A tramitação da proposta que reduz a jornada de trabalho e substitui a escala 6×1 pelo modelo 5×2 tem levado empresas de diferentes setores a revisar processos operacionais e ampliar investimentos em automação e inteligência artificial. O debate sobre a redução da jornada ganhou força ao longo de 2024, impulsionado por mobilizações nas redes sociais e pela atuação do movimento Vida Além do Trabalho (VAT). Desde então, o tema passou por negociações entre parlamentares, representantes do setor produtivo e trabalhadores, resultando em uma versão que prevê a redução gradual da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial. Mesmo antes da conclusão do processo legislativo, o mercado aponta que empresas já começaram a preparar suas estruturas, acelerando investimentos em automação e inteligência artificial. Fabiano Carvalho, especialista em Transformação Digital e CEO da Ikhon, indica que a discussão sobre a jornada apenas dá urgência ao que já estava no radar. 'Os próprios defensores da redução da jornada apontam que, com o avanço tecnológico, é possível diminuir o tempo de trabalho sem perda de produtividade em tarefas específicas e aliado a ações como qualificação de pessoas, redesenho de processos e gestão eficiente', afirma o especialista. Estudo realizado pela Zebra Technologies em parceria com a Oxford Economics aponta que a automação e a digitalização de processos têm contribuído para ganhos de produtividade e eficiência operacional, especialmente no varejo. Segundo o levantamento, o varejo registrou aumento de 21% na satisfação dos clientes, enquanto fabricantes relataram crescimento de 19% na produtividade dos funcionários. Nos setores de transporte e logística, as empresas relataram ganho de 21% na eficiência operacional. Os resultados do levantamento indicam que a automação e a inteligência artificial vêm sendo utilizadas pelas empresas como ferramentas para aumentar a produtividade, otimizar operações e aprimorar a experiência do cliente. Segundo o estudo, os ganhos foram observados em diferentes segmentos, com impactos em indicadores de eficiência operacional, desempenho das equipes e qualidade do atendimento. O que realmente pode ser automatizado O uso da tecnologia para automatizar tarefas não é recente, mas ganhou escala durante a Revolução Industrial, no final do século XVIII. A introdução de máquinas movidas a água e vapor substituiu parte do trabalho manual, principalmente na indústria têxtil, ampliando a capacidade produtiva e estabelecendo as bases dos processos de automação utilizados atualmente. O avanço da automação, segundo especialistas, está concentrado em atividades operacionais e burocráticas, com impacto direto na reorganização do tempo de trabalho nas empresas. O importante é como reeducar a forma de trabalho de um setor ou da empresa para aproveitar esse tempo extra de forma mais otimizada, aponta Fabiano. 'E isso acontece quando as empresas adotam ações como revisar processos, melhorar o uso do tempo e atuar de forma mais objetiva', diz. Alguns exemplos são preenchimento manual de formulários e envio presencial de notificações. Um robô pode ter a capacidade de extrair dados de um protocolo eletrônico, validar informações em outro sistema, renomear arquivos por padrão e registrar tudo em um sistema de gestão de documentos, o que, teoricamente, reduz o tempo gasto em processos administrativos. Mas o objetivo nunca é substituir pessoas e sim liberá-las para realizar trabalhos que exijam a percepção humana, afirma Carvalho. 'Tarefas que envolvem julgamento, negociação e análise de exceções complexas seguem exigindo intervenção humana, e a sinergia entre automação e colaboração humana costuma ser mais eficaz do que a automação total'.