Recentemente depois de trabalhar questões relacionadas aos níveis e tipos de planejamento dentro de organizações e empresas, uma aluna, após participar de uma palestra com um CEO de uma empresa do ramo financeiro, me perguntou: 'Professor os planos táticos são de curto prazo? Na palestra com o fulano experiente de uma grande empresa financeira, foi dito que os planos táticos são de curto prazo, então como me explica isso?' Logo depois da questão me veio à cabeça as diferentes práticas realizadas por diferentes empresas em diferentes contextos, então logo estava pensando sobre a abordagem contingencial e o célebre princípio 'Cada caso é um caso'. Como professor e pesquisador que sou, fui primeiramente buscar algumas referências na literatura e verificar se meus conhecimentos estavam corretos, mas antes de mergulhar definitivamente nesta questão, vou explicar minha visão sobre os tipos de planejamento. Partimos do nível institucional, se pensarmos a organização ou empresa como uma pirâmide (tá ultrapassado, eu sei, mas é mais fácil de entender assim) basta olhar lá pra cima, no pico. É lá que encontramos o nível institucional, que na verdade compreende o todo organizacional. Este cume normalmente é ocupado pelo conselho administrativo, CEO, presidente, as vezes diretores ou qualquer outro nome pomposo que a organização quiser usar. Neste ponto mais alto da hierarquia é onde são tomadas as decisões estratégicas, que devem ser difundidas para o todo organizacional, são decisões que envolvem o futuro da organização, seus objetivos de longo prazo. Aqueles pontos que podem, na concepção dos gestores, levar a organização a cumprir sua missão e realizar sua visão de negócio. (missão e visão serão tratados em outro post futuro). Então, concluímos que no nível institucional temos o plano estratégico. Logo abaixo desse nível, temos provavelmente o nível mais complexo da organização, pensando na nossa pirâmide (ultrapassada, mas funcional) corresponde ao pessoal que fica no meio dela, os gerentes de nível médio, supervisores, encarregados, chefes de seção ou algo semelhante. São aqueles profissionais encarregados ou responsável pela realização do trabalho dos outros. Nos modelos tradicionais e mais encontrados nas organizações, também chamados de gerência funcional, ou seja, o responsável pelo RH, Produção, Finanças, Marketing etc. Neste nível acontecem os planos táticos, envolvem uma área da empresa ou algumas áreas conjuntas, mas não a organização como um todo (isso acontece no nível institucional). Esses planos devem estar alinhados ao plano estratégico, que foi definido no nível institucional. Assim, cada um dos responsáveis pelas respectivas áreas organizacionais junto de suas equipes, deve pensar em como sua área pode auxiliar no alcance dos objetivos organizacionais, na concretização dos planos estratégicos. Pelo seu caráter intermediário e de ligação que digo que este talvez seja o nível mais complexo, já que liga o nível institucional, portanto o plano estratégico, ao nível operacional, ou seja os planos operacionais. Estes planos ocorrem na base da nossa já conhecida pirâmide. O nível operacional é o nível responsável pela realização das atividades organizacionais, seus processos, suas tarefas. Se no nível tático são elaboradores e desenhados os processos, neste nível ocorrem as operações. É neste nível que as atividades produtivas da empresa acontecem: o atendimento ao cliente, compras de materiais dos fornecedores, conferência de notas fiscais e entrega de produtos ou serviços, resumidamente podemos dizer que aquilo que era conceitual no nível institucional, torna-se um pouco mais concreto no nível tático e finalmente é concretizado no nível operacional, tornando-se empírico, real. O plano operacional, normalmente se materializa sob a forma de um conjunto de atividades, prazos, responsáveis etc, que podem ser elaborados com a ajuda da técnica conhecida como 5W2H (que será tratada em outro post). Novamente para garantir o alinhamento estratégico é importante que os planos operacionais sejam derivados dos planos táticos, que por sua vez seguiram o planejamento estratégico. Tendo comentado brevemente sobre cada um dos três tipos de planejamento, cabe lhe oferecer um exemplo para deixar tudo mais claro. Pense numa organização ou empresa qualquer, pode ser lá onde você trabalha ou trabalhou, imagine que um dos objetivos organizacionais estabelecidos para os próximos 5 anos (alinhados a visão da empresa) é expandir o alcance de seus produtos ou serviços para o mercado internacional. Sendo assim, os planos estratégicos devem: • envolver esforços de toda ou grande parte da organização ou empresa;• incorrer em riscos, já que lidam com variáveis externas incontroláveis e geralmente imprevisíveis;• mobilizar grande parte dos recursos disponíveis e até aqueles que não estão disponíveis no momento, mas deverão ser captados;• se comprometer com o futuro da organização. Desta forma, após a definição de um plano estratégico, a empresa que pretende expandir o alcance de seus produtos ou serviços no mercado internacional deve elaborar planos táticos no seu nível funcional. Estes planos serão elaboradores pelas diversas áreas que compõe a organização ou empresa, algumas vezes podem ser realizados planos táticos conjuntos entre mais de uma área. Por exemplo, a área de Produção determina que para atender requisitos de entrada em mercados internacionais deverá criar um plano de adequação de seus produtos à algumas normas internacionais, permitindo assim, a entrada em certos mercados. Desta forma, os planos táticos começam a tomar forma e em certo momento o pessoal da produção entende que não tem disponível na empresa profissionais capacitados para a tarefa de adequar seus produtos às normas. Assim recorre a área de Recursos Humanos, que compreende que deverá planejar a contratação de novos profissionais ou capacitar aqueles disponíveis para o cumprimento de uma demanda tática da produção. Começa então, a se desenhar um plano tático conjunto entre as áreas de Produção e Recursos Humanos. Os planos táticos devem: • ser derivados do plano estratégico, garantido assim o alinhamento de suas ações;• envolver partes da organização e não a organização como um todo;• lidar com recursos departamentais, limitados, portanto sua abrangência é menor tanto em relação ao envolvimento organizacional quanto ao volume de recursos mobilizados;• tratar de riscos igualmente limitados;• funcionar como elos de ligação entre a estratégica e a operação;• ser realizados em médio prazo, já que não podem levar tanto tempo quanto o próprio plano estratégico e tão pouco podem ser realizados em prazos muito curtos, já que envolvem ainda partes consideráveis da organização. Finalmente chegamos a base da pirâmide onde os planos operacionais são elaborados e realizados. Pensando em nosso exemplo de plano tático desenvolvido pela área de Produção para adequar seus produtos as normas internacionais, temos um conjunto de tarefas a serem realizadas para a consecução de tal objetivo. Sendo assim, no nível operacional são definidas as tarefas a serem realizadas, tais como capacitar o pessoal disponível ou buscar externamente profissionais já capacitados, dependendo da decisão tática tomada anteriormente. Caso a decisão seja de capacitar os profissionais, a área de Produção deve elaborar um conjunto de requisitos de capacitação a serem encaminhados a área de Recursos Humanos, então um plano operacional pode envolver a tarefa de elencar esse conjunto de requisitos, respondendo a questões do tipo, porque esta lista deve ser feita? Quem será responsável por fazer essa tarefa? Quando será feita? Quais recursos são necessários? Como será feira? Percebemos aqui que este plano operacional transforma aquilo que era conceitual no nível institucional, em concreto no nível operacional. Sendo assim, os planos operacionais são: • derivados dos planos táticos;• de menor risco, já que cada um dos planos envolve uma tarefa um ou conjunto limitado de ações pontuais;• normalmente fáceis de serem monitorados e avaliados em termos de processo e resultado, eficiência e eficácia;• detalhados, já que descrevem cada tarefa a ser realizada;• menos abrangentes, já que envolvem as menores ações dentro da empresa, suas atividades operacionais;• de curto prazo, já que cada tarefa deve ser realizada num prazo menor que o próprio plano tático que a originou, muitas tarefas podem, inclusive, serem realizadas no prazo de um ou poucos dias. Depois dessa apresentação dos tipos de planejamento, voltamos a pergunta inicial que deu origem a este texto, resumidamente: 'O plano tático é de curto prazo?'. Vou usar algumas referências para ilustrar o que dizem por aí a respeito: 'Avançando um pouco, o próximo passo é a criação do Planejamento Tático. Estes são planos com foco no médio prazo e com um pouco menos de detalhes que o Planejamento Estratégico, mais ainda se mantendo enxutos e com certa visão holística.' Gilles B. de Paula para a Treasy – Planejamento e Controladoria. 'O planejamento tático é o planejamento focado no médio prazo e que enfatiza as atividades correntes das várias unidades ou departamentos da organização.' José Sérgio Marcondes para o blog Gestão da Segurança Privada. 'O meio da pirâmide organizacional, o planejamento tático, é justamente o responsável por tornar todas as definições do estratégico uma realidade dentro do dia a dia da empresa. Em geral ele diz respeito a mudanças e implementações de médio prazo. Sua atuação está principalmente voltada a as áreas funcionais do negócio.' Portal Egestor Pelas citações acima podemos constatar que há um consenso a respeito do planejamento tático se relacionar com médio prazo, de fato estas afirmações são reflexo do que está registrado na literatura acadêmica da área. Assim, compreendemos que os planos são classificados também conforme seus prazos de realização, sendo o planejamento estratégico de longo prazo, o planejamento tático de médio prazo e o planejamento operacional de curto prazo. Claro que questões contingenciais podem acarretar alterações nesse quadro, não sendo de forma alguma impossível conceber um plano tático que precisa ser realizado em longo prazo ou em curto, um plano operacional de médio prazo ou até mesmo um plano estratégico a ser cumprido em médio prazo. Décadas atrás o longo prazo poderia ser considerado 10 anos, hoje a maior parte das empresas o trata como 5 anos, tudo isso é muito relativo e na administração vale a máxima 'Cada caso é um caso'. Seja como for, a importância da realização de planos é incontestável e se você quiserchamar de tático algo realizado em curto prazo, vá em frente, desde que consiga ultrapassar a barreira do conceitual para o empírico. Planeje sim, mas sobretudo realize.