Por que líderes aprendem menos do que deveriam (e como os mais bem pagos resolvem isso)

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Em um mundo em que reuniões e decisões disputam cada minuto, o diferencial não é estudar mais. É aprender de um jeito que sobreviva à rotina
Existe um paradoxo silencioso na vida executiva: quanto mais alto o cargo, menos espaço sobra para aprender. A agenda se enche de reuniões, mensagens, alinhamentos e decisões que parecem inadiáveis. Só que, justamente nesse nível, a atualização não é “extra”. É parte do trabalho. E quando ela não acontece, a liderança começa a operar no piloto automático.
Segundo análise publicada pela Harvard Business Review, executivos passam, em média, quase 23 horas por semana em reuniões, um volume que cresceu drasticamente ao longo das décadas.
O custo oculto da agenda lotada
Reuniões não consomem apenas tempo. Elas fragmentam atenção. A Bain observa que executivos seniores dedicam mais de dois dias por semana a reuniões com três ou mais colegas, e que cerca de 15% do tempo coletivo das organizações vai para esse tipo de encontro. É o cenário perfeito para a sobrecarga cognitiva: pouco foco contínuo, muitas trocas de contexto e decisões empilhadas ao longo do dia.
O resultado é previsível: aprender vira atividade “quando sobrar tempo”. E quase nunca sobra. Some a isso o peso mental de decidir. Um recorte divulgado pela Deloitte, citando pesquisa da Gartner, aponta que respondentes relatam gastar, em média, 37% do tempo de trabalho tomando decisões, e esse percentual tende a aumentar com a senioridade.
Por que o cérebro “apaga” o que você estudou
Outro problema é que líderes até consomem conteúdo, mas retêm pouco. A ciência da memória é cruel com quem estuda de modo apressado e sem revisitar. A curva do esquecimento, investigada desde Ebbinghaus e replicada em estudos modernos, mostra que a lembrança cai com o tempo quando não há reforço.
É aí que entram duas peças que quase nunca aparecem no desenho do aprendizado corporativo: espaçamento e recuperação ativa. Uma meta-análise clássica sobre prática distribuída mostra que espaçar revisões melhora a retenção de longo prazo. E a evidência sobre “efeito do teste” reforça que tentar lembrar, em vez de apenas reler, fortalece a memória com mais consistência.
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Como os líderes de alta performance reorganizam o aprendizado
Os mais bem pagos não “encontram tempo”. Eles redesenham o formato. Em vez de uma hora semanal idealizada, criam blocos curtos, recorrentes e conectados a decisões reais. Um exemplo extremo e conhecido é Warren Buffett, que atribui sua vantagem ao hábito diário de leitura e reflexão por horas, reduzindo reuniões e preservando tempo de pensar.
Na prática moderna, muitos líderes também transformam deslocamentos e transições em momentos de aprendizado ativo. Satya Nadella descreveu usar IA para “conversar” com transcrições de podcasts durante o trajeto, trocando consumo passivo por interação com o conteúdo. A lógica é simples: capturar microjanelas do dia e convertê-las em repetição espaçada.
Microlearning como resposta prática, não como moda
Microlearning funciona quando não é tratado como pílula motivacional, e sim como engenharia de retenção: poucos minutos, um conceito, uma aplicação imediata, e revisões programadas. A literatura sobre microlearning mostra que seus resultados dependem do desenho e da aderência ao trabalho real, não do formato em si.
A pergunta que separa liderança ocupada de liderança preparada é direta: seu aprendizado tem horário na agenda ou só intenção? Em um mundo em que reuniões e decisões disputam cada minuto, o diferencial não é estudar mais. É aprender de um jeito que sobreviva à rotina.











