Por que o país de Santos Dumont não fabrica aviões? A pergunta que mudou tudo e deu origem à Embraer

Reprodução: Unsplash
Antes de a Embraer se transformar em uma das empresas brasileiras de maior projeção internacional, havia um problema muito mais básico a resolver: o país precisava desenvolver conhecimento, formar engenheiros e descobrir que tipo de avião teria condições reais de produzir e vender.
A história de Ozires Silva e da Embraer é frequentemente apresentada como a trajetória de um visionário que realizou um sonho de infância. Há verdade nisso. Mas essa versão deixa de fora talvez a parte mais interessante para quem empreende: o sonho só se tornou negócio depois que uma sequência de problemas concretos começou a ser resolvida.
Ozires nasceu em Bauru, em 1931, e desde jovem se interessava por aviação. Ao lado do amigo Benedito César, o Zico, questionava por que o Brasil, país de Santos Dumont, não construía seus próprios aviões. Na época, porém, nem sequer existia no país uma escola capaz de oferecer a formação que buscava.
Décadas depois, Ozires estaria à frente da criação da Embraer.
O caminho entre esses dois momentos ajuda a explicar por que grandes empresas raramente começam pela empresa.
Antes da Embraer, foi necessário criar o ITA
Uma das figuras fundamentais dessa história é Casimiro Montenegro Filho.
Ainda na década de 1940, o militar liderou os esforços para criar o Centro Técnico de Aeronáutica e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o ITA.
A estratégia partia de uma constatação elementar: não seria possível desenvolver uma indústria aeronáutica sofisticada sem formar engenheiros e criar conhecimento tecnológico no país.
Ozires ingressou no ITA no fim dos anos 1950 e formou-se engenheiro aeronáutico em 1962. Já possuía experiência como piloto da FAB e havia voado, inclusive, na Amazônia.
Essa combinação seria importante.
Ele não conhecia aviação apenas da prancheta.
Conhecia também problemas concretos de um país continental, com cidades pequenas, infraestrutura precária e enormes distâncias.

“Engenheiros do Impossível: a surreal história da Embraer”: audiobook original do Administradores Premium conta a história da companhia e mostra suas principais lições de liderança e empreendedorismo. Crie sua conta e comece gratuitamente na plataforma para escutar
O avião brasileiro não deveria copiar os estrangeiros
Quando Ozires passou a trabalhar no CTA, surgiu uma questão decisiva.
Que avião o Brasil deveria produzir?
Tentar competir frontalmente com fabricantes estabelecidos em grandes aeronaves comerciais seria extremamente difícil.
A equipe encontrou outra possibilidade.
Naquele momento, a indústria internacional avançava rapidamente em direção aos grandes jatos. Ao mesmo tempo, existia demanda por aeronaves menores, de baixo custo operacional, capazes de conectar cidades e operar em locais com infraestrutura limitada.
Foi dessa leitura que nasceu o projeto IPD-6504.
O futuro Bandeirante.
A lição empresarial é relevante: a equipe não procurou apenas responder “o que somos capazes de fabricar?”.
Precisou responder também:
Onde existe um problema que podemos resolver melhor?
Um protótipo ainda não é uma empresa
O desenvolvimento começou em meados da década de 1960.
Faltavam recursos e sobrava ceticismo. Ainda assim, em 22 de outubro de 1968, o Bandeirante realizou seu primeiro voo.
Era uma conquista tecnológica extraordinária.
Mas ainda faltava transformar tecnologia em indústria.
Um protótipo bem-sucedido não cria automaticamente uma empresa sustentável.
Era necessário aperfeiçoar a aeronave, certificá-la, produzir em escala, organizar fornecedores, vender e prestar suporte aos clientes.
Em 19 de agosto de 1969, foi criada a Embraer, companhia de economia mista e controle estatal. Sua missão inicial incluía justamente levar o Bandeirante à produção seriada. Ozires tornou-se seu primeiro dirigente.
170 empresas participaram do desenvolvimento
A complexidade do projeto aparece em outro número pouco lembrado.
Segundo a própria Embraer, o desenvolvimento do Bandeirante contou com a colaboração de 170 empresas brasileiras, que precisaram fornecer componentes dentro dos níveis de precisão exigidos pela indústria aeronáutica.
Isso ajuda a compreender a dimensão real do empreendimento.
Não estava sendo criado apenas um avião.
Era necessário desenvolver um ecossistema industrial.
O que essa história ensina a quem empreende
É tentador observar empresas extraordinárias depois que elas se tornam extraordinárias.
Nesse estágio, enxergamos produtos, fábricas, faturamento e presença internacional.
A história da Embraer sugere fazer o caminho contrário.
Pergunte qual infraestrutura precisou existir antes.
Que conhecimento teve de ser desenvolvido?
Que pessoas precisaram ser formadas?
Que fornecedores tiveram de evoluir?
Que mercado foi identificado?
Para quem está construindo um negócio hoje, isso produz uma pergunta prática:
Qual capacidade precisa ser construída agora para que aquilo que você pretende fazer daqui a cinco anos seja possível?
O grande empreendimento talvez não comece quando a empresa é fundada.
Pode começar muito antes, quando alguém decide construir as competências sem as quais ela jamais conseguiria existir.
No novo Administradores Premium, você pode ouvir o audiobook “Engenheiros do Impossível” e também:
- Ler e baixar dezenas de ebooks originais
- Ouvir playbooks executivos que analisam as principais lições de grandes livros e mostram como aplicá-las na prática
- Assistir a cursos com grandes nomes do mercado brasileiros e também professores internacionais
Crie sua conta e comece agora!









