Levantamento da Deloitte aponta crescimento de 84% no faturamento das empresas familiares até 2030 e reforça a importância de governança e planejamento sucessório As empresas familiares seguem ampliando seu peso na economia global e, com isso, aumentam também os desafios relacionados à sua continuidade. Segundo levantamento da Deloitte, o faturamento dessas companhias deve crescer 84% até 2030, alcançando US$ 29 trilhões, ritmo superior à projeção de 59% de crescimento das empresas não familiares. No mesmo período, o número de empresas familiares deve avançar 22%, evidenciando que a longevidade desses negócios passa, cada vez mais, por decisões estruturadas de governança. O estudo da Deloitte — que integra a série Family Business Insights — ouviu 1.587 empresas familiares no mundo, sendo 101 no Brasil, entre março e junho de 2025, com organizações que apresentam receita anual média de US$ 2,8 bilhões. Os dados apontam que planejamento sucessório, estruturas claras de decisão e preparo das futuras lideranças estão entre os principais fatores associados à longevidade e ao crescimento sustentável dessas organizações. Nesse contexto, a sucessão em empresas familiares deixou de ser um tema restrito ao ambiente privado para se consolidar como uma questão estratégica de preservação de valor e continuidade dos negócios. Em um cenário de maior escrutínio do mercado, investidores mais atentos e famílias empresárias cada vez mais complexas, a forma como a transição de comando é conduzida pode determinar se a empresa atravessará gerações ou enfrentará perdas relevantes ao longo do tempo. Segundo Amanda Visentini Rodrigues, sócia de M&A e Societário do VBSO Advogados, o maior equívoco das famílias empresárias é tratar a sucessão como um acontecimento pontual, quando, na prática, trata-se de uma jornada que precisa ser construída com antecedência. 'Quando a sucessão é empurrada para depois, ela tende a ser conduzida em um contexto de tensão, o que compromete decisões racionais. Governança existe justamente para criar previsibilidade, regras claras e um ambiente mais equilibrado para a transição', afirma Amanda. A ausência de diretrizes formais para a relação entre família, patrimônio e gestão abre espaço para disputas que extrapolam o âmbito privado e impactam diretamente a reputação e o desempenho das empresas. Conflitos entre herdeiros, divergências sobre papéis e decisões tomadas sem critérios objetivos podem enfraquecer a administração e afetar a confiança de parceiros, clientes e colaboradores. Nesse contexto, instrumentos como acordos entre sócios, conselhos consultivos ou deliberativos e políticas de entrada e saída de familiares ajudam a separar o vínculo emocional da lógica empresarial. 'A governança não elimina divergências, mas cria canais para que elas sejam tratadas de forma institucional, evitando que questões pessoais interfiram na condução do negócio'. Ou seja, mais do que definir quem assumirá cargos ou participações, o processo sucessório envolve capacitação, critérios de mérito e clareza sobre o papel de cada membro da família. 'Quando as regras estão bem definidas, todos sabem o que se espera deles. Isso reduz frustrações, protege a empresa e contribui para relações familiares mais saudáveis', destaca a especialista. Ao transformar a sucessão em um processo estruturado e integrado à governança, as empresas familiares aumentam significativamente suas chances de manter competitividade, preservar patrimônio e atravessar gerações de forma sustentável — sem depender de decisões tomadas sob pressão.