Experiência, rede de contatos, conhecimento acumulado e maturidade emocional são ativos competitivos decisivos A imagem do fundador genial, jovem e disruptivo segue povoando o imaginário do empreendedorismo global. Mark Zuckerberg criou o Facebook aos 19 anos. Bill Gates fundou a Microsoft aos 21. Steve Jobs cofundou a Apple também aos 21. Jeff Bezos e Jensen Huang tinham 30 quando deram início à Amazon e à Nvidia. Esses casos existem, são reais e inspiradores. Mas a ciência mostra que eles são exceções, não a regra. Pesquisas do National Bureau of Economic Research e do Census Bureau, em parceria com professores do MIT, indicam que o perfil médio do empreendedor de maior sucesso está longe da juventude extrema. Ao analisar 2,7 milhões de fundadores que criaram empresas com ao menos um funcionário entre 2007 e 2014, os pesquisadores identificaram que a idade média dos empreendedores por trás das startups mais bem-sucedidas era de 45 anos. Em termos práticos, um empreendedor de 50 anos tem quase o dobro de chance de criar uma empresa altamente bem-sucedida do que alguém de 30. Aos 60, essa probabilidade é três vezes maior. O dado desafia um dos dogmas mais difundidos do Vale do Silício. A ideia de que inovação é sinônimo de juventude ignora um fator central para o sucesso empresarial: execução. Ter uma boa ideia é importante, mas transformar essa ideia em um negócio sustentável exige repertório, experiência, tomada de decisão madura e capacidade de liderança. Habilidades que, na maioria das vezes, levam décadas para serem construídas. A própria ciência da criatividade reforça essa lógica. Uma revisão de estudos publicada pelo National Bureau of Economic Research mostra que o pico de desempenho criativo em cientistas e inventores vem ocorrendo cada vez mais tarde. Hoje, a maioria das grandes contribuições acontece após os 40 anos. Segundo os pesquisadores, há um período inicial de formação, seguido por uma fase de crescimento acelerado, até que o desempenho atinge seu auge na meia-idade. Criar algo verdadeiramente relevante depende não apenas de conhecimento, mas da capacidade de conectar ideias dentro de estruturas mais amplas e complexas. Esse padrão ajuda a explicar por que muitos empreendedores que começam mais tarde conseguem resultados superiores. Ray Kroc só comprou o McDonald's aos 52 anos, depois de uma longa carreira em vendas. Sam Walton desenvolveu suas habilidades operando lojas Ben Franklin antes de criar o Walmart e reinventar o varejo ao apostar em pequenas cidades. Essas trajetórias não foram marcadas por um único lampejo genial, mas pela construção progressiva de domínio operacional. O economista David Galenson chama esse perfil de 'mestres': profissionais que atingem o auge mais tarde porque passam anos desenvolvendo técnica, visão sistêmica e capacidade de execução. Em contraste, os chamados 'jovens gênios' tendem a se destacar por grandes rupturas conceituais. Bill Gates não começou a Microsoft sabendo administrar uma corporação bilionária. Jeff Bezos não dominava logística global ao criar a Amazon. Eles tiveram ideias poderosas e aprenderam a executar ao longo do caminho. O problema é que o sucesso desses poucos casos alimenta o viés de sobrevivência. Olhamos para quem venceu cedo e ignoramos a imensa maioria que tentou e não chegou lá. O resultado é uma narrativa distorcida que associa inovação à juventude e trata a experiência como desvantagem. A evidência aponta na direção oposta. Idade não é obstáculo para empreender. Pelo contrário. Experiência, rede de contatos, conhecimento acumulado e maturidade emocional são ativos competitivos decisivos. Para quem está nos 40, 50 ou 60 anos e pensa em empreender, a ciência é clara: o momento não passou. Em muitos casos, ele só começou.