A IA não decide. Não assume riscos. Não substitui quem tem coragem

Foto: Divulgação/Henrique Aren Troitinho
Henrique Aren Troitinho, fundador da TOCA, revela por que o futuro dos negócios pertence a quem vende trabalho — não ferramentas
Henrique Aren Troitinho é fundador da TOCA (toca.com.vc), negócio onde atua de forma mais ativa com funcionários de IA para e-commerce, marketplace e ads. Há 14 anos, também comanda a Score Media, agência de performance que construiu de zero e mantém até hoje. Sua operação vive o dilema prático que define 2026: como entregar resultado imediato em mídia performance enquanto constrói uma nova camada de serviços com IA nativa. Para C-Levels que precisam decidir hoje onde a IA entra e onde o humano permanece indispensável, sua perspectiva é o mapa de navegação de quem está fazendo — não teorizando.
1. O Parâmetro do Futuro: Por Que o CEO Deve Olhar Para Onde o COO e o CFO Não Olham
Pergunta: Quando você senta para tomar uma decisão de grande impacto no negócio, o que guia o seu critério? É o problema na sua frente ou o movimento que vem depois dele?
Insight de Henrique Aren Troitinho: “Olhar para o futuro, entender para onde devemos ir. O COO tem que olhar para o hoje, o CFO precisa manter o negócio hoje, mas o CEO precisa olhar para o próximo passo e ajustar isso para onde deve caminhar. No nosso mercado, o artigo da Sequoia é claro: agora vamos conversar, mas toda a tecnologia vai entregar. Service as a Software é o futuro. Todo mundo vai perder um grande cliente para a IA.”
A divisão de papéis que Henrique descreve é mais do que governança — é uma arquitetura de sobrevivência. A Sequoia Capital, em seu ensaio “Services: The New Software” publicado em março de 2026, afirma que “a próxima empresa de um trilhão de dólares será uma empresa de software disfarçada de firma de serviços”. A tese é direta: para cada dólar gasto em software, seis são gastos em serviços. Quem vende a ferramenta corre contra o modelo de IA. Quem vende o trabalho vê cada melhoria da IA tornar seu serviço mais rápido, mais barato e mais difícil de competir. Para o C-Level, isso significa uma redefinição do portfólio de receita: o CEO que não está mapeando quais serviços sua empresa pode entregar com IA nativa está posicionando o negócio para perder espaço — e clientes — para quem já fez essa virada.
2. O Mito da Substituição Total: O Custo Real de Acreditar Que IA Substitui Quem Decide
Pergunta: Onde você vê os C-Levels cometendo os erros mais caros hoje em dia? É na pressa de cortar gente ou na lentidão em investir no futuro?
Insight de Henrique Aren Troitinho: “De uma forma mais geral, é acreditar que a IA vai fazer o trabalho total e completo de um humano. Assumir risco é uma qualidade humana, a IA não é boa nisso. Você vê que muita gente está tendo muito gasto em ideias de diminuir pessoas e a conta está grande. Venderam errado essa ideia. No meu mundo das agências, é onde investir o caixa futuro. O dinheiro do futuro muitas vezes nem é investido, não é pensado em novos serviços, novas receitas, novas demandas. Ainda é muito as comissões de ads. Ainda é muita revenda de mídia. Muita gente distribui como lucro, e existe pouco investimento no futuro nesse mundo das agências.”
A Sequoia faz uma distinção que valida exatamente o ponto de Henrique: existem dois tipos de trabalho — inteligência e julgamento. Escrever código é inteligência. Saber o que construir a seguir é julgamento. A IA cruzou o limiar onde consegue executar a maior parte do trabalho de inteligência de forma autônoma, mas o julgamento permanece humano. É exatamente o que Henrique chama de “assumir risco”: a capacidade de olhar dados, contexto e intuição e tomar uma decisão que pode estar errada — mas que nenhum modelo consegue tomar por você. O erro mais caro não é investir em IA. É investir em IA achando que ela substitui julgamento. O resultado são projetos de automação que prometem corte de headcount e entregam custo alto com ROI incerto. Enquanto isso, o dinheiro que deveria estar criando novas linhas de receita é distribuído como lucro de curto prazo ou mantido em comissionamento de mídia — um modelo que sobrevive hoje, mas não amanhã.
3. O Diferencial Que a IA Não Replica: Por Que Carisma É Moeda Forte Em Um Mercado de Dados
Pergunta: Com a IA dominando análise de dados e execução, que soft skill você considera essencial hoje que antes era dado como garantido?
Insight de Henrique Aren Troitinho: “Carisma é essencial. Porque uma coisa é nós dois conversarmos sobre seus filhos, por exemplo, e eu perguntar detalhes da sua vida e da vida dele para termos empatia um com o outro. Outra coisa é a IA perguntar: soa mais frio, com um teor de invasão de privacidade. Então com tanta IA, ter carisma, ser empático permite gerar a conexão, é caminho para a profundidade com o cliente, parceiros, colaboradores.”
Em um mercado onde a IA consegue personalizar comunicação em escala, o paradoxo é que a personalização automatizada gera repulsa quando ultrapassa a fronteira da intimidade. O exemplo de Henrique captura uma tensão real: quando uma IA sabe demais sobre você sem que haja uma relação humana que justifique esse conhecimento, o efeito não é encantamento — é quebra de confiança. O carisma que Henrique coloca como essencial não é ornamentação; é a camada que transforma dados em relacionamento. Empresas que cortam headcount acreditando que IA substitui conexão humana estão eliminando exatamente o que cria diferenciação em um mercado commoditizado pela tecnologia. O humano que pergunta sobre sua família demonstra cuidado. A IA que faz a mesma pergunta demonstra vigilância. Essa diferença não é nuance — é a linha entre fidelizar e afastar.
A Revolução Silenciosa Que Está Mudando o Jogo
Há uma diferença fundamental entre quem usa IA e quem é IA. A Gartner projetou que até 2028, 30% das empresas Fortune 500 poderão usar canais de atendimento exclusivamente com IA. A Sequoia chama isso de “Revolução Cognitiva” — a transformação de um mercado de serviços global de 10 trilhões de dólares.
Microsoft não vende mais apenas software — vende trabalho. O Copilot é um serviço que escreve por você. A Salesforce migrou de CRM para agentes autônomos com o Agentforce. A Adobe passou de ferramentas criativas para geração criativa como serviço. Todas executam a tese da Sequoia: vender o trabalho, não a ferramenta.
Mas Henrique aponta dois alertas que a maioria ignora. O primeiro é estratégico. “Todo empresário tem que abraçar o risco e ser persistente”, diz. “Eu tenho uma mentalidade de lança. Eu tenho visão linear para o que quero. Para quais oportunidades você está pronto agora?” A mentalidade de lança que Henrique descreve é dupla. Por um lado, é foco total: existem milhares de oportunidades no mundo de IA, mas o critério de decisão não é o tamanho do mercado, é identificar o que você ama ou é muito bom em fazer e investir toda a energia nesse único eixo. Por outro, é disciplina de movimento: saber quando avançar e quando recuar. Sem essa linearidade, o C-Level reage a tudo e foca em nada. Com ela, cada oportunidade é filtrada por uma pergunta simples: isso é o que eu faço melhor?
O segundo é estrutural. “A segurança da informação”, alerta Henrique. “Está muito fácil de roubar dados, as pessoas estão usando ferramentas aleatórias e fica muito vulnerável. Esse assunto deveria ter muito mais cuidado agora.” O que ele descreve não é um problema de TI — é governança de C-Level. Quando equipes adotam ferramentas de IA sem política de dados, a empresa expõe seu ativo mais valioso: o conhecimento proprietário que diferencia seu serviço do concorrente.
O padrão é claro: quem trata IA como ferramenta de corte de custo está apostando contra o tempo. Quem trata IA como infraestrutura para vender trabalho — mantendo humanos no centro das decisões de risco, protegendo dados como ativo estratégico e preservando a empatia como diferencial — está construindo a próxima década.
A Pergunta Que Vai Tirar Seu Sono
Você está investindo o caixa do futuro ou apenas cortando o custo do presente?









