Embate entre os dois vai muito além de estilos de liderança: trata-se de duas filosofias radicalmente distintas sobre o que significa “dar de volta” à sociedade De um lado, Bill Gates — metódico, de fala mansa e com uma visão de longo prazo para transformar a saúde e a educação globais. Do outro, Elon Musk — impetuoso, disruptivo e disposto a desmantelar a ajuda internacional dos Estados Unidos com a mesma pressa com que lança foguetes ao espaço. O embate entre os dois vai muito além de estilos de liderança: trata-se de duas filosofias radicalmente distintas sobre o que significa “dar de volta” à sociedade. Gates anunciou recentemente que pretende doar 99% de sua fortuna e encerrar as atividades da Fundação Gates até 2045, injetando mais US$ 200 bilhões em projetos humanitários até lá. Em contraste, Musk, à frente do controverso Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) da administração Trump, impulsionou cortes drásticos em programas de ajuda externa, desmontando a USAID — agência que durante décadas foi referência no combate à pobreza e à fome no mundo. Eficiência ou devastação? Ambos vêm do mesmo berço tecnológico, mas aplicam o conceito de eficiência de maneiras opostas. Musk opera com o instinto de um fundador de startup: cortar custos, reduzir burocracia e gerar impacto imediato. Gates adota uma abordagem paciente e fundamentada em dados, priorizando continuidade e previsibilidade. Para o professor Michael Morris, da Columbia Business School, Gates demonstra “maturidade ao pensar nos problemas de forma estruturada”, enquanto Musk traz “impulsividade política”. Causas e consequências O impacto de suas escolhas é igualmente discrepante. A Fundação Gates estima ter salvado 82 milhões de vidas desde 2000, ao apoiar iniciativas contra doenças como HIV, malária e tuberculose. Já a interrupção repentina dos repasses da USAID, promovida por Musk, pode ter resultado em dezenas de milhares de mortes evitáveis, segundo pesquisadores da Universidade de Boston. Gates aproveitou o anúncio de ampliação de seus investimentos filantrópicos para criticar Musk. Em entrevista ao New York Times, acusou o bilionário de 'colocar o orçamento da USAID na trituradora de madeira' e associou sua atuação à morte de 'crianças entre os mais pobres do mundo'. A provocação também alcançou o Giving Pledge, iniciativa criada por Gates e Warren Buffett para incentivar bilionários a doarem suas fortunas. “Ele pode até cumprir [o compromisso] quando morrer”, disse Gates. “Mas, por enquanto, é o homem mais rico do mundo contribuindo para tragédias evitáveis.” Uma disputa de eras Assim como Andrew Carnegie e John D. Rockefeller moldaram a filantropia moderna no século 20, Gates tenta fazer o mesmo no século 21. Mas, diferentemente de seus antecessores, que criaram fundações com legados perpétuos, Gates quer ver os resultados ainda em vida — e acredita que a inteligência artificial pode acelerar o impacto em áreas como agricultura, ensino e saúde. Enquanto isso, Musk, embora tecnicamente também tenha aderido ao Giving Pledge, considera a maioria da filantropia “bobagem” e já se referiu a Gates como “insano”, conforme relatou Walter Isaacson em sua biografia. O futuro da generosidade bilionária A filantropia do Vale do Silício ainda não acompanhou os avanços tecnológicos que seus próprios líderes impulsionaram. Poucos seguem os passos de Gates. E, à medida que governos recuam no apoio internacional, o papel desses bilionários se torna ainda mais crucial — ou perigoso, dependendo de como decidem exercer sua influência. “Gates, como Carnegie e Rockefeller, define uma era”, diz Fatema Sumar, da Harvard Kennedy School. “Mas os titãs tecnológicos de hoje ainda não acompanharam sua ambição global — e o mundo não pode se dar ao luxo de mais bilionários em silêncio.”