Por Paulo Motta, vice-presidente do Mercado & Opinião Há anos circulo pelo ecossistema de startups brasileiro, como investidor, mentor de empreendedores e frequentador assíduo de eventos e rodadas de negócios. E há algo que me incomoda cada vez mais nesse ambiente: o quanto o brilho do palco tem ofuscado o que realmente sustenta uma empresa, que é a execução consistente, a entrega de valor ao cliente e a capacidade de crescer de forma sustentável. Não estou dizendo que o pitch não importa. Comunicação é parte essencial de qualquer negócio, e uma boa apresentação pode abrir portas, render conversas estratégicas e aproximar uma ideia do capital que ela precisa para sair do papel. O problema é que, nos últimos anos, ele deixou de ser uma ferramenta para se tornar quase um fim em si mesmo. Vejo fundadores dedicando semanas a ensaiar falas de efeito, a posar para a foto perfeita no telão, a lapidar frases que soem inesquecíveis. E essa energia toda, com frequência, é tirada de onde deveria estar concentrada: produto, time, cliente e resultado. Os números de 2025 ajudam a dimensionar o problema. Segundo levantamento da Liga Ventures, os aportes em startups brasileiras somaram R$13 bi no ano, uma queda de 16% em relação a 2024, distribuídos em 407 transações. Com menos capital em circulação, cada rodada de investimento se tornou mais disputada, e o discurso de palco deixou de ser suficiente para convencer investidores mais seletivos. Já um levantamento anterior da Associação Brasileira de Startups (Abstartups) mostrava que 84,3% das startups do país não haviam recebido nenhum investimento em 2024, um sinal de que o funil entre pitch e capital sempre foi estreito, e agora está ficando ainda mais. É um retrato incômodo de um ecossistema que, em muitos casos, ainda recompensa mais a performance do discurso do que a solidez do modelo de negócio por trás dele. Já vi de perto empresas aplaudidas de pé, premiadas, badaladas na imprensa, que não resistiram por falta de viabilidade financeira, disciplina operacional ou capacidade de se adaptar quando o cenário mudou. Também acompanhei captações milionárias construídas sobre discursos brilhantes que, na prática, esbarraram em atrasos crônicos, falhas logísticas e problemas jurídicos que o pitch jamais mencionou. Em todos esses casos, o roteiro era impecável; a realidade, não. Do outro lado, conheço fundadores que fazem questão de evitar os holofotes. Preferem investir tempo em melhorar o produto, ajustar processos e atender bem quem já é cliente. Não ignoram a comunicação, mas tratam a apresentação como consequência do negócio, não como substituto dele. E, não por acaso, são justamente esses que costumam apresentar crescimento mais saudável e duradouro. A lição que fico levando comigo é simples: o pitch deveria refletir a verdade da empresa, nunca disfarçar suas fragilidades. Quem investe com atenção não se impressiona com efeito de palco, procura substância, produto validado, tração real, time competente, histórico consistente e visão de futuro que resista a perguntas difíceis. Nenhuma dessas coisas nasce de um discurso bem ensaiado; nasce da coerência entre o que se diz e o que se faz todos os dias. Enquanto o mercado insistir em tratar o pitch como o ponto alto da jornada empreendedora, vai continuar perdendo negócios que tinham tudo para se tornar grandes histórias, mas que gastaram sua energia no lugar errado. A boa notícia é que essa lógica pode ser revertida: com menos tempo dedicado ao discurso e mais à execução, menos preocupação com a frase de efeito e mais com o resultado que ela deveria representar. O aplauso de cinco minutos é gratificante, sem dúvida, mas é a construção que se sustenta ao longo dos anos que, no fim, separa quem apenas brilhou no palco de quem realmente construiu um negócio.