Aumento de exigências regulatórias eleva o volume de checagens sobre fornecedores e parceiros; especialista aponta que tecnologia vai definir quem consegue acompanhar o ritmo Times de compliance dedicam, em média, 37,4 horas por semana só para avaliar a regularidade de fornecedores, segundo levantamento da Whistic. O número ajuda a explicar a sensação de trabalhar o tempo todo reunindo documentos e nunca ter tempo para analisar o que realmente importa. Parte da explicação está no volume de exigências que essas equipes precisam acompanhar hoje. Mudanças como a reforma tributária, regulamentações setoriais e critérios de ESG têm ampliado o volume de informações que precisam ser verificadas e monitoradas. Para quem ainda depende de processos manuais, cada nova exigência se traduz em mais consultas, mais documentos e mais horas de trabalho. “A tendência é a pressão regulatória continuar aumentando e impactando o volume e a profundidade do trabalho. Confirmar que uma empresa possui CNPJ ativo é apenas o ponto de partida. Conforme o risco da relação, pode ser necessário analisar estrutura societária, situação fiscal, histórico judicial, exposição reputacional, sanções, vínculos com pessoas politicamente expostas e outros indicadores relevantes para a política da organização”, afirma Dielson Haffner, sócio e head da Netrin, empresa especializada em gestão de riscos de terceiros. Segundo ele, sem apoio da tecnologia, esse cenário tende a piorar a sobrecarga das equipes e comprometer a qualidade nas análises, já que times pressionados por prazo acabam priorizando velocidade em vez de profundidade. 'O modelo mais eficiente é híbrido, com a tecnologia para consultar, consolidar, monitorar e apontar exceções e os especialistas para interpretar evidências, contextualizar riscos e tomar decisões. Com profissionais qualificados, a tecnologia deve direcionar o trabalho humano para as exceções em vez de tratar todos os terceiros da mesma forma', orienta. Os dados reforçam esse cenário. Segundo levantamento da Whistic, 88% das organizações precisam examinar documentação manualmente em busca de evidências específicas. Apesar desse esforço, elas pretendem avaliar, em média, 255 terceiros por ano — uma demanda que, diante do volume e da complexidade das análises, se torna difícil de atender. Como consequência, dados da Veridion mostram que 66% das empresas relatam sobrecarga das equipes responsáveis pelas checagens manuais. “Quando o time gasta a maior parte do tempo reunindo informação, sobra pouco tempo e energia para analisar o que realmente importa, aumentando o risco de deixar passar algo relevante”, diz Haffner. Para o executivo, o cenário regulatório não deve ficar mais simples. Pelo contrário, a tendência é de que haja cada vez mais normas e mais fiscalização, ampliando a necessidade de monitorar, de forma contínua, cada relação com cliente, fornecedor ou parceiro, ao mesmo tempo em que cresce a cobrança por respostas rápidas. O papel da tecnologia De acordo com Haffner, boa parte da sobrecarga vem de uma etapa que costuma passar despercebida: a coleta de documentos em si. “Muita empresa ainda depende de certidão, contrato e outros documentos chegando por e-mail, WhatsApp ou canal solto, sem centralização. Isso atrasa o processo, dificulta acompanhar as pendências e aumenta o risco de usar informações que não refletem mais a realidade”, explica. À medida que as exigências regulatórias aumentam, a automação tende a se tornar parte da estrutura do compliance. “A automação elimina o esforço operacional anterior à análise, mas não a substitui. É preciso ter muito cuidado nessa etapa para garantir que haja rastreabilidade da informação, atualização dos dados, evidências que sustentam o alerta e fazer a revisão humana em casos críticos. Sem isso, a tecnologia pode apenas acelerar uma decisão ruim”, diz Haffner.