Chairman da Petz disse uma verdade muito dura nesta entrevista

Créditos: Divulgação/Petz
No empreendedorismo real, nem sempre vencer é continuar. Às vezes, vencer é cair, entender por quê e voltar diferente
Em um ecossistema empresarial obcecado por histórias de sucesso linear, crescimento contínuo e “cases vencedores”, Sérgio Zimerman, fundador da Petz e atual presidente do Conselho do grupo Petz Cobasi, escolheu ir na contramão. No podcast Café com ADM, o empresário afirmou algo que soa quase herético no mundo dos negócios: quebrar pode ser um privilégio.
A frase, dita sem rodeios, carrega mais do que provocação. Ela revela uma visão pouco romantizada — e profundamente estratégica — sobre empreendedorismo, risco e aprendizado.
Do palhaço ao empresário
A trajetória de Zimerman ajuda a contextualizar o peso dessa afirmação. Ele começou a empreender aos 18 anos, não por vocação planejada, mas por acaso. Um Fusca roubado, um cheque do seguro na mão e uma namorada que trabalhava como palhaça em festas infantis foram o ponto de partida.
Em vez de recompor o carro, o dinheiro virou fantasia, anúncios em jornal e um pequeno negócio de animação de festas a domicílio. Ele era o palhaço “Salsicha”, ela, a “Estrelinha”. O que começou como prestação de serviço rapidamente evoluiu para um modelo mais escalável: contratação de outros animadores, administração da operação e, depois, a criação de buffets infantis com barraquinhas de comida.
O negócio prosperou. Foram mais de 4 mil festas realizadas. Mas Zimerman queria mais. Migrou para o comércio, abriu uma adega, depois um minimercado, que virou atacado de alimentos e, posteriormente, atacado de perfumaria. Em dez anos, a empresa chegou a 600 funcionários e 300 vendedores.
O “privilégio” de quebrar
No início dos anos 2000, veio o ponto de ruptura. O negócio cresceu, mas não se sustentou. Zimerman quebrou. E é exatamente esse momento que ele descreve como “o maior privilégio de um empresário”.
A explicação é direta e desconfortável: do ponto de vista financeiro, jurídico e emocional, quebrar é péssimo. Mas, do ponto de vista do aprendizado, pode ser transformador — se o empreendedor escolher aprender com a queda.
Ao dizer que “escolheu quebrar”, Zimerman não minimiza o impacto do fracasso. Ele destaca algo mais raro: a capacidade de assumir responsabilidade, extrair aprendizado real e reconstruir com mais consciência. Para ele, o erro deixa de ser apenas perda quando vira repertório.
O nascimento da Petz
Foi desse colapso que surgiu a virada para o setor pet. Zimerman fundou a Petz, apostando em um mercado ainda fragmentado, pouco profissionalizado e com enorme potencial de crescimento. Diferentemente das experiências anteriores, a nova empresa nasceu com aprendizados acumulados: foco em gestão, escala, processos, cultura e visão de longo prazo.
O resultado é conhecido. A Petz se transformou em um dos maiores ecossistemas de produtos e serviços para animais de estimação do país, com operação omnichannel, expansão logística, serviços veterinários, banho e tosa, e presença nacional. Mais recentemente, a fusão com a Cobasi consolidou o grupo como uma das maiores forças do varejo pet da América Latina.
Uma visão madura sobre fracasso
Na entrevista, Zimerman também aborda outros temas recorrentes em sua trajetória: a importância de profissionalizar a gestão, saber quando mudar de rota, lidar com ego, aceitar ciclos e entender que crescimento sem estrutura cobra seu preço.
Mas é a fala sobre quebrar que mais chama atenção — porque desmonta uma narrativa confortável. Em vez de vender a ideia de que “quem é bom nunca quebra”, ele sugere o oposto: quem nunca quebrou talvez nunca tenha ido longe o suficiente.
Em um país onde o fracasso ainda carrega estigma social, jurídico e psicológico, tratar a quebra como aprendizado — e não como identidade — é uma mensagem dura, mas necessária. Especialmente para empreendedores iniciantes, que consomem histórias editadas de sucesso e subestimam o custo real de errar.
Uma verdade incômoda, mas estratégica
Sérgio Zimerman não romantiza o fracasso. Ele o enquadra. Quebrar não é objetivo, nem troféu. É uma possibilidade real de quem assume risco. O privilégio, segundo ele, está em poder aprender, recomeçar e fazer melhor.
Em tempos de discursos motivacionais fáceis, a fala do chairman da Petz soa quase brutal. Mas talvez seja exatamente por isso que ela importa tanto. Porque, no empreendedorismo real, nem sempre vencer é continuar. Às vezes, vencer é cair, entender por quê e voltar diferente.









