Líderes enfrentam um dilema clássico: controlar a mensagem ou preservar a confiança A inteligência artificial virou um dos argumentos mais convenientes do mercado corporativo quando o assunto é demissão. Em meio a um cenário econômico instável e à pressão por eficiência, muitas empresas passaram a apontar a IA como fator central em cortes de pessoal e congelamentos de contratação. O problema é que, para quem permanece na organização, essa explicação nem sempre convence — e pode corroer a confiança interna mais rápido do que os líderes imaginam. Uma pesquisa recente da Resume.org, plataforma especializada em carreira e recrutamento, revela que quase 60% dos gestores de contratação enfatizam o papel da IA quando precisam justificar demissões ou pausas nas contratações. Segundo o levantamento, a razão não é apenas operacional, mas comunicacional: atribuir cortes à tecnologia 'soa mais estratégico' do que citar dificuldades financeiras. Ainda assim, os próprios dados mostram uma realidade mais complexa. De acordo com a pesquisa, 55% das empresas afirmam esperar demissões ao longo de 2026, sendo que quase metade acredita que elas ocorrerão já no primeiro trimestre. Quando questionadas sobre os motivos reais, apenas 44% disseram que a IA teve, de fato, algum papel nos cortes. Em contrapartida, 39% apontaram restrições orçamentárias, 42% falaram em reorganizações internas e uma parcela menor citou incerteza sobre o futuro do negócio. Para Kara Dennison, diretora de aconselhamento de carreira da Resume.org, a escolha do discurso é deliberada. A IA, segundo ela, 'sugere progresso, inevitabilidade e modernização', enquanto admitir dificuldades financeiras pode gerar apreensão em investidores, clientes e funcionários. O risco é que essa narrativa externa, bem calculada, não se sustente internamente. O motivo é simples: funcionários percebem rapidamente quando a explicação não bate com a realidade cotidiana. Se a empresa demite alegando automação, mas as cargas de trabalho permanecem iguais ou até aumentam, a credibilidade da liderança entra em xeque. 'Quando não há mudança concreta nos processos, o discurso perde força e o nível de confiança cai', aponta Dennison. Essa percepção aparece com clareza em fóruns como o Reddit, onde profissionais de tecnologia discutem o tema de forma direta. Um engenheiro de software comentou que a IA é frequentemente usada como 'embalagem positiva' para decisões que já estavam no radar por outros motivos. Outro foi ainda mais duro: 'Não é que as empresas acreditam tanto em IA. Elas acreditam mesmo é em reduzir folha de pagamento.' Isso não significa que a IA não esteja transformando o trabalho. Grandes empresas de tecnologia seguem investindo pesado e incorporando ferramentas generativas aos sistemas corporativos, defendendo ganhos reais de produtividade. Há também líderes que assumem posições radicais. Em 2023, por exemplo, o CEO da IgniteTech, Eric Vaughan, ganhou destaque ao demitir cerca de 80% da equipe após resistência à adoção de novas diretrizes de IA — e afirmou que faria tudo novamente. O ponto central, porém, não é se a IA impacta empregos, mas como esse impacto é comunicado. Layoffs sempre fizeram parte do ciclo dos negócios, especialmente em momentos de ajuste econômico. Transferir a responsabilidade exclusivamente para a tecnologia pode proteger a narrativa externa no curto prazo, mas tende a enfraquecer o vínculo com quem fica. No fim, líderes enfrentam um dilema clássico: controlar a mensagem ou preservar a confiança. Em um ambiente onde transparência virou ativo estratégico, culpar a IA pode parecer moderno — mas, para os funcionários, honestidade continua sendo insubstituível.