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A romantização da empatia em estudos qualitativos

Raquel Torres
Raquel Torres
19 out 2026 às 14:40
Última atualização: 19 out 2026
2 min leitura
19 out 2026 às 14:40
2 min leitura
Última atualização: 19 out 2026
A romantização da empatia em estudos qualitativos

Reprodução/Canva

Empatia tornou-se uma palavra confortável. Ela aparece em apresentações institucionais, em discursos de liderança, em relatórios de pesquisa. É difícil encontrar uma organização que não afirme ser empática. A escuta virou valor declarado, quase requisito moral.

Mas há uma diferença silenciosa entre compreender alguém e utilizar essa compreensão.

Na pesquisa qualitativa, a empatia é frequentemente tratada como virtude profissional. O pesquisador precisa criar vínculo, gerar confiança, permitir que o participante se expresse com segurança. Esse tipo de presença é condição para que a fala emerja sem defesa excessiva. Sustenta o campo. Abre espaço para aquilo que dificilmente seria dito em ambiente de julgamento.

O problema começa quando essa postura deixa de ser ponte e passa a funcionar como instrumento de captura.

Compreender profundamente as motivações, inseguranças e desejos de alguém pode ser um gesto ético. Pode também se transformar em estratégia de persuasão altamente refinada. Quando uma marca afirma que quer entender o consumidor, nem sempre a intenção é ampliar sua autonomia. Muitas vezes é aumentar sua adesão.

Vender mais. Ajustar discurso. Reduzir resistência. Nada disso é ilegal. Nem necessariamente imoral. Mas precisa ser nomeado.

Há um deslocamento sutil quando a compreensão da experiência humana se converte em mecanismo de influência. O discurso continua sendo de cuidado. A prática passa a ser de otimização de impacto. O que antes era aproximação passa a ser vantagem competitiva.

A pesquisa qualitativa ocupa posição delicada nesse cenário. Ao revelar medos, frustrações, ambivalências e vulnerabilidades, fornece matéria-prima poderosa. O destino dessa matéria-prima não é decisão exclusiva do pesquisador, mas tampouco lhe é completamente alheio.

Existem projetos em que a escuta busca realmente melhorar experiências, reduzir fricções desnecessárias, tornar produtos mais acessíveis. E existem contextos em que a compreensão é usada para explorar gatilhos emocionais com maior precisão. A fronteira entre esses dois movimentos nem sempre é nítida.

Romantizar a empatia é tratá-la como virtude incontestável, como se compreender fosse sempre ato de cuidado. Mas é possível compreender profundamente alguém e, ainda assim, agir contra seus próprios interesses. É possível ajustar discurso para parecer alinhado enquanto se preservam estruturas que mantêm desigualdades intactas.

Na prática da pesquisa, isso exige vigilância interna. Quando organizamos insights sobre desejos latentes, precisamos nos perguntar se estamos ampliando capacidade de escolha ou apenas refinando capacidade de persuasão. Se estamos tornando a experiência mais digna ou apenas mais rentável.

Empatia não é neutra. Ela é poder relacional. E se ignorar essa dimensão é confortável, reconhecê-la exige maturidade.

Talvez o ponto não seja abandonar a empatia como ferramenta estratégica, mas recusar a ideia de que toda empatia é automaticamente ética. Compreender alguém cria responsabilidade sobre o que se fará com essa compreensão.

E responsabilidade não é palavra decorativa. Pelo menos não deveria ser.

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    Sobre o autor

    Raquel Torres

    Raquel Torres

    Professora no curso “Formação Expert em Moderação de Focus Group”, do Administradores Premium.

    É consultora sênior em pesquisa qualitativa e colunista da ESOMAR Research World, onde contribui para o debate internacional sobre os desafios contemporâneos da pesquisa qualitativa. É autora do livro Teoria e Prática da Moderação de Focus Group.

    É fundadora e diretora da Focusquali e atua de forma multidisciplinar, integrando marketing, psicologia, neurociência do consumo, pesquisa de mercado e pesquisa política. Possui mais de 18 anos de experiência em pesquisa qualitativa e acumula mais de 3.000 horas de moderação de grupos focais e entrevistas em profundidade, com projetos realizados no Brasil e no exterior, incluindo forte atuação em estudos políticos e em tracking qualitativo eleitoral.

    Com MBA em Neuromarketing (Faculdade Unyleya), tem Especialização em Dinâmica dos Grupos (SBDG - Sociedade Brasileira de Dinâmica dos Grupos); Bacharelado em Administração de Empresas (UNISINOS - Universidade do Vale do Rio dos Sinos). É formada em Psicologia da Aprendizagem pela Universidade Estadual do Maranhão; Neuropedagogia pela Universidade Estadual do Maranhão; Psicologia Positiva pela University of North Carolina at Chapel Hill. Possui sólida experiência em pesquisa qualitativa; mais de 15 anos moderando grupos focais e conduzindo entrevistas em profundidade, com mais de 2000 (duas mil) horas de moderação, nas mais importantes instituições públicas e privadas, de diversos setores do Brasil e do exterior, tais como: indústria, varejo, bancos, tele comunicação, tecnologia, educação, saúde humana e animal, agribusiness, cooperativa, internacional e sistema S do Brasil.

    Professora no curso “Formação Expert em Moderação de Focus Group”, do Administradores Premium.

    É consultora sênior em pesquisa qualitativa e colunista da ESOMAR Research World, onde contribui para o debate internacional sobre os desafios contemporâneos da pesquisa qualitativa. É autora do livro Teoria e Prática da Moderação de Focus Group.

    É fundadora e diretora da Focusquali e atua de forma multidisciplinar, integrando marketing, psicologia, neurociência do consumo, pesquisa de mercado e pesquisa política. Possui mais de 18 anos de experiência em pesquisa qualitativa e acumula mais de 3.000 horas de moderação de grupos focais e entrevistas em profundidade, com projetos realizados no Brasil e no exterior, incluindo forte atuação em estudos políticos e em tracking qualitativo eleitoral.

    Com MBA em Neuromarketing (Faculdade Unyleya), tem Especialização em Dinâmica dos Grupos (SBDG - Sociedade Brasileira de Dinâmica dos Grupos); Bacharelado em Administração de Empresas (UNISINOS - Universidade do Vale do Rio dos Sinos). É formada em Psicologia da Aprendizagem pela Universidade Estadual do Maranhão; Neuropedagogia pela Universidade Estadual do Maranhão; Psicologia Positiva pela University of North Carolina at Chapel Hill. Possui sólida experiência em pesquisa qualitativa; mais de 15 anos moderando grupos focais e conduzindo entrevistas em profundidade, com mais de 2000 (duas mil) horas de moderação, nas mais importantes instituições públicas e privadas, de diversos setores do Brasil e do exterior, tais como: indústria, varejo, bancos, tele comunicação, tecnologia, educação, saúde humana e animal, agribusiness, cooperativa, internacional e sistema S do Brasil.

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