El Niño transforma risco climático em desafio estratégico para indústrias e portos

Imagem: Divulgação/i4sea
Com previsão de permanência do fenômeno até o fim de 2026, especialista da i4sea afirma que empresas precisam abandonar médias históricas e incorporar inteligência climática à gestão de riscos
Os impactos do El Niño deixaram de representar apenas uma preocupação ambiental e passaram a ocupar espaço nas estratégias de gestão das empresas brasileiras. Com previsão de permanência do fenômeno até dezembro de 2026, especialistas alertam que eventos climáticos extremos tendem a pressionar custos operacionais, comprometer cadeias logísticas e aumentar a exposição financeira de indústrias, portos e empresas de infraestrutura.
O cenário ganha relevância diante dos prejuízos acumulados pelo país nos últimos anos. Segundo dados da CNseg e da EY apresentados durante a COP30, eventos climáticos extremos provocaram perdas de aproximadamente R$ 184 bilhões na economia brasileira entre 2022 e 2024. Episódios recentes, como o destelhamento da fábrica da Toyota em Sorocaba (SP), reforçam que até grandes operações industriais estão suscetíveis ao novo comportamento climático.
El Niño deve ampliar extremos climáticos em diferentes regiões
De acordo com os modelos analisados pela i4sea, empresa especializada em inteligência climática, o segundo semestre deverá apresentar cenários distintos conforme a região do país.
Enquanto o Sul continuará sujeito a tempestades intensas, vendavais, microexplosões e chuvas volumosas, regiões como Centro-Oeste, Norte e Nordeste tendem a enfrentar ondas de calor mais severas e redução significativa no volume de chuvas.
Segundo Mateus Lima, CEO da i4sea, esse comportamento aumenta simultaneamente diferentes tipos de risco para empresas de diversos setores.
A primeira frente envolve logística e cadeia de suprimentos. Deslizamentos, bloqueios de rodovias e paralisações portuárias provocadas por ressacas e alterações marítimas podem comprometer operações baseadas em estoques enxutos, aumentando custos de transporte e risco de interrupção da produção.
Outro ponto crítico está relacionado ao setor elétrico. No Sul, ventos intensos elevam o risco de queda de árvores sobre redes de transmissão. Já em outras regiões, o calor extremo e a seca favorecem incêndios florestais próximos às linhas de distribuição, ampliando a vulnerabilidade do sistema.
Além disso, estruturas industriais projetadas com parâmetros climáticos de décadas anteriores passam a enfrentar maior risco de danos físicos.
Infraestruturas antigas enfrentam novo padrão climático
Segundo a i4sea, muitas instalações industriais ainda utilizam critérios de engenharia baseados em séries históricas que já não refletem a intensidade dos eventos atuais.
Galpões, telhados e sistemas de drenagem dimensionados para suportar chuvas de até 80 mm por hora podem não resistir a tempestades que atualmente ultrapassam com frequência os 150 mm por hora.
“Estrutura projetada com base em tabelas de recorrência de 30 anos atrás é estrutura subdimensionada hoje. Com a permanência do El Niño até dezembro de 2026, os eventos extremos mudarão de patamar. Quem antecipa o risco com dias de antecedência consegue redirecionar cargas, proteger ativos e abastecer clientes críticos. Quem descobre em cima da hora, apenas assina o sinistro”, afirma Mateus Lima.
Mercado amplia atenção à governança climática
Além dos impactos físicos, as mudanças climáticas também vêm influenciando práticas de governança corporativa.
Recentemente, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) tornou facultativa a divulgação de informações financeiras relacionadas a sustentabilidade e clima, revogando a obrigatoriedade anterior baseada nos padrões CBPS e IFRS S2.
Apesar da flexibilização regulatória, empresas que optarem por não divulgar essas informações precisarão justificar formalmente sua decisão ao mercado e aos investidores, seguindo o modelo conhecido como “relate ou explique”.
Para Mateus Lima, isso demonstra que, mesmo sem imposição legal, a transparência sobre riscos climáticos continua sendo um fator relevante para investidores, seguradoras e instituições financeiras.
“O discurso da obrigatoriedade rígida caiu por terra com a nova decisão regulatória, mas a cobrança do mercado por transparência continua pesada. A partir de agora, a empresa que decidir não reportar sua exposição climática terá que vir a público explicar os seus motivos. No fim do dia, o fim da imposição legal não apaga o prejuízo de uma linha de produção interrompida. O risco físico do clima continua impactando diretamente o balanço patrimonial, as negociações de apólices de seguro e o custo de capital junto aos bancos”, explica.
Inteligência climática passa a apoiar decisões operacionais
Para enfrentar esse novo cenário, empresas começam a substituir previsões meteorológicas genéricas por plataformas capazes de indicar riscos específicos para cada ativo operacional.
Segundo a i4sea, essas soluções cruzam históricos climáticos de mais de dez anos com dados específicos das operações, permitindo identificar exatamente quais plantas industriais, centros logísticos ou galpões apresentam maior exposição aos eventos previstos.
“Aviso genérico de ‘ventos fortes para o estado de São Paulo’ não para uma fábrica. Saber que o risco de destelhamento na planta 2 é alto e tem a mesma característica do evento de três anos atrás, isso sim para. Com um alerta preciso e eficaz, dá tempo de desligar máquinas, evacuar a área sensível e acionar o plano de contingência. Vira protocolo de segurança e eficiência, não desastre”, afirma o executivo.
Com mais de 90% das perdas provocadas por desastres climáticos ainda ocorrendo sem cobertura de seguros no Brasil, a i4sea avalia que incorporar inteligência climática à gestão empresarial deixou de ser uma medida preventiva e passou a representar um elemento estratégico para reduzir prejuízos, fortalecer a resiliência operacional e proteger o desempenho financeiro das organizações.









