O FALSO PARADIGMA DO GRAU DE INTELIGÊNCIA. Sob este título será apresentado um mosaico do estudo realizado por Stephen Jay Gould, A Falsa Medida do Homem, publicado em Portugal pela editora Martins Fontes, onde ele denuncia as sucessivas adulterações e fraudes cometidas por psicólogos e estatísticos americanos, com apoio de políticos, resultando na coisificação da inteligência e na larga comercialização dos testes psicotécnicos e de avaliação do Ql. A história desta grande mistificação e da sua fixação como paradigma é contada em detalhes por Jay Gould na obra citada. Cronologicamente, as primeiras tentativas de se estabelecerem correlação entre o flsico ou a aparência das pessoas e seus comportamentos sociais e depois, com sua inteligência, começam com Francis Galton, o apóstolo da quantificação. Rico e independente, primo do já então famoso Charles Darwin, dedicou se a seu tema favorito: a medição das pessoas e de seus comportamentos. Chegou a propor um método estatístico para avaliar a eficácia da prece religiosa. A quantificação era o deus de Galton, e, junto com ela, a firme convicção de que tudo que se podia medir no ser humano tinha um caráter hereditário. Em 1906, aparece em cena Robert Bean, com um longo artigo onde com¬parava os tamanhos dos cérebros de negros com os de brancos e apontando diferenças significativas no sentido de confirmar seus preconceitos com relação à inferioridade dos negros que, segundo ele, teriam cérebros menores. De posse do artigo, Franklin Mall da Jonh Hopkins University suspeitou dos dados de Bean e voltou a repetir a experiência com uma única diferença: assegurou se de ignorar quais cérebros pertenciam a brancos e quais a negros, até depois de havê los medido. E chegou à conclusão de que as pequenas diferenças entre uns e outros eram insuficientes para explicar qualquer coisa. Neste ponto devo interromper a narrativa para alertar que estamos diante de dois paradigmas subjacentes ao que estamos analisando: o que proclama serem o cientista e o método científico isentos de paixões, e o que sustenta que, mesmo o cientista sério e cuidadoso, sofre a influência de seus preconceitos. O que Franklin Mall provou foi a veracidade deste segundo paradigma: o cientista, usando criteriosamente o método científico, pode ainda assim, medir aquilo que o seu subconsciente quer encontrar como resultado e despreza o valor que poderia ser verdadeiro. No século anterior, a intelectualidade européia havia se saturado das experiências de Paul Broca, o famoso craniometrista que relacionava o tamanho de cérebro às características de comportamento social. Contrariamente a Bean, os seguidores de Paul Broca foram cientistas sé¬rios, cujas medições eram meticulosamente efetuadas, mas cujos preconceitos influenciaram suas interpretações. Em 1861, Pierre Gratiolet, um médico desconhecido, ousou sustentar que o tamanho de cérebro nada tinha a ver com a inteligência. A resposta de Broca foi seca: 'Em geral, o cérebro é maior nos adultos que nos anciãos, maior no homem que na mulher, maior nos homens eminentes que nos medíocres, maior nas raças superiores que nas inferiores (pág. 304)… Em igualdade de condições, existe uma notável relação entre o desenvolvimento da inteligência e o volume do cérebro. (pág. 188). A cor da pele mais ou menos negra, o cabelo crespo e a inferioridade intelectual e social estão freqüentemente associados. (pág. 280)'. Assim, com base em preconceitos raciais e com o predileto de Broca, o da inferioridade feminina, foi instituída uma teoria sobre o tamanho do cérebro e a inteligência, foi criado o índice Craniano, e o conceito de raças superiores foi fortalecido, tudo comprovado “cientificamente”. Neste ambiente aparece Alfred Binet. Decidido a estudar a medição da inteligência, recorreu ao paradigma em vigor na sua época: dedicou se a medir crânios de acordo com a teoria de Broca. Chegou a publicar nove artigos sobre craniometria, mas, ao final do quinto, sua fé na teoria dos cérebros havia desaparecido. Num exame muito franco de consciência, Binet publicou: “Desejo formular de maneira muito explícita o que observei em mim mesmo. Os detalhes que se seguem são o que a maioria dos autores não publica, por não querer que sejam conhecidos (1900, pág. 204)… Minhas medidas eram mais resultado de auto sugestão que medidas reais.” (pág. 325). Em 1904, Binet voltou às medidas porém com outras técnicas. Inventou uma série de tarefas simples que permitiram avaliar segundo sua convicção as diferenças de capa¬cidade pela diferença de execução. Enfatizando a natureza empírica do experimento, afirmava: ” Pouco importa quais são os testes, contanto que sejam numerosos.” Binet decidiu atribuir a cada tarefa um nível de idade, a idade mínima de uma criança de inteligência normal que realizasse a tarefa. A suposição de Binet era baseada num jogo de causalidades diretas, se isto acontece, então aquilo foi a causa. Se uma criança executasse uma tarefa padrão, então ele teria um grau de inteligência correspondente. A este grau Binet atribuiria um numero igual à idade mínima de uma criança que realizasse a tarefa. A esta idade atribuída por Binet era comparada a idade cronológica da criança e daí estabeleceu se uma tabela e um índice de capacidade de realização das tarefas. Em 1912, o psicólogo alemão W. Stern dividiu a idade do teste pela idade cronológica, e nascia o QI – Quociente de Inteligência. Com a pureza do seu profissionalismo, Binet alertou para os maus usos dos seus testes, que só foram propostos para tentar “… separar a inteligência natural da construída pela educação. É só a inteligência que tratamos de medir” (1905, pág. 42) .. “A escala, rigorosa¬mente falando, não permite medir a inteligência porque as qualidades intelectuais não se podem medir como se medem paredes, comprimentos ou volumes.” (1905, pág. 40). O propósito da escala era identificar crianças com problemas e ajudá las a melhorar, nunca foi o de atribuir lhe um rótulo, uma classificação ou impor lhes limites ou discriminações. Como relata a análise de Jay Gould, Binet referiu se de maneira eloqüente ao falar dos professores (o grifo é meu) bem intencionados que eram vítimas do pessimismo injustificado do hereditarismo: 'Sei, por experiência própria, que os professores parecem admitir que, numa classe em que encontramos os melhores alunos, devemos encontrar também os piores'. 'Que erro mais profundo.” ( Binet, 1909, p. 16) E Binet continua: ” Se nada fizermos, se não interviermos de forma eficaz e ativa, a criança continuará perdendo tempo e acabará por se desencorajar. A situação é muito grave, para ela, para nós, e para o país. A criança que perde o gosto pelo trabalho da escola corre o grande perigo de não o adquirir quando deixar a escola e precisar produzir para viver (1909, p. 100). Dentro das sugestões pedagógicas de Binet, ele formulou um programa: ” O que as crianças devem aprender em primeiro lugar não são as matérias ensinadas, por mais importantes que pareçam. Devem receber aulas de vontade, atenção (auto estima) e disciplina. Em poucas palavras, têm de aprender a aprender “(Binet,1908 pág257). Binet criou uma série de exercícios corporais para que as crianças pudessem “…educar seu corpo, sua vontade e seus movimentos ” (pág. 259). Um destes jogos era conhecido como o jogo da estátua as crianças teriam que parar e se imobilizar na posição em que estivessem enquanto o outro jogador não lhes desse a liberdade. Este jogo ainda hoje é jogado, pelas crianças em suas “brincadeiras”, e nas escolas militares como treinamento de disciplina. Nas escolas religiosas uma variante deste jogo também é usada para disciplinar os futuros ministros de Deus. Lamentável é que estas práticas só sobrevivam nestas escolas citadas onde o conceito de ser humano, aquilo que nos diferencia dos animais, é nossa capacidade de refrear os instintos, de dizer não quando queremos dizer sim. A herança de Binet pode ser simplificada em três princípios: 1 As medições do resultado dos testes de Binet são apenas um exercício prático, não se podendo dizer que meçam inteligência ou qualquer outra coisa. 2 A escala é um resultado aproximativo empírico para identificar crianças com problemas de aprendizagem, solucionáveis por uma atenção especial a elas. 3 A diferença de pontos atingidos na escala de uma criança para outra não pode ser usada como recurso para lhes atribuir algum tipo de incapacidade permanente. Por volta de 1910 a 1915, as idéias puras de Binet foram parar no ambiente americano, onde grupos de políticos pretendiam valer se de argumentos científicos para evitar a entrada, no país, de imigrantes “das raças impuras” que lhes tomavam as oportunidades de emprego. O uso incorreto e depois fraudulento dos testes de inteligência basearam se em duas grandes falácias: A primeira foi a suposição de que a inteligência era uma coisa física, residente em alguma partícula no cérebro como um tijolo, com tamanho e arestas, chamada inteligência geral ou Fator G. (coisa que, anos depois foi retomada por Ingram quando propôs as engramas ) A segunda foi atribuir um grau de inteligência aos resultados diretos dos testes e considerá lo como hereditário portanto herdado e inevitável. O que os psicólogos americanos fizeram foi atribuir aos resultados do inocente teste de Binet um índice de posição de vida que a pessoa ou grupo deveria ocupar indefinidamente. Três nomes devem ser citados nesta farsa (denunciada como farsa no livro Verdade ou farsa de los testes). H. H. Goddard introduziu a escala de Binet nos Estados Unidos da América e criou a noção de tijolo da inteligência (inteligência como coisa fisica). L. M. Terman criou a escala Stanford Binet e propôs uma sociedade racional onde a profissão de cada pessoa seria decidida com base em seu QI. R. M. Yerkes estatístico, convenceu o exército americano a testar o QI de 1.750.000 soldados, em 1918, no início da primeira grande guerra, para justificar uma suposta objetividade do teste, e da hereditariedade do QI, o que serviu de base à Lei da Restrição à Imigração, na qual se impedia o acesso aos Estados Unidos das ” raças inferiores” ou geneticamente desfavorecidas. Em 1919, Goddard, falando aos estudantes de Princenton afirmava: “… é verdade que os operários têm uma inteligência de 10 anos, ao passo que vocês têm uma de 20, logo, devem chefiar”. Em 1928 Goddard havia revisto suas posições e retratou se publicamente, transformando se num defensor das idéias originais e puras de Binet. Mas não foi mais ouvido e passou a ser considerado como um traidor do ideal americano. Ele já cumprira o seu papel: justifi¬car o injustificável, com o seu peso de professor, defendendo o injusto como se fosse justo. Lewis M. Terman, décimo segundo filho de um fazendeiro de Indiana, começou a se interessar pela inteligência quando um vendedor de livros, visitando sua casa, apalpou lhe a cabeça e previu lhe uma vida de total sucesso. Terman, com nove anos de idade, a partir deste momento jamais duvidou que “… o valor das pessoas era uma entidade mensurável situada na cabeça. “(1906 pág 14). Goddard introduziu o teste de Binet na América e Terman se encarregou de sua popularidade, e comercialização em larga escala. Terman fez uma adaptação na escala,e não no teste, para que ela abran¬gesse os “adultos superiores” dando à revisão o nome da universidade onde trabalhava. Assim, o teste passou a se chamar Stanford Binet. Este teste adaptado. passou a servir de padrão a quase to¬dos os testes de inteligência criados a partir desta época, e ainda serviu para uniformizar a escala de modo que o resultado da criança média, tomada com padrão, fosse igualado a 100 em cada idade. O primeiro teste aplicado em grande escala foi feito no Exército, no início da primeira guerra, por uma comissão composta por Robert M. Yerkes e Terman. Os teste foram aplicados separando se, por seus resultados, os “bois de trabalho” (work bulls), os soldados, os combatentes, os sargentos e os oficiais, conforme seus QI. O relatório feito pelo grupo, que se tornou famoso pelas suas mais de oito¬centas páginas, foi elaborado por Yerkes, Terman, C. C. Brigham, adepto fervoroso de Yerkes e pelo seu Lugar Tenente E. G. Boring, e reafirmava de forma categórica as maravilhosas potencialidades do QI. Com isto conseguiu se: 1. consolidar o estatus de ciência física à psicologia, 2. uma colocação definitiva a todos os membros do grupo com salários adequados, e 3. uma verdadeira enxurrada de testes psicotécnicos para serem usados por escolas, empresas, e imigração. Os resultados destes testes quando aplicados serviam como até hoje para classificar os aptos e os não aptos, os que tinham potencial e os que não tinham, os inteligentes e os idiotas, tudo de maneira definitiva, particularmente para os imigrantes de raças inferiores. Este fato impediu em muito a imigração e a fuga da Alemanha dos judeus e outros povos da Europa oriental, até a sua morte no holocausto de Hitler que, sem os testes, talvez não tivesse acontecido, e a imigração teria outro paradigma. Seis anos depois, Terman reconheceu seus erros e se retratou publicamente. Mas também não foi ouvido e o mal já estava feito. O mesmo aconteceu com Brigham. O famoso Relatório de Yerkes Terman foi revisitado recentemente por Jay Gould no livro já citado. Ele mostra, sem nenhuma dúvida, que os resultados foram propositadamente falseados, ignorando se condições inadequadas, procedimentos viciados, resumos estatísticos sem validade, escamoteamento de correlações negativas, além de interpretações nitidamente preconceituosas. Os testes só serviram como até hoje para justificar ações políticas, evitar que os políticos queimem seus dedos, e para os gerentes de hoje eliminar pessoas porque o setor de psicologia do RH mandou. E também para permitir que os psicólogos cumpram seu triste papel de justificar a ação injusta do chefe covarde que se esconde atrás dos seus testes. Por outro lado, alguns professores, prisioneiros do paradigma das diferenças mentais, fazem de suas aulas um palco para dar vazão às suas agressividades pois estão lidando com seres inferiores mentalmente, e transformam suas provas em cenas do inferno de Dante, classificando melhores, médios e piores e expondo os à execração pública ao divulgar suas notas. Eles precisam lembrar-se que, se houverem testes ou provas, os resultados são de propriedade dos alunos. A eles cabe autorizar sobre sua publicação. Para isto a Constituição Brasileira em vigor trata de um estatuto denominado Habeas Data. Em segundo lugar, o contrato de serviços educacionais exige que a qualidade do serviço seja mantida para toda a turma, logo TODOS devem aprender TODO o programa. Pelo menos é isto que eles esperam do contrato com a escola, e a Escola deveria indicar qual o esforço necessário deve ser despendido pelo aluno para cumprir o seu lado do contrato em termos de horas de leitura, interpretação e execução de tarefas, já que o tewste inicial de conhecimentos já foi superado no vestibular. Mesmo aqueles que tirem nota 8, estarão com 20% de defeitos, o que não é a qualidade contratada e assegurada pelo Código de Defesa do Consumidor. Temos agora mais dois paradigmas: aceitar que existe uma diferença inata de capacidade mental em cada raça e daí aceitar a superioridade de algumas. Ou aceitar que as diferenças físicas entre as pessoas não as impedem de aprender qualquer assunto de forma homogênea, talvez alguns com mais velocidade que outros, mas todos podem chegar ao mesmo grau de aprendizagem. Se aceitarmos este último teremos também que aceitar que os alunos de qualquer escola poderão sempre aprender todo o conteúdo dos programas, bastando que os professores mudem seus métodos de ensino e cobrando dos alunos que eles tenham um método de estudo. Ou imitando o já nosso conhecido Frederick Taylor, que ensinava qualquer trabalho a qualquer um. O país agradeceria pois veria o investimento nas pessoas ser bem aproveitado, elas sairiam da escola sabendo produzir. Restaria então para discutir a existência de empregos para todos, coisa que se resolve facilmente abandonando o mito de que somente a classe capitalista é quem pode oferecer empregos. Quando as escolas incluírem nos seus cursos Teoria e Prática Cooperativista, os alunos poderão criar suas cooperativas a partir dos primeiros anos de estudo, diretamente ou através de seus pais e parentes. Com isto terão sempre condições de custear a escola, os livros, a biblioteca, os professores, a direção e ainda aprenderão a gerar seu próprio trabalho ao atingirem a idade produtiva. MAS…é mais fácil destruir um átomo que