Suporte, controle de qualidade e logística precisam acompanhar redes que incorporam centenas ou milhares de unidades Até onde uma rede de franquias consegue crescer sem mudar a forma como é administrada? A questão ganha peso em um setor que continua colocando novos pontos no mapa. O Brasil encerrou o segundo trimestre de 2026 com mais de 207,2 mil operações de franquias, 6.652 a mais do que no mesmo período do ano anterior, segundo a Associação Brasileira de Franchising (ABF). Entre abril e junho, o faturamento avançou 9,3%, para R$ 76,3 bilhões. Quando dezenas ou centenas de unidades são incorporadas em pouco tempo, encontrar novos franqueados é apenas parte do desafio. Treinamento, suporte, tecnologia, controle de qualidade e logística também precisam avançar. Azul Empréstimo, Mary Help e Prioridade 10 enfrentam versões diferentes dessa equação. Enquanto uma precisa absorver rapidamente novos operadores, outra administra milhares de serviços realizados longe da sede e a terceira se prepara para levar ao Nordeste um modelo consolidado no Sul. Na Azul Empréstimo, a velocidade ajuda a dimensionar a questão. Em agosto de 2025, a rede contabilizava 800 unidades. Encerrou o ano com mais de 900 comercializadas e já ultrapassou 2 mil em 2026. A aceleração vinha de antes. Foram 143 novas franquias comercializadas em 2023, 287 em 2024 e 328 em 2025. Somente em novembro do ano passado, durante a Black Friday, 76 contratos foram fechados. O avanço aumenta a pressão sobre a estrutura responsável por implantar, preparar e acompanhar os franqueados. A Azul utiliza ferramentas de gestão, prospecção e acompanhamento, além de suporte técnico e operacional e iniciativas de capacitação, como a Universidade Azul. 'Com o aumento da escala, não era mais possível concentrar o atendimento e o suporte de todos os produtos em uma mesma estrutura. Criamos novos cargos e setores específicos, ampliamos as equipes e passamos a contar com células especializadas para cada produto. Essa reorganização permite que profissionais com conhecimento aprofundado em cada área acompanhem melhor os franqueados e atendam ao crescimento da demanda', afirma Ademilson Mendes, CEO da Azul Empréstimo. 'Um exemplo foi a contratação de um gestor dedicado exclusivamente aos consórcios. Com uma equipe especializada e maior foco na operação, o volume comercializado nessa frente passou de cerca de R$ 1 milhão para R$ 10 milhões por mês. Também estamos reforçando a estrutura de crédito imobiliário, com novas contratações e ampliação do setor, o que já se refletiu no aumento das vendas', acrescenta. O crescimento também aparece na receita. A companhia faturou R$ 180 milhões em 2025 e projeta alcançar R$ 300 milhões em 2026, avanço de aproximadamente 67%. Na Mary Help, a escala é medida principalmente na ponta. A rede realiza cerca de 700 mil serviços por ano, reúne mais de 10 mil profissionais em atividade e acumula mais de 4,4 milhões de diárias para aproximadamente 588 mil clientes. Como boa parte dos atendimentos acontece dentro de residências e empresas, longe da estrutura da franqueadora, acompanhar a experiência do consumidor torna-se especialmente relevante à medida que a operação cresce. Segundo a empresa, a rede registra cerca de três reclamações a cada 10 mil diárias realizadas. Os indicadores públicos ajudam a observar essa relação. No Reclame Aqui, a Mary Help mantém reputação 'Ótima', com nota 8,6 em uma escala de zero a dez. Entre março e agosto de 2026, recebeu 133 reclamações, respondeu 90,2% delas e solucionou 90,8%. No RA Reviews, sistema de avaliações verificadas da plataforma, registra nota 4,8 de cinco, com base em 668 avaliações recebidas nos últimos seis meses. Os números revelam uma dimensão menos visível do crescimento de uma rede de serviços. Quando milhares de atendimentos acontecem longe da sede, ganhar escala exige não apenas ampliar a operação, mas manter capacidade de acompanhar o que acontece na ponta. Na Prioridade 10, a escala impõe outro tipo de pressão: abastecer mais lojas e avançar para novas regiões sem perder a lógica do negócio. Fundada em 2014, a rede chegou a 100 lojas em Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul e pretende superar 110 ainda em 2026. Agora, prepara a entrada no Nordeste, com unidades previstas na Bahia e no Rio Grande do Norte. O movimento amplia a complexidade de uma operação que reúne categorias como vestuário, utilidades domésticas, decoração, brinquedos, beleza e itens sazonais. Em 2025, confecção e vestuário responderam por 36,87% do faturamento, enquanto utilidades domésticas representaram 28,74%. À medida que a rede avança para novas praças, administrar esse mix também ganha complexidade. Abastecer uma centena de lojas com diferentes categorias, mantendo disponibilidade e a proposta de preço da marca, faz com que gestão de estoque e fornecedores deixe de ser apenas uma questão operacional e passe a fazer parte da estratégia de expansão. Para sustentar esse avanço, a rede manterá a atual base de fornecedores e o modelo centralizado de compras, realizado pelos franqueados por meio do Portal de Compras do Franqueado. A estrutura logística também será ampliada com um Centro de Distribuição em São Paulo, que deverá apoiar o abastecimento das novas regiões e reduzir custos da operação. A expansão, porém, não significa simplesmente reproduzir o mesmo sortimento em diferentes partes do país. Enquanto as unidades do Sul trabalham com maior presença de produtos associados ao clima e aos hábitos regionais, como vestuário de inverno, moletons, cuias e bombas de chimarrão, as novas praças terão o mix ajustado à demanda local. Layout das lojas, campanhas promocionais e padrão de atendimento permanecem padronizados pela rede. Parte do crescimento vem de quem já conhece o negócio. Segundo a companhia, 90% dos franqueados possuem mais de uma unidade, com operadores à frente de cinco, seis e até oito lojas. O faturamento médio mensal por unidade chega a R$ 197 mil, e a rede projeta receita de R$ 265 milhões em 2026. O próximo teste será levar o modelo desenvolvido no Sul para novos mercados. Distâncias maiores, abastecimento e diferenças nos hábitos de consumo passam a integrar a equação. 'Quando entramos em uma nova região, não podemos simplesmente reproduzir o mesmo calendário de produtos que funciona no Sul. No Nordeste, o clima muda essa lógica. Teremos uma presença maior das coleções de verão ao longo do ano e vamos trabalhar a meia-estação de forma complementar, adaptando o mix às características do mercado local', afirma Rogério Zorzetto, CEO e fundador da Prioridade 10. As três empresas mostram como o aumento da escala pressiona áreas diferentes do negócio. Na Azul, exige capacidade para preparar e acompanhar uma base que avançou rapidamente. Na Mary Help, torna mais complexo observar a qualidade de milhares de serviços realizados longe da sede. Na P10, coloca abastecimento e expansão geográfica à prova. Quando uma rede ainda é pequena, muitos problemas podem ser resolvidos caso a caso. Com centenas ou milhares de unidades, processos, dados e tecnologia passam a assumir parte desse papel. Nesse estágio, crescer deixa de significar apenas vender franquias. O número de unidades mostra até onde uma rede chegou. A estrutura construída por trás delas ajuda a determinar até onde ela ainda pode ir.