Para mulheres no início da carreira, o retorno financeiro do diploma pode ser muito menor do que se imaginava Durante décadas, a promessa foi simples e repetida à exaustão: faça uma faculdade e sua vida financeira estará resolvida. Mas novos dados sobre salários de recém-formados colocam essa narrativa sob tensão, especialmente quando o recorte é de gênero. Para mulheres no início da carreira, o retorno financeiro do diploma pode ser muito menor do que se imaginava. Uma análise recente divulgada pelo site científico Phys.org, com base em dados de mais de 2 mil trabalhadores millennials no Reino Unido, mostra que mulheres com diploma universitário ganham, em média, apenas cerca de 5 por cento a mais do que mulheres sem ensino superior quando se considera o número de horas efetivamente trabalhadas. O resultado desafia a ideia de que o diploma garante, por si só, uma vantagem salarial relevante nos primeiros anos da carreira. À primeira vista, os números parecem mais animadores. Aos 26 anos, mulheres graduadas chegam a ganhar quase 27 por cento a mais do que aquelas sem diploma. No entanto, quando os pesquisadores ajustaram os dados para fatores de contexto que distorcem a comparação, como origem socioeconômica e tipo de ocupação, esse diferencial caiu para cerca de 13 por cento. O ajuste mais revelador veio ao incluir a carga horária: nesse cenário, o ganho real associado ao diploma despencou para apenas 4,8 por cento. O motivo é direto. Mulheres com diploma trabalham, em média, 2,3 horas a mais por semana do que mulheres sem diploma. Em outras palavras, parte significativa da diferença salarial não vem de salários mais altos, mas de jornadas mais longas. No cálculo por hora, o diploma quase não altera a equação. Esse comportamento não surge no vácuo. Profissionais no início da carreira costumam sentir maior pressão para provar valor, agradar gestores e se proteger em um mercado de trabalho instável, cada vez mais atravessado por automação e inteligência artificial. Para mulheres, essa pressão se soma a vieses persistentes no ambiente corporativo, o que frequentemente leva à normalização de jornadas estendidas como estratégia de sobrevivência profissional. O estudo dialoga com outro levantamento publicado em meados de 2025, que aponta que mulheres realizam mais trabalho invisível nas organizações. São tarefas essenciais para o funcionamento das equipes, como apoio emocional a colegas, mediação de conflitos e sustentação da cultura interna. Apesar de críticas para o clima organizacional, essas atividades raramente são reconhecidas, medidas ou recompensadas, o que limita seu impacto positivo sobre salários e progressão de carreira. Ver todos os stories Isto é um teste 6 hábitos que sabotam seu crescimento O nordestino que ousou fazer o impossível O que está em jogo com a 'PEC da Blindagem' Uma verdade sobre suas assinaturas de streaming que você não vê Os próprios autores do estudo fazem ressalvas importantes. No longo prazo, outras pesquisas indicam que o ensino superior ainda amplia o potencial de renda ao longo da vida, especialmente à medida que a carreira avança. Além disso, os dados analisados referem-se ao Reino Unido. Ainda assim, a extrapolação para outros países, como os Estados Unidos, não exige grande esforço, sobretudo considerando que o Reino Unido possui proteções legais de igualdade salarial mais robustas do que o mercado americano. Para líderes empresariais, o alerta é claro. Dados já mostram que mais mulheres estão deixando o mercado de trabalho e que o avanço na equiparação salarial estagnou ou regrediu. Ignorar essas distorções não é apenas uma falha ética, mas um risco reputacional concreto, especialmente diante de gerações mais jovens que valorizam transparência, justiça salarial e saúde mental. Auditorias simples de remuneração, políticas claras de carga horária e mensagens explícitas de que horas extras não são expectativa implícita podem ser passos decisivos. O diploma ainda importa, mas os dados mostram que, para mulheres, ele não deveria continuar vindo acompanhado de um custo invisível tão alto.