Desde que comecei a construir a carreira em outros países, percebo que algumas pessoas me procuram para entender como fazer isso. Enfim, resolvi escrever algumas reflexões sobre esse tema de desenvolver a carreira no exterior, pois vejo que cada vez mais desperta interesse e perguntas por muitos aqui. Antes de tudo, preciso deixar bem claro que não adianta eu falar para vocês sobre o meu processo especificamente, pois cada pessoa tem realidades e oportunidades diferentes. E mais, temos que considerar ainda o atual contexto de pandemia e restrições de deslocamento – o que pode, por outro lado, ser uma chance de buscar trabalho remoto para uma empresa do exterior, não é mesmo? De toda forma, a ideia desse texto é mostrar algumas ações fundamentais para ser possível trabalhar em outro país e, assim, que você possa adaptá-las ao seu contexto. E a primeira pergunta que devemos fazer, como sempre, é o que buscam as empresas estrangeiras que contratam brasileiros? As empresas no exterior buscam algo diferente? Na verdade, o que as empresas no exterior estão buscando não é, necessariamente, muito diferente do que já precisamos cumprir para ter sucesso profissional no Brasil. Isto é, precisamos ter conhecimento, ser bons técnica e emocionalmente e, claro, ter atitude. “Hard” e “soft skills” são exigências em todo e qualquer lugar do mundo; a diferença está na forma como você entende essas necessidades e se posiciona para e no mercado internacional. Não existe receita única nem mapa do tesouro. O que existem são muitas oportunidades em diversos setores em cada país. O primeiro passo é entender bem os cenários e filtrar um pouco o que pode fazer sentido para você. Independentemente da área de atuação, o profissional interessado em trabalhar no exterior precisa dedicar tempo para se preparar e encontrar oportunidades mundo afora. Quais países oferecem mais oportunidades para a sua área de atuação atual ou para a área que vai buscar? Como são as exigências de visto de trabalho? Qual é o idioma exigido e em qual nível? Que tipo de empresas geralmente estão abertas para contratação? Qual é o tipo de cultura (não apenas a empresarial) que você gostaria de vivenciar? Além de buscas por informações pela internet, uma ação que acho muito válida é procurar pelas redes sociais os profissionais que fizeram, de fato, esse movimento de mudança. Abordá-los de forma amigável para tentar bater um papo, entender melhor os desafios, as oportunidades e as características. Falar com diferentes pessoas que estão realmente vivenciando essas tais oportunidades é algo que ajuda muito a clarear as ideias e trazer diferentes perspectivas. Essas são apenas algumas entre tantas perguntas que você precisa fazer nessa busca. Avançando um pouco, é importante trazer ela para sua realidade. Qual é o meu diferencial que se conecta com algumas das necessidades desses mercados? Necessito me preparar em alguma ferramenta ou conhecimento específico? Tenho algum conhecido que pode me ajudar no processo? Alguma ajuda profissional? Como posso personalizar cada uma das minhas candidaturas? É fundamental criar um planejamento em que é preciso considerar tempo, investimento e ações necessárias para essa mudança. Além disso, uma das primeiras exigências certamente será o idioma, então, o quanto antes, corra atrás de aplicativos de línguas, aulas, cursos e tudo mais que ajude nessa imersão. Sem humildade, vai ser difícil trabalhar fora Esse processo de migração envolve um trabalho forte de resgate da humildade. Muitos profissionais estrangeiros muitas vezes precisam recomeçar a carreira quando resolvem migrar. A começar pelo ciclo. Logo nas primeiras experiências que tive no exterior, eu percebi como era diferente para os meus colegas “nativos” a relação com o tal networking. Quando a gente vai crescendo em uma cidade ou mesmo país, costuma ficar rodeado de pessoas e rede de contatos. Ainda que o indivíduo não seja o melhor em construir networking, de alguma forma, ele se relaciona e cria algum tipo de núcleo de conhecidos. Se você pensa em construir uma carreira fora do Brasil, precisa ter a humildade de saber que não vai conhecer as pessoas, nem mesmo elas vão te conhecer.Você vai precisar buscar contatos que normalmente conheceria em seu país, mas que agora não conhecerá. E, do outro lado, quando as pessoas falarem com você, elas não terão a referência que você tinha em seu país. Você precisa estar disposto a começar de novo um processo de construção de relacionamentos profissionais e, por que não, pessoais. Aprenda a “gostar” de gente diferente Com humildade em mãos, é hora de saber como criar oportunidades para se relacionar com as pessoas. Mas, para isso, tem de gostar mesmo de gente! Estou dizendo isso no sentido de dedicar tempo e conseguir entender as pessoas de uma cultura diferente, e estar verdadeiramente disposto a integrar um novo ambiente. Pelo menos para conviver bem… Qual é o sentido de morar fora para ficar fechado no seu próprio mundo, sem vivenciar trocas com outras pessoas, outras experiências? Ser imigrante pode ser doloroso e solitário, principalmente durante o processo de adaptação, mas fica ainda mais difícil quando não nos abrimos para aquela gente que compõe o nosso novo ambiente e, principalmente, entendemos que a cultura é outra, a forma de tratar, pensar, relacionar, pode ser diferente de seu país. Diferente. Não quer dizer melhor ou pior. Esse é um ponto importante. O melhor mesmo é entender que são culturas diferentes e procurar adaptação, entender a nova cultura, as coisas que te agradam nessa cultura, sem procurar ficar comparando e sofrendo com cada coisa que não é igual ou familiar. Empreendedorismo pessoal ajuda a encarar o desconhecido Uma forma interessante de pensar em uma mudança como essa é a de empreendedorismo pessoal. Independente das mudanças de carreira, para dar certo em outro país é importantíssimo que, no lado pessoal, esteja disposto a “empreender”, correr riscos, lançar-se ao desconhecido, não saber todas as respostas, resolver problemas, um de cada vez. Afinal, não é isso que faz um empreendedor? Não podemos ter medo de ter muitas dúvidas e perguntas e poucas respostas. Vejo o empreendedorismo “pessoal” como a atitude de curiosos corajosos pela vida, que têm um desejo e correm atrás até dar certo, e não “para ver se dá certo”. Com isso, é fundamental ter a competência forte de REAPRENDER, pois muito daquilo que podemos achar que sabíamos nem sempre funciona igual em outro país. É importante logo mostrar a que veio Num ambiente diferente do seu, o profissional precisa ser resolutivo, pois, como será novidade, sua capacidade de resolver, focar e entregar é fundamental para conquistar respeito pelos resultados. A carreira no exterior (ou em qualquer lugar, para falar a verdade) não funciona na base das palavras vazias ou a imagem que alguém deseja transmitir. Nunca podemos nos esquecer que, no exterior, começamos como “ilustres desconhecidos”, então, a essência, o real, o palpável são pilares para essa construção. Assim, a primeira impressão conta, e passar uma primeira impressão de alguém capaz de entregar tarefas, atividades etc., independentemente da área, é um ponto positivo. Em muitas situações, é comum pessoas que já ocupavam cargos de nível sênior ou mesmo de gestão darem um passo atrás ou para o lado, e abraçar oportunidades em outros países menos seniores ou até em outras áreas totalmente distintas. É um recomeço, uma atitude para alcançar um plano que é só seu.É por isso que falei de planejamento logo no início, justamente porque o começo da vida no exterior pode significar mudanças importantes que você tem de estar confortável. Porém, se estiver dentro de um plano, o “passo atrás ou ao lado” fará sentido e ajudará muito a manter o foco no objetivo. Boa vontade e coração aberto, sempre Quem quer encontrar o seu lugar no mundo precisa ir de coração aberto. Vão acontecer situações boas e ruins, inevitavelmente. Não se pode ir preso às coisas que gostava no país de origem. E pode levar tempo para se desprender disso, mas não pode faltar esforço. De coração aberto, aprendemos, de fato, sobre a nova cultura e a olhar de fora da caixa. Muitas vezes, isso nos faz valorizar mais as coisas boas de nosso país, por outra ótica menos crítica, menos comparativa. E mais importante, nos prendermos menos a problemas que antes nos pareciam intransponíveis, mas com a visão de quão grande é o mundo e quão diversas podem ser as pessoas e soluções para tudo. Os problemas de antes passam a nos atormentar menos, pela nova ótica – outro bônus é que aprendemos a lidar melhor com a diversidade, e incorporamos isso sem perceber. É preciso ter abertura para conhecer costumes novos, hábitos novos e enxergar isso como oportunidade. Se as comparações com a terra natal forem constantes e a imersão na nova casa não for verdadeira, a vida vira um mar de lamentações, sem tempo para aproveitar o que é bom e te fará feliz na nova realidade. (Imagem: iStockPhoto)