Mais do que medidas práticas, especialistas apontam para a necessidade de quebrar o tabu em torno da menopausa no ambiente corporativo A diferença salarial entre homens e mulheres é um problema antigo. Em média, nos Estados Unidos, elas ainda recebem apenas 85 centavos para cada dólar ganho por eles. Agora, um novo estudo da Universidade de Stanford mostra um fator pouco discutido que agrava esse cenário: a menopausa. Segundo a pesquisa, divulgada em março de 2025, mulheres que procuram atendimento médico para lidar com os sintomas sofrem uma redução de 10% na remuneração nos quatro anos seguintes. O novo 'penalty' invisível Conduzida pela economista Petra Persson, professora e pesquisadora do Stanford Institute for Economic Policy Research (SIEPR), a investigação buscou mensurar o custo financeiro dessa fase da vida. O resultado confirma o que muitas mulheres já sentem: sintomas como ondas de calor, fadiga e lapsos de memória afetam diretamente a produtividade, levando a redução de jornada ou até ao abandono da carreira. 'Por décadas falamos do 'penalty da maternidade'. Agora temos dados sobre as consequências econômicas no outro extremo do ciclo reprodutivo', disse Persson ao Stanford Report. 'Se já temos políticas para licença parental ou apoio em questões de saúde, faz sentido ampliar isso também para a transição da menopausa.' Hoje, cerca de 20% das mulheres na força de trabalho já se encontram nessa fase. Benefícios ainda são raros O contraste entre necessidade e suporte organizacional é evidente. De acordo com a pesquisa 2025 Bonafide State of Menopause Survey, 71% das mulheres relatam não estar preparadas para o impacto dos sintomas — um aumento de oito pontos percentuais em relação a 2023. Apesar disso, apenas 12% dizem que suas empresas oferecem algum tipo de acomodação. Essa falta de apoio não sai barato. Um estudo da Mayo Clinic, com mais de 4,400 mulheres, estimou que sintomas da menopausa resultam em US$ 1,8 bilhão por ano em horas de trabalho perdidas nos EUA. Ver todos os stories 7 decisões profissionais que parecem maduras, mas travam seu crescimento Entre estabilidade e expansão: a decisão que define sua próxima fase Por que seguir fazendo o certo nem sempre leva ao resultado esperado Por que nem toda carreira estável é uma carreira segura O erro silencioso que faz líderes inteligentes tomarem decisões ruins Produtividade e equidade em jogo Para especialistas, a resposta empresarial não deve ser tratada como 'benefício extra', mas como estratégia de produtividade e retenção. 'Mulheres nessa fase geralmente ocupam cargos seniores, de alto impacto. Apoiar sua saúde é tanto o certo a se fazer quanto uma decisão inteligente de negócios', afirma a médica Cristina Del Toro Badessa, especialista em saúde hormonal. Entre as soluções sugeridas estão planos abrangentes que combinem consultas médicas e telemedicina, terapias hormonais e não hormonais, apoio psicológico, orientação nutricional, grupos de troca e até salas de descanso específicas. 'O fundamental é a abrangência e a flexibilidade', reforça a médica Asima Ahmad, cofundadora da Carrot Fertility. Flexibilidade como ferramenta O modelo híbrido de trabalho também surge como recurso essencial. 'Muitas mulheres relatam constrangimento ao lidar com os sintomas em público. A possibilidade de trabalhar de casa em dias críticos evita faltas e reduz o estresse', explica Ahmad. Ela lembra ainda que os sintomas, embora intensos, costumam ser temporários: 'Não é preciso tomar decisões definitivas de carreira durante a transição. A maioria das mulheres recupera seu equilíbrio após esse período.' Romper o estigma Mais do que medidas práticas, especialistas apontam para a necessidade de quebrar o tabu em torno da menopausa no ambiente corporativo. Ao incluir essa pauta nas políticas de bem-estar, as empresas transmitem uma mensagem clara: valorizam suas colaboradoras em todas as fases da vida — da fertilidade à maternidade, da recuperação pós-parto à menopausa. Embora os avanços sejam graduais, pesquisas mostram que o tema começa a ganhar espaço. E as organizações que se anteciparem podem não apenas reduzir custos e melhorar a retenção, mas também liderar em inclusão e equidade. 'Companhias que agirem agora estarão à frente da curva', resume Ahmad.