Não se trata de falar mais alto, decidir mais rápido ou controlar tudo. Trata-se de saber quando desafiar, quando ouvir e quando simplesmente sair do caminho Existe uma mitologia poderosa em torno de Steve Jobs. A imagem do gênio solitário de gola alta preta, capaz de enxergar falhas instantaneamente e impor sua visão com precisão cirúrgica, tornou-se quase indissociável da história da Apple. O 'campo de distorção da realidade' virou sinônimo de liderança visionária, intensidade extrema e controle absoluto. Esse retrato, no entanto, é incompleto. E, segundo Ed Catmull, cofundador da Pixar e ex-presidente da Walt Disney Animation Studios, está fundamentalmente errado. Catmull trabalhou com Jobs por mais de um quarto de século, mais tempo do que quase qualquer outro executivo. Em conversa recente, ele descreveu um líder muito menos dogmático do que a lenda sugere e muito mais consciente de suas próprias limitações. Ele sabia exatamente o que não sabia A narrativa popular costuma pintar Jobs como um microgerente obcecado por impor seu gosto pessoal em todas as decisões. Na Pixar, o papel dele foi quase o oposto. Jobs sabia que não era cineasta. Nunca havia dirigido, escrito ou produzido um filme. Também não tinha experiência em marketing cinematográfico. Essa consciência moldou completamente sua atuação. Segundo Catmull, Jobs não entrava em discussões criativas fingindo dominar um território que não era o seu. Em vez disso, assumia uma função estratégica clara: proteger a empresa para que os criadores pudessem trabalhar sem interferências indevidas. Ele entendia que os instintos que funcionavam no design de produtos não se aplicavam automaticamente à construção de narrativas. Essa autoconsciência é rara em líderes altamente bem-sucedidos. Quanto maior o histórico de acertos, maior a tentação de extrapolar competência para áreas onde ela não existe. Ver todos os stories Isto é um teste 6 hábitos que sabotam seu crescimento O nordestino que ousou fazer o impossível O que está em jogo com a 'PEC da Blindagem' Uma verdade sobre suas assinaturas de streaming que você não vê Ele exigia discordância, não lealdade Talvez o relato mais surpreendente de Catmull envolva o período em que a Pixar foi uma empresa de capital aberto. Durante dez anos, Jobs demitiu dois membros do conselho de administração. O motivo não foi incompetência técnica ou falhas éticas. Eles simplesmente nunca discordavam dele. Para Jobs, a ausência de confronto era um sinal de inutilidade. Se alguém não era capaz de sustentar uma posição contrária, não agregava valor real ao processo decisório. Essa postura contraria a tendência natural de líderes carismáticos, que muitas vezes acabam cercados por reforços de suas próprias crenças. Jobs entendia que sua capacidade de articular argumentos rapidamente podia esmagar ideias antes mesmo que elas fossem totalmente formuladas. Ele precisava, conscientemente, de pessoas fortes o suficiente para resistir a isso. Saber quando sair da sala também é liderança Um dos pilares culturais da Pixar é o Braintrust, um grupo de diretores e roteiristas criado para oferecer feedback brutalmente honesto sobre filmes em desenvolvimento. A regra central do Braintrust é eliminar a hierarquia. Nenhuma solução pode ser imposta. O foco é identificar problemas, não ditar respostas. Por essa razão, Steve Jobs nunca participou dessas reuniões. Catmull explica que a simples presença de Jobs alteraria o comportamento das pessoas na sala. O peso simbólico da autoridade sufocaria a vulnerabilidade necessária para discutir ideias imperfeitas. Jobs compreendia isso e aceitava ficar de fora. Esse talvez seja um dos sinais mais claros de maturidade de liderança. Reconhecer que, em determinados contextos, sua ausência é mais valiosa do que sua contribuição direta. Um líder disposto a mudar de ideia A imagem pública de Jobs costuma enfatizar rigidez e intransigência. Catmull descreve algo mais sutil. Jobs pressionava ideias com intensidade extrema, testava argumentos até o limite e desmontava raciocínios frágeis. Mas, quando percebia que estava errado, mudava de posição rapidamente. Não havia apego ao erro, apenas à busca pela melhor solução. Essa combinação é rara: rigor intelectual alto com abertura genuína para revisão. Muitos líderes confundem firmeza com inflexibilidade. Jobs diferenciava as duas coisas. O que líderes realmente podem aprender com isso O Steve Jobs que emerge do relato de Ed Catmull não é menos exigente do que o mito. Mas é muito mais estratégico. Ele entendia seus limites, criava sistemas que o impediam de sufocar talentos e valorizava o dissenso como ferramenta de qualidade. Mais do que impor genialidade, ele construiu ambientes onde outras genialidades podiam aparecer. Para líderes que desejam construir culturas de excelência, essa talvez seja a lição mais relevante. Não se trata de falar mais alto, decidir mais rápido ou controlar tudo. Trata-se de saber quando desafiar, quando ouvir e quando simplesmente sair do caminho. Às vezes, a liderança mais poderosa é aquela que cria espaço para que o melhor pensamento coletivo aconteça.