Desafiado. Foi assim que o mineiro Heine Allemagne, desempregado e endividado na época, se sentiu ao escutar Galvão Bueno, em uma narração de um jogo de futebol na TV, dizer que ninguém seria capaz de resolver o problema do movimento das barreiras nas cobranças de falta nas partidas. 'Eu pensei: vou ser esse cara. Vou resolver isso'. E assim, em 2000, Heine começou a pensar em algo que criasse uma marcação provisória – uma linha que sumisse após a cobrança de falta. E descobriu. Inspirado no tradicional creme de barbear, ele criou o primeiro protótipo em parceria com uma fábrica da sua região. 'Eu formatei todo o raciocínio do produto e do negócio de forma racional para fazer isso acontecer no mundo inteiro', comenta o mineiro que definiu o tamanho do tubo e da linha, o fato da espuma não ser tóxica e também de sumir em menos de um minuto. O problema, no entanto, era superar a barreira da desconfiança. Logo de cara, Heine levou diversos 'nãos' quando ia apresentar a sua proposta. 'A Federação Paulista de Futebol não queria escutar a ideia, a FIFA, então, nem respondia minhas solicitações, mas não desisti', afirma. Ele conseguiu mostrar o projeto para a imprensa e com o vídeo da reportagem debaixo do braço teve a aprovação da Federação de Futebol de Minas Gerais para testar o spray em caráter experimental. Foi um sucesso. Ainda no mesmo ano, a CBF autorizou o uso do produto na Copa João Havelange, mas os árbitros deveriam fazer um relatório. Mais uma vez foi unanimidade entre os árbitros e isso fez com que o spray fosse usado em todas as competições nacionais, sendo em 2003 incluído como uso obrigatório. Apesar de consolidado em terras tupiniquins, o grande objetivo de Heine Allemagne era ver o seu produto em uma partida da Copa do Mundo. Mas a odisseia para chegar a esse momento não seria fácil por um grande motivo: o conservadorismo da FIFA era extremo. Em 2008, deu um importante passo: foi a vez da Conmebol aprovar o uso do equipamento. Em 2012, ele conseguiu outro grande passo: a invenção foi aprovada pela FIFA e pela International Football Association Board (IFAB), órgão que regulariza as regras do futebol. A aprovação permitiu que as federações de todo o mundo passassem a usar o spray inventado por Heine. Em 2014 veio, segundo o mineiro, a consagração. O Spuni (nome do spray) foi usado em todas as partidas da Copa do Mundo. 'Qualquer empresa, para pensar em usar a sua marca no Mundial e receber o nível de exposição que a competição oferece, tem que gastar milhões. Para se ter uma dimensão, a Adidas desembolsa 100 milhões de dólares para ser a bola oficial da competição. Nós fomos a única marca que não pagou nada e ainda estivemos presente em todos os jogos', ressalta. Agora, o próximo passo é a venda da patente do produto para a própria FIFA. De acordo com o mineiro, esse é um processo natural e ele já tinha ciência disso na formatação do projeto. Agora é esperar que alguém faça um novo desafio na TV. Quem sabe surja uma nova invenção. | Matéria da revista Administradores edição 29