Sou baiano desde que eu nasci. Mas sou nato de uma cidade descendente de mineiros e, por isso, possui um diferencial liguinstico em relação à gema da terra da felicidade. Itanhém, a 980 km da capital baiana, é uma cidade com cerca de 20 mil habitantes. Por ser território da Bahia lá também se fala o baianês, com um pequena adaptação. 'Oxente', por exemplo, em Itanhém se pronuncia 'oxent'. E outras: relóg' (relógio), cachorr' (cachorro), êl (ele), aquêl' (aquele), doid' (doido). Tais variações idiomáticas se justificam por, a poucas 'horas de relógio' dali, estar o estado de Minas Gerais. Assim, é justo que se herde um pouco do 'mineirim' (inho). É fato que, quando se muda de estado, o choque linguístico às vezes assusta. Afinal, não é em qualquer lugar que se pode: botar pocando ao invés de arrasar; comer água ao invés de beber; ter um classificador ao invés de pasta; pocar um balão ao invés de estourá-lo; ir pro reggae ao invés de ir pro rock; decalcar, e não copiar; ter “dor de facão”, e não “dor de lado”; Mas é Bahia, meu rei. Para os cariocas, o baiano é preguiçoso, mas dá para sentir no tom de voz que eles morem de inveja, porque na Bahia tudo é perto e toda hora é cedo. Mesmo que o trem das 11 passe às 12h30, de modo a sobrar tempo para alguma coisa. Para os paulistas, somos barbeiros, mas na terra de todos os santos não temos revezamento, porque o ar não é poluído e os motoristas são calmos. É inacreditável. Os mineiros falam da nossa culinária, mas babam quando passam em frente à baiana do acarajé. Dizem que as mulheres e os homens mais bonitos estão no Espírito Santo e nos estados do Sul. Mas porque tanta curiosidade em descobrir o que a baiana tem? Mas voltando às expressões lingüísticas, o bainês é uma questão de cultura e não somente de linguagem. Só na Bahia, por exemplo, que se marca compromisso para 'de hoje a 8' ou 'daqui a uma hora de relógio'. Em alguns lugares se fala besteira e em outros, bobagem. Na Bahia, esses dois adjetivos são unificados e se forma bestagem. Baiano que é baiano não se chateia, fica retado… Quando um baiano se chocar contra você não estranhe ao ouvir a expressão 'na moral' ou 'foi mal', 'na boa', na verdade é um pedido de desculpas. Baiano é econômico nas palavras. É por isso que em Itanhém não se fala algumas vogais no final das frases e, no resto da Bahia, a palavra por inteiro (risos). Baiano sempre volta à sua terra de origem, porque baiano não vai embora, “se pica”. Somos felizes por tudo isso. Não é por acaso que temos o orgulho de sermos da terra da felicidade. E baiano tem orgulho sim, de ser baiano, de comer acarajé, de rir de piadas de baianos, de viver num fuzuê arretado (de bom). A nossa forma de expressar é o bicho. Coisa que não se fala em lugar algum, falamos na Bahia. Somente o baiano tem a proeza de conjugar o verbo 'ever' (eu evinha, nós evinha… ele evém); A Bahia é o único lugar onde se pode falar uma frase só com vogais (sem consoantes) e ser compreendido; somente o baiano não se reta (chateia) com qualquer coisa, pois o baiano é gente fina. Dizem que baiano é cheio de nove hora (ó paí, ó. Que diabeisso?). Mas o baiano se identifica em qualquer lugar do mundo e nunca perde as raízes e pererê caixa de fósforo.