocupar nosso pensamento por muito mais tempo do que deveria, despertando um sentimento doloroso de injustiça, uma percepção de falta de integridade da empresa e de quebra de confiança em um sistema de gestão saudável. Naturalmente, todos nós nos perguntamos como um líder tão incompleto e nocivo para o ambiente organizacional conquista posição tão destacada. Acabamos torcendo em “clubes secretos” para estes dementadores partirem logo para novos desafios já que temos pouca fé que eles se proponham a mudar de conduta.
Nos filmes de Harry Potter, a solução viável apenas a alguns bruxos é o tal Feitiço do Patrono que evoca uma força de energia positiva, manifestação mágica de felicidade e boa vontade que neutraliza a influência maligna dos dementadores.
Na vida real, esta força não virá de fora pela evocação de um espírito guardião. O encanto defensivo é produzido dentro de nós. Temos obrigação de saber que somos imperfeitos e que temos muito a aprender. Entretanto, devemos conhecer nosso valor e preservar a autoestima. Precisamos impedir nosso cérebro de gastar tempo demais com pensamentos aflitivos, evitando amplificar cada decepção de forma exagerada. Faz parte de nossas escolhas como queremos interpretar os fatos. Queremos nos vitimizar ou partir para a reação? E é nossa escolha decidir tolerar ou não situações prolongadas convivendo com dementadores. Se a empresa prefere alavancar tais não-seres em suas principais posições e detonar o ambiente de inovação e empreendedorismo, você sempre pode dizer em alto e bom som “Expecto Patronum”, cair fora e buscar novo caminho para a felicidade!










