O maior erro do empreendedor brasileiro em Portugal é falar português

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A língua é a mesma. A gramática do negócio, não.
Todo mundo tem uma tese sobre Portugal. O visto que facilita, o custo que compensa, o ecossistema que produziu unicórnios que um país do tamanho de Pernambuco não deveria ter, o primo que foi e garante que é uma maravilha. Eu moro em Coimbra. Confirmo: é uma maravilha.
Mas uma pergunta crucial nunca aparece nesses papos de embarque — e deveria abrir todos: por que tanta startup brasileira desembarca aqui, abre empresa, contrata contador e, anos depois, ainda não vendeu para um único cliente europeu nem acessou um euro de financiamento?
A resposta incômoda é a língua. Justamente ela.
O conforto que impede o aprendizado
Quem se muda para Berlim sabe que não entende nada. Contrata consultor, estuda a regulação, decora que “fatura” na Alemanha não é sugestão de pagamento, é lei. O medo educa.
Quem se muda para Lisboa dispensa tudo isso. Afinal, entende o cardápio e o contrato — a piada não, a piada continua difícil. E então acontece o fenômeno que já vi de perto mais vezes do que gostaria: o brasileiro se sente em casa, bota o pé na mesinha de centro, diz que o café brasileiro é mais gostoso… e nunca mais é convidado de volta. A fluência antecipa o pertencimento e adia o aprendizado. Às vezes, indefinidamente.
Cometi essa modalidade de erro pela primeira vez em 1995. Fundei uma associação de artistas, A Guilda, que produzia exposições e alavancava as vendas dos associados. Morreu na praia. Demorei para admitir o motivo: eu olhava para aquilo com olhos de artista, e o negócio pedia olhos de empreendedor. Modelo mental errado, esforço certo, resultado nenhum. Trinta anos depois, assisto ao mesmo erro ser repetido em escala continental, agora com custo de passagem aérea, frete de mudança e eSIM europeu.
O sistema operacional é outro
O mercado europeu não roda no sistema que o empreendedor brasileiro conhece. Nosso vocabulário é rodada, valuation, anjo, tração, pitch para fundo. No Brasil, tem jogo. A gente desenrola.
Aqui, o vocabulário é outro: projeto cofinanciado, consórcio, co-promoção, Horizonte Europa. E uma sigla que decide quem recebe dinheiro neste continente: TRL (Technology Readiness Level), uma escala de 1 a 9 com a qual a Comissão Europeia mede a maturidade de uma tecnologia. 1 existe no papel. 9 já está em operação. A maior parte do capital para inovação por aqui não vem de fundos apostando em crescimento a qualquer custo. Vem de programas que financiam a subida do TRL 4 para o 6 — dentro de consórcios que unem universidade, laboratório e indústria.
Não é burocracia atrapalhando o jogo. É o jogo em si.
A porta está aberta e ninguém sabe entrar
O detalhe que quase ninguém enxerga: os times daqui querem escalar o brasileiro.
Li recentemente o plano de atividades de 2026 do Instituto Pedro Nunes — a incubadora de Coimbra que, há uma década, está no top 10 mundial entre incubadoras universitárias. Está lá, com todas as letras: o compromisso de atrair startups de fora da União Europeia, com um programa de softlanding desenhado para recebê-las.
A porta não é boato de WhatsApp. Está documentada, orçamentada e assinada.
Ainda assim, aposto que a maioria dos fundadores que sonham com a Europa não conseguiriam ler dez páginas daquele documento sem tropeçar no vocabulário. A demanda existe. O que falta é candidato que saiba se apresentar nos termos do edital.
É isso que pretendo fazer neste espaço, mês a mês: traduzir. Vou contar como esse sistema funciona por dentro, o que uma incubadora europeia procura, onde está o dinheiro de verdade e onde eu mesmo tropecei, para que o tropeço do leitor custe menos.
No fim, o clichê está certo: falar português em Portugal é uma vantagem imensa. No restaurante, no cartório, na fila do supermercado.
Mas, para o fundador, o melhor conselho é o mais contraintuitivo: chegue aqui como quem chega a Berlim.









