Decisão mais estratégica não é sobre IA. É sobre quem decide

Foto: Divulgação/Annalisa Blando
Annalisa Blando, conselheira de administração e VP da Acate, revela como pessoas e dados bem governados superam qualquer tecnologia isolada
Annalisa Blando é conselheira de administração e consultiva, entre as quais do Grupo Librepar — fusão entre Librelato e Ibero, gigantes do setor de implementos rodoviários. Vice-presidente de Finanças da ACATE (Associação Catarinense de Tecnologia, com mais de 2.000 empresas associadas e 40 anos de história), ela também é certificada CCA+ pelo IBGC, CFP (Certified Financial Planner) e foi fundadora e CEO da ParMais Gestão Patrimonial. Italiana de nascimento e catarinense de adoção, sua trajetória une o rigor financeiro com uma visão aguda sobre pessoas e tecnologia — exatamente o cruzamento onde as decisões mais críticas das empresas acontecem hoje. Para o C-Level que precisa navegar entre transformação digital e sustentação de margens, suas respostas carregam o peso de quem aconselhou e executou nos dois lados da mesa.
1. Composição de Time: O Conjunto Que Decide Melhor Não É o Mais Forte Individualmente
Pergunta: Como você garante que está montando um time que se complementa em vez de competir entre si?
Insight de Annalisa: “Entender as pessoas como elas são, tirar o melhor delas. Times com diferentes visões. O CEO precisa conhecer bem o seu time e compor bem essa engrenagem. O perfil comportamental das pessoas precisa permitir que cada um possa cobrir as deficiências dos outros — não só na hard skill, mas as soft skill — e potencializar o que elas têm de melhor.”
A genialidade desse insight está na palavra engrenagem. Uma engrenagem não é feita de peças idênticas — é feita de peças com formatos complementares que se encaixam. Quando o CEO entende o perfil comportamental de cada membro do seu time, ele para de contratar clones de si mesmo e passa a montar um conjunto onde as fraquezas de um são cobertas pelas forças de outro. Na prática, isso significa que decisões estratégicas não dependem de uma única visão — elas são filtradas por múltiplas perspectivas que se desafiam mutuamente. O risco que se evita aqui é caro: times homogêneos tomam decisões homogêneas, e decisões homogêneas são letais em mercados em transformação.
2. Governança de Dados: A Margem Que Salva Sua Empresa Está Escondida na Informação
Pergunta: Se sua concorrência já usa IA para reduzir custos e você ainda organiza planilhas, quanto tempo você acha que tem?
Insight de Annalisa: “A empresa que não olha para a organização dos seus dados e nem está usando IA está errando feio. A digitalização das empresas é fundamental. Usar a IA com inteligência para melhorar processo, para diminuir tempo. Ter a ótima governança dos dados. Ainda mais na indústria que trabalha com margens pequenas, os ganhos podem estar nos dados e na IA.”
O ponto central aqui é a ordem das coisas: dados antes de IA. Empresas correm para implementar inteligência artificial sem ter suas casas em ordem — dados dispersos, sem padronização, sem governança. Em setores industriais onde a margem é estreita, cada décimo de ponto percentual de eficiência conta. A Annalisa está falando de uma equação direta: dados bem governados alimentam IA bem aplicada, que comprime tempo e custo em processos. Quem ignora essa cadeia não está apenas perdendo eficiência — está transferindo margem para a concorrência. A decisão de investir em governança de dados não é mais uma escolha de TI. É uma decisão de rentabilidade.
3. Cliente no Centro: A Lição Que Transformou um Negócio Quando Tudo Mais Falhou
Pergunta: Você realmente conhece o que seu cliente quer ou apenas acha que conhece?
Insight de Annalisa: “Eu mudei o meu negócio e ele prosperou quando foquei no cliente. Eu sempre olhei mesmo para o o que o cliente queria. Muitos acham que sabem olhar o cliente e colocar ele no centro, mas poucos de fato sabem. Vejo que as mulheres têm uma ótima vantagem, porque têm mais humildade — então tendem a estar mais prontas para aprender, escutam e entendem melhor o cliente.”
A humildade que a Annalisa menciona é um ativo estratégico subestimado. Escutar o cliente não é enviar uma pesquisa NPS trimestral — é estar disposto a descobrir que aquilo que você vende não é o que o mercado quer comprar. A mudança que prosperou o negócio dela veio de uma disposição que a maioria dos C-Levels perde à medida que sobe na hierarquia: a capacidade de admitir que estava errado sobre o cliente. A observação sobre mulheres na liderança não é um argumento de diversidade retórico — é uma constatação prática de que humildade epistêmica (saber que você não sabe tudo) gera decisões melhores porque gera escuta melhor. Em mercados saturados de produtos parecidos, quem escuta melhor, vence.
A Revolução Silenciosa Que Está Mudando o Jogo
Há uma diferença crítica entre empresas que usam tecnologia e empresas que são tecnologia. A maioria das corporações brasileiras está na primeira categoria: instalaram um chatbot, contrataram um cientista de dados, compraram uma ferramenta de IA — mas a alma da decisão continua sendo o achismo.
Microsoft, Amazon e John Deere operam na segunda categoria. A Microsoft de Satya Nadella instituiu uma cultura de “data-first” em cada nível — decisões de produto não saem sem dados que as sustentem. A Amazon transformou obsessão pelo cliente em algoritmo — cada decisão de preço, estoque e logística passa por modelos preditivos. A John Deere, uma empresa industrial de 180 anos, tornou-se uma empresa de dados que fabrica tratores — sensores nos equipamentos geram insights agrícolas que vêm se transformando em um negócio maior que o próprio hardware. A Walmart, com margens finíssimas no varejo, usa IA para otimizar cadeia de suprimentos e precificação dinâmica — exatamente o cenário que Annalisa descreve ao falar de indústrias com margens pequenas.
O que separa essas empresas das demais não é orçamento. É metodologia. Elas usam frameworks estruturados — OKRs para alinhamento estratégico, rituais de revisão de dados, comitês de inovação com mandato real — para criar o que Annalisa chama de “o ritmo da estratégia”. O planejamento estratégico não é um documento que fica na gaveta; é um guia vivo que se olha, se revisa e se ajusta com disciplina.
O alerta é direto: a maioria das empresas está comprando ferramentas sem construir a fundação. Implementar IA sem governança de dados é como construir o segundo andar sem o primeiro. E montar times sem entender perfis comportamentais é como montar um time de futebol onde todos são goleiros. A tecnologia amplifica o que existe — se a fundação está rachada, a IA vai acelerar o colapso.
A Pergunta Que Vai Tirar Seu Sono
Seu time foi montado por intuição ou por método — e você sabe responder qual perfil falta?









