O livro é uma abordagem irônica e cômica de algo que nós vemos ou já vimos em algum momento na vida profissional: pessoas que progridem seja por meio do “enrolation” sofisticado ou por meio do “enrolation” descarado. O autor João José da Costa é um profissional de RH observador o bastante para transmitir o quão curioso (e não menos odioso) pode ser o universo da procrastinação. Peço que entendam de forma reflexiva porém bem humorada as colocações apresentadas: um gestor maduro talvez não caia nessa e facilmente perceba um subordinado com esta atitude. Isto na prática, contudo, talvez não seja assim tão simples. Eu organizei um apanhado rápido dos principais comportamentos destes “encantadores de chefes” à partir de alguns dados do livro mencionado e de outros sites sobre o tema. Tentei organizá-los de forma a apresentar as sutilezas de cada um e agora convido você a conhecer os 8 comportamentos de um enrolador profissional: 1) Jamais recusa um convite para um cafezinho com as chefias: É o mais sutil e mais inteligente dos comportamentos na minha opinião. O bom relacionamento é fundamental pra interagir, trocar informações e ficar por dentro dos problemas de todos os setores. É o momento de entender as correntes políticas internas e alinhar as suas opiniões com as opiniões das chefias. Chefes querem na maioria das vezes ouvir um reforço das convicções que eles já possuem. É a subordinação incondicional que fará com que o enrolador seja considerado para posições futuras e que futuras más avaliações de desempenho do enrolador sejam minimizadas. 2) Vive pendurado no telefone: Aparentar estar sempre ocupado no telefone é um recurso precioso se bem utilizado. Afinal, se aquela pessoa está sempre sendo acionada é porque ela deve ter recursos de competência indispensáveis a clientes, colegas e à outras pessoas da empresa. É claro que do outro lado da linha não precisa estar necessariamente alguém da empresa. Sacou? 3) Participa de todos os cursos, reuniões e seminários que puder e fala muito mesmo que não tenha a mínima ideia sobre o assunto: Reuniões, Cursos e Wokshops são um recurso fantástico para o procrastinador: duram o dia todo, é um tempo valorizado pela empresa e que carregam consigo a imagem de eficiência para produzir resultados. Na maioria das situações as empresas adoram conceitos abstratos que não apontam métodos e processos que materializem o que está sendo dito. É algo meio viciante que parece vir da formação do administrador: desde a faculdade somos acostumados a teorizar muito e a pensar pouco no que aquele conceito aprendido se aplica à prática. Duvida? Dá uma olhada no quadro abaixo e faça o teste. Escolha aleatoriamente uma sentença qualquer de cada coluna e vá juntando uma a uma em uma frase. Juntou? Você agora irá perceber quantas frases de efeito como essas (que não possuem efeito prático nenhum) você já deve ter ouvido nas reuniões da sua empresa: Exemplo: Caros colegas/ a complexidade dos estudos efetuados/ nos obriga à análise/ das opções básicas para o sucesso do programa (…ahn???). 4) Programa o máximo de compromissos externos: Faz sentido marcar viagens ou compromissos externos para tratar de assuntos passíveis de serem resolvidos por Skype ou telefone? Viajar sempre que possível e agendar compromissos externos desnecessariamente é um recurso sempre à mão do procrastinador. 5) Mantém a mesa sempre bagunçada e uma expressão de irritação frequente: Documentos empilhados na mesa, livros abertos, papéis diversos, manuais da empresa e a imagem de que está sempre procurando algo nas gavetas. É importante lembrar que ao levantar da cadeira a imagem de profissional exacerbado deve ser cultivada: sempre haverá uma pasta, um relatório e alguns papéis que devem estar passeando com ele pra cima e pra baixo no escritório. 6) Enroladores são mestres do Marketing pessoal: O bom enrolador entende de self-marketing e é capaz de com muita competência justificar um resultado fora do planejado como sendo culpa de outro setor ou de transformar os atos mais simples em feitos notórios. Grupos de whatsapp corporativos são um terreno fértil para o que podemos chamar de “aparência de atividade”. O que conta é se mostrar em movimento (o tempo inteiro) mesmo diante da ausência de resultados. 7) Enroladores levam crédito pelo trabalho alheio: Participar e se envolver em vários projetos geralmente agregando valor nenhum e apenas organizando a forma de apresentar a ação criada pelos colegas para as chefias é uma forma de ganhar créditos pelo esforço alheio. Conta a imagem positiva de talento e proatividade. Enroladores são competentes fazedores de powerpoints. 8) Um vocabulário rico e preferencialmente com palavras em inglês é fundamental: Nenhum enrolador de alto nível vai chegar longe sem saber se expressar bem. Um HARDWORKER de verdade acha muito mais COOL fazer FOLLOW-UP do que simplesmente “acompanhar” um processo (profissionais de multinacionais tem licença poética neste oitavo ponto). Pra finalizar: Enrolar sem ser percebido é mais comum do que se imagina. As organizações são ambientes fertéis para a procrastinação profissional. Eu penso que uma gestão impessoal pautada por critérios meritocráticos, objetivos e com indicadores racionais de desempenho deve sofrer menos com profissionais assim. O enrolador profissional não vai encontrar espaço numa gestão focada em desempenho. Enrolar no trabalho requer planejamento mas não é capaz de apresentar resultados. Enroladores são maus executores. Com metas e bons indicadores não tem enrolação. Elas desnudam os enroladores.