Empresas maduras agradecem o esforço pontual, mas não dependem dele para funcionar Em muitas empresas, resolver na base do improviso é motivo de orgulho. Quando algo falha, alguém 'dá um jeito'. Quando o prazo aperta, o time vira noite. Quando o processo não funciona, alguém contorna. No curto prazo, isso parece agilidade. No médio, vira um problema sério de gestão. Porque toda vez que alguém dá um jeito, o sistema aprende que não precisa funcionar direito. Organizações que dependem excessivamente de soluções informais tendem a perpetuar ineficiências, porque o esforço individual substitui a correção estrutural. Improviso recorrente não é flexibilidade. É sinal de falha de desenho. Quando resolver vira regra, não exceção O primeiro sinal da cultura do 'dar um jeito' é a repetição. Os mesmos problemas aparecem toda semana, com pequenas variações. E toda semana alguém resolve de novo. O erro não é a pessoa ajudar. É o sistema aceitar que isso seja normal. Com o tempo, o improviso vira expectativa. O processo pode falhar porque alguém vai cobrir. O prazo pode ser irreal porque alguém vai compensar. A gestão deixa de corrigir causa e passa a contar com esforço extra como parte do modelo. O custo invisível para o time Dar um jeito cansa. Exige atenção constante, leitura de contexto, negociação informal e esforço emocional. A pessoa não apenas trabalha. Ela administra falhas que não deveria administrar. Esse desgaste não aparece em relatórios, mas aparece no comportamento. Irritação crescente, cinismo leve, queda de iniciativa e sensação de injustiça. Quem sempre resolve começa a se sentir explorado. Quem nunca resolve aprende a depender. O impacto direto nos Negócios Negócios baseados em improviso têm dificuldade de escalar. Cada novo cliente, projeto ou pessoa aumenta a complexidade e, com ela, a quantidade de 'jeitos' necessários para manter tudo funcionando. Além disso, o custo operacional cresce sem ser percebido. Horas extras, retrabalho, exceções e correções manuais corroem margem e previsibilidade. A empresa até entrega, mas entrega caro e com risco constante. Dar um jeito mascara falhas de liderança Na maioria das vezes, a cultura do improviso não nasce do time. Nasce da liderança que evita decisões difíceis. Em vez de rever prazo, prioridade ou processo, aceita-se o contorno. Em vez de dizer não, pede-se esforço extra. O problema é que isso transfere o custo da decisão para o time. O líder evita o desconforto momentâneo e cria desgaste contínuo. Com o tempo, a confiança se deteriora, porque o esforço nunca vira melhoria real. A diferença entre exceção saudável e padrão tóxico Toda empresa precisa improvisar de vez em quando. O que define maturidade é o que acontece depois. A exceção vira aprendizado ou vira rotina? Quando a resposta é rotina, o improviso vira dívida. Uma dívida que cobra juros em forma de desgaste humano, falhas recorrentes e dificuldade de crescimento. Como quebrar a cultura do 'dar um jeito' O primeiro passo é nomear o padrão. Quais problemas só existem porque alguém sempre resolve? Isso revela onde o sistema está falhando. O segundo passo é transformar improviso recorrente em decisão estrutural. Se algo acontece sempre, não é exceção. É processo mal desenhado. O terceiro passo é proteger quem para de 'dar um jeito'. Quando alguém recusa o contorno e pede correção, essa pessoa precisa de apoio, não de cobrança. Caso contrário, o sistema volta ao velho hábito. A pergunta que expõe o problema real Se ninguém desse um jeito, o que quebraria de verdade? A resposta mostra exatamente onde a gestão precisa atuar. No fim, dar um jeito pode salvar o dia. Mas não pode ser estratégia. Empresas maduras agradecem o esforço pontual, mas não dependem dele para funcionar. Elas usam o improviso como sinal de alerta, não como modelo de operação. Porque, quando o sistema funciona, o time trabalha melhor, com menos desgaste e muito mais clareza. E isso é gestão de verdade, não heroísmo recorrente.