Publicidade é investimento e deve ser tratada como tal

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Investimentos publicitários merecem o mesmo rigor utilizado na destinação de outros orçamentos relevantes
Por Pedro Silva*
A manhã da primeira segunda-feira do mês começa movimentada para o gestor financeiro de uma empresa de médio porte. Entre suas prioridades está o fechamento das despesas do mês anterior. Ao abrir seu dashboard, ele tem uma visão clara das despesas com insumos de produção, folha de pagamento e manutenção da infraestrutura, bem como dos prestadores de serviços e softwares assinados, entre outros pontos. Porém, quando chega a linha do investimento em publicidade vem a sua mente a pergunta mais básica: será que recebemos o que pagamos? Nesse cenário mais comum do que se imagina, esse pensamento frequentemente fica sem resposta. Não por falta de interesse, mas de ferramenta.
Quando uma empresa adquire insumos, a entrega física vem acompanhada da nota fiscal. Ao contratar consultorias, relatórios documentam o serviço prestado.
No entanto, ao investir em compra de mídia para campanhas publicitárias, usualmente, chega de volta uma captura de tela ou um relatório produzido pelo próprio fornecedor e, em muitos casos, a palavra de quem vendeu o espaço. Nenhum controller aceitaria essa prática para qualquer outra despesa, embora essa concessão seja usual em relação à área de marketing que, diversas vezes, responde por despesas de grande magnitude dentro das empresas.
Essa assimetria de informação é um problema estrutural e tem custos. Dados levantados ao longo do tempo pelo Instituto Verificador de Comunicação (IVC), entidade de auditoria de mídia do mercado publicitário, mostram que 14% das campanhas auditadas entregam menos do que o contratado. Não é incomum essa diferença representar parcela relevante dos investimentos de anunciantes. Para o diretor financeiro, isso equivale a pagar uma fatura que não corresponde ao serviço prestado.
Diferenças de entrega na veiculação publicitária acontecem com frequência e por razões nem sempre relacionadas à má fé. Há eventuais falhas técnicas em telas de out-of-home (OOH) e plataformas de streaming podem sofrer com oscilações de tráfego. Já websites passam por manutenções não programadas. Qualquer mídia está sujeita a eventos adversos.
Contudo, não há necessidade de se submeter a esse cenário com os “olhos vendados”. Boas práticas na aplicação dos investimentos publicitários demandam a verificação independente da entrega de mídia. Nesse sentido, a auditoria de campanha responde uma pergunta simples: das exibições ou impressões contratadas, quantas foram efetivamente realizadas?
A auditagem envolve coleta automatizada de dados de ferramentas de analytics. São as mesmas métricas usadas internamente por plataformas digitais e exibidoras de mídia, mas verificadas por um terceiro independente para que o resultado represente bem a realidade.
No caso de meios digitais, a aferição confirma se as visualizações são de usuários reais e não de robôs. Em relação ao OOH, por exemplo, a auditoria mostra se cada tela exibiu o anúncio nos horários e nas quantidades contratadas.
O relatório com os resultados pertence à empresa anunciante e não ao veículo de comunicação. O conceito é o mesmo do mercado financeiro, ou seja, quando uma empresa de capital aberto elabora seu balanço a certificação vem de uma empresa de auditoria independente.
A primeira reação de quem toma conhecimento de discrepâncias é pensar em como recuperar o volume de exibições não entregue. Entretanto, é importante voltar alguns passos nessa trilha e o foco deve estar na prevenção.
Isso porque o problema começa antes da campanha, ao não definir o que fazer quando houver não conformidade. Aí, o que deveria gerar uma simples conversa administrativa, vira negociação ou, até mesmo, impasse jurídico.
A auditoria da campanha apara eventuais arestas antes de elas surgirem. Quando o relatório de auditagem é incorporado ao contrato como referência para apuração da entrega, as condições de compensação ficam definidas de antemão, com todas as partes reconhecendo o órgão auditor como responsável pela validação final dos resultados.
Desta forma, é essencial o acordo prever também contrapartidas para casos de discrepâncias. Por exemplo, se a campanha entregou 92% do contratado, qual é a resolução? Desconto proporcional na fatura, bonificação em campanhas futuras ou crédito para a próxima compra? Seja qual for o caminho, precisa estar no contrato.
Os benefícios de conduzir esse fluxo seguindo as melhores práticas são cristalinos. De quebra, há outra vantagem fundamental a partir da auditoria de campanha. O procedimento fornece dados quase em tempo real, constituindo o melhor cenário para avaliar a performance durante e imediatamente após a verificação, permitindo ajustes ou medidas corretivas no melhor timing possível.
O custo da auditoria de campanha é módico em relação aos valores direcionados à compra de mídia. Consequentemente, não exige aumento do orçamento destinado à publicidade. Assim, adotar o procedimento é uma mudança de governança, que vai ao encontro do compliance.
A pergunta que fica para CFOs e controllers é direta. Se 14% das campanhas entregam menos em relação ao contratado e não há processos independentes de verificação, como garantir que sua empresa não está nesse grupo?
A auditoria de campanha não é uma ferramenta de marketing e sim de controle financeiro, aplicada ao investimento em comunicação. Sua lógica é a mesma de qualquer outra vertente de boa gestão, englobando mensuração, verificação e criação de condições para corrigir problemas antes que eles se acumulem.
Investimentos publicitários merecem o mesmo rigor utilizado na destinação de outros orçamentos relevantes. Tecnologias e processos para colocar a informação nas mãos de quem tem interesse na precisão dela existem e são acessíveis. O que falta, na maioria dos casos, é a decisão de exigir.
*Pedro Silva é presidente-executivo do Instituto Verificador de Comunicação (IVC)











