Confesse: se eu falar 'startup', aposto que você pensará em algo 100% digital e voltado para o consumidor final (B2C). Isso não se dá por acaso. A maioria das startups tem mesmo essas características. É por isso também que você vai encontrar muitos artigos falando coisas como 'analise a jornada do cliente na plataforma', 'não economize nos testes A/B', 'crie uma estratégia de content marketing para gerar leads'. Mantras que, de tão repetidos, parecem soar universais. Mas… e se meu modelo de negócio não é de um marketplace ou de uma plataforma online? Se meu público são outras empresas, tudo isso se aplica integralmente? A resposta é uma só: não. Há muitas startups atuando no limiar do físico e do digital. Na verdade, elas partem do mundo físico para, então, agregar uma camada de inteligência aos dados capturados. Ou, se preferir: digitalizam o mundo a nossa volta para poder melhor manipulá-lo em um universo onde gravidade, velocidade, temperatura, não são fatores relevantes – o universo digital. Menos glamouroso que o modelo 100% digital e B2C, talvez – mas não menos disruptivo e revolucionário. E, de certa forma, muito mais desafiador. Digitalizar o real: ganhos exponenciais Quem vem acompanhando o impacto do processo de transformação digital dos negócios sabe que não se trata apenas de 'escanear o mundo físico' – os ganhos vão muito além. Um exemplo? Basta pensar o que a máquina fotográfica digital do seu celular proporciona. Transformar a foto/imagem, antes analógica, em digital, permite muito mais do que simplesmente uma fácil armazenagem. No digital, fluido e sem os limites do mundo físico, ela pode ser manipulada, compartilhada, melhorada e reaproveitada com extrema facilidade. É disso que se trata: digitalizar o mundo traz ganhos exponenciais. Portanto, há um enorme número de startups focadas em B2B/B2B2C onde a inovação depende antes da captura de dados do mundo físico para viabilizar/alimentar a geração de insights e predições. Mas, elas não se limitam a isso: focam na união dos dados dos sensores com o que se convencionou chamar de 'dark data' (dados que são coletados para fins de controle ou histórico, mas que não são aproveitados para fins de análise e tomada de decisão). E isso representa o verdadeiro 'pulo do gato'. Uma pesquisa da IBM estimou que 90% dos dados são 'dark data', um enorme desperdício para a gestão e melhoria de processos, por exemplo. São modelos de negócio, portanto, que envolvem soluções onde analógico e digital se tornam um só e essa é sua maior proposição de valor, no fundo. No lado físico/analógico, o destaque fica para os sensores de todo tipo: desde a boa e velha telemetria até avanços formidáveis de itens como tags, beacons e câmeras inteligentes (com reconhecimento facial), por exemplo. Acrescente a isso a lógica de IoT ('Internet das coisas'), quando equipamentos passam a estar em rede, com seu próprio endereço IP, para termos um cenário onde passa a ser possível mapear e entender o comportamento e a interação de objetos, de máquinas e até de pessoas no ambiente, no tempo e no espaço – como nunca antes. O corpo humano – uma metáfora Se, de um lado, a evolução e o barateamento dos sensores, somados ao IoT, abre um leque amplo de possibilidades de captura, de outro lado temos a evolução vertiginosa da Inteligência Artificial (AI) nos últimos anos para viabilizar a análise e a predição (um oráculo para o futuro). Importante notar que, antes de AI, conseguíamos apenas olhar no retrovisor, em uma abordagem que, normalmente, unia Big Data e Business Intelligence. Agora, estamos falando de fazer com que a Inteligência Artificial varra constantemente o big data gerado não só pelos sistemas legados, mas também por sensores cada vez mais sofisticados. E, com isso, procure padrões e gere insights, projetando o futuro e aprendendo com o passado – constante e indefinidamente. Uma das startups onde atuo como mentor tem como modelo de negócio essa abordagem em warehouses, aumentando a produtividade e reduzindo perdas a partir do mapeamento do comportamento das pessoas via sensores, unindo esses dados com o que já há no WMS, nos KPIs dos processos, na telemetria e nos demais legados. Esse é um nicho fascinante, onde estamos mimetizando o próprio corpo humano: onde havia apenas membros (máquinas, objetos), agora temos sentidos (sensores), sistema nervoso (rede) e, finalmente, o cérebro (AI). É certamente algo complexo e desafiador, pois faz com que essas startups precisem tanto se ocupar das limitações do mundo físico quanto dos desafios de integrar os dados gerados com os dos legados, para, então, encarar a ainda mais desafiadora tarefa de gerar predições e, com isso, revolucionar negócios, em especial na indústria (a tal da quarta revolução industrial de que se fala). Tragam os holofotes, portanto, elas (também) merecem, e muito. Ricardo Saldanha — Gestor de Inovação e também mentor da Spin Aceleradora. www.linkedin.com/in/rsaldanha