Voo de galinha da inovação: quando a estratégia não vira processo

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Para que gere impacto real, é preciso construir bases sólidas dentro da organização: com uma cultura que incentive a experimentação, processos que transformem ideias em iniciativas concretas, e tecnologia que permita escalar tais soluções com segurança e prosperidade
Por Alexandre Pierro
Inovar virou, praticamente, uma obrigação no discurso das empresas. Muito se fala sobre transformação digital, novos modelos de negócio e cultura inovadora, porém, na prática, grande parte dessas iniciativas acaba se comportando como um típico voo de galinha: começam com força, geram entusiasmo e expectativa, mas logo perdem fôlego antes de alcançar resultados concretos. Muito além de seguir uma moda, o desafio está em construir processos, disciplina e a continuidade necessários para manter a inovação no ar, alcançando os resultados desejados.
É muito comum observar essas expectativas enormes nas organizações que iniciam essa jornada, dispostas, ainda, a investir em áreas estratégicas, criação de comitês de inovação e metodologias ágeis como forma de impulsionar, ainda mais, o engajamento das equipes nas iniciativas inovadoras. Mas, assim como a ave que bate as asas com intensidade, mas não consegue se manter no ar por muito tempo, muitas empresas começam essa trajetória com grande energia e recursos, mas sem as estruturas necessárias para sustentá-la dali para frente.
Os dados divulgados no Índice Global de Inovação 2025 refletem essa desigualdade. Em seu indicador de infraestrutura, o qual engloba o sustento das atividades inovadoras, o Brasil caiu do 55º lugar, em 2024, para o 60º. Ou seja, a inovação, nesses casos, vira um esforço pontual, ao invés de uma capacidade permanente da organização.
Inovar não depende apenas de criatividade ou de projetos isolados, mas de uma base consistente que permita transformar ideias em resultados duradouros – o qual inclui um tripé poderoso para sustentar essa jornada: cultura inovadora, com ambiente propício para tal; processos definidos, para trazer maior segurança no que for implementado; e tecnologia, reforçando a robustez e modernidade como forma de impulsionar a organização em um crescimento contínuo e próspero.
Nenhuma iniciativa de inovação prospera em ambientes corporativos que punem o erro, desencorajam a experimentação ou priorizam apenas resultados de curto prazo. É imprescindível que haja espaço para testar hipóteses, aprender com as falhas e estimular a colaboração entre as áreas, construindo uma cultura em que profissionais se sentem seguros para propor mudanças e buscar por melhorias constantemente.
Com um ambiente preparado para isso, há uma maior chance de que os processos consigam transformar boas ideias em iniciativas concretas e escaláveis, contando com mecanismos claros para avaliar, priorizar e desenvolver essas propostas continuamente. Nesse sentido, estruturas de governança para a inovação, metodologias de experimentação e critérios de priorização e integração com as áreas de negócio são essenciais para garantir que avancem além da fase de testes – fornecendo consistência e direção a fim de que não se tornem experimentos isolados ou pontuais.
Agora, mesmo quando existe cultura favorável e processos bem estruturados, a inovação, dificilmente, alcançará essa escalabilidade sem o suporte adequado de tecnologias robustas. É essa infraestrutura que permite transformar tais testes em soluções replicáveis, ampliando o impacto das iniciativas e as integrando às operações da empresa – além, claro de possibilitar a conexão de diferentes áreas da organização e integração de informações estratégicas, criando um ambiente mais propício para decisões orientadas por dados. A ausência desse pilar, portanto, faz com que essas iniciativas sejam limitadas a pilotos ou projetos isolados, incapazes de gerar transformação real e geração de valor ao negócio.
No fim do dia, inovar não é sobre dar um salto rápido, mas sobre sustentar o voo. Empresas que tratam a inovação como um programa pontual, um laboratório isolado ou um entusiasmo passageiro, acabam reproduzindo o clássico voo de galinha: muita energia no início, mas pouca capacidade de permanecer no ar.
Para que gere impacto real, é preciso construir bases sólidas dentro da organização: com uma cultura que incentive a experimentação, processos que transformem ideias em iniciativas concretas, e tecnologia que permita escalar tais soluções com segurança e prosperidade. Sem isso, a inovação continuará sendo apenas um impulso momentâneo, dificultando que as empresas alcancem patamares cada vez maiores e melhores.
Alexandre Pierro é mestre em gestão e engenharia da inovação, engenheiro mecânico, bacharel em física e especialista de gestão da PALAS, consultoria pioneira na implementação da ISO de inovação na América Latina.











