A coisa muda de figura quando ocupamos o papel de líder. Um líder responde não só por seus atos, mas também pelo comportamento de todos aqueles sob seu comando que podem ser centenas, milhares, milhões de indivíduos. Logo, a primeira dúvida a esclarecer é a quem cabe a culpa. Outro fator importante é o grau do dano causado. Se um líder se sente obrigado a pedir perdão, sobretudo quando o imbróglio envolve subordinados seus, é bem provável que o dano tenha sido sério, vasto e permanente. Já que o líder fala tanto para, como por, seus seguidores, seu pedido de perdão tem vastas implicações. O ato de se desculpar ocorre não só no nível individual, mas também no da instituição. Não é algo puramente pessoal é também político. É uma atuação na qual todo gesto tem importância e toda palavra fica publicamente registrada. Logo, pedir desculpas em público é, para o líder, uma tacada arriscadíssima: para si, para os subordinados, para a organização que representa. Fugir a um pedido de desculpas pode ser astuto, ou suicida. Já a prontidão em buscar o perdão pode ser sinal de caráter exemplar ou de fraqueza. Um bom pedido de desculpas pode converter a animosidade em vantagem pessoal e organizacional, enquanto uma escusa modesta, tardia ou taticamente transparente demais pode ser a ruína do indivíduo e da instituição. Como, então, enfrentar a questão? Como saber quando e como vir a público com um pedido de desculpas? Por que agora? Nunca foi tão urgente saber se um líder deve ou não pedir desculpas publicamente. Nos Estados Unidos, em particular, surgiu na última década uma cultura do perdão pede-se todo tipo de desculpa por toda sorte de transgressão, muito mais do que no passado. Em um livro, On Apology, o autor Aaron Lazare dá amplos indícios de que o número de pedidos de desculpas está subindo, e sugere ainda que isso virou combustível de nossa engrenagem coletiva: Colunistas de imprensa voltados ao panorama nacional e internacional escrevem sobre a crescente importância do pedido de desculpas público, enquanto reportagens, charges, colunas de conselhos e programas de rádio e TV tratam, igualmente, do tema da retratação privada. Membros de diversas profissões até aqui nunca tidas como exemplo de humildade hoje discutem o papel que o pedido de perdão teria no exercício da carreira. Vários médicos já cogitam pedir desculpas a um paciente por erros médicos; e, na área médica em geral, já se discute quando um pedido de desculpas se faria necessário. Nos Estados Unidos, novas leis vêm facilitando consideravelmente esse gesto. Uma lei de 2003 no estado do Colorado dita, por exemplo, que desculpas apresentadas por um profissional da saúde seriam, em qualquer ação civil, inadmissíveis como prova de confissão de culpa (vários outros estados no país barram o uso de expressões de solidariedade em processos judiciais; já pedidos absolutos de desculpa são outra coisa). Embora até aqui o medo de um processo por imperícia tenha quase sempre impedido que profissionais da saúde admitissem um erro, o professor de direito Jonathan R. Cohen, da University of Flo-rida, observa, em Toward Candor After Medical Error (Harvard Health Policy Review, Spring 2004), que o silêncio não admitir o erro, não se desculpar por ele pode acabar precipitando a ação judicial. A alta no número de líderes que vêm a público pedir perdão é particularmente notável. É uma tática hoje adotada com freqüência pelo líder para tentar conter, a custo mínimo, o estrago causado por seus erros. Tamanho foi o número de executivos que pediram perdão por uma ou outra transgressão no verão de 2000 nos EUA que parte da imprensa local chamou a temporada de o verão da desculpa. No rol de falhas a serem perdoadas estavam atrasos em vôos, serviço telefônico ruim, pneus que estouravam. De lá para cá, nada mudou. O presidente de uma prestadora de serviços de TI no setor de saúde, a Cerner, insultou a equipe gestora num e-mail e, quando as ações da empresa despencaram, pediu perdão pela mensagem que enviara. Etienne Rachou, cabeça do braço da Air France para a Europa e o norte da África, pediu perdão a um empresário israelita pelo piloto do avião ter dito que o destino do vôo era Tel Aviv, em Israel/Palestina. John Chambers, presidente da Cisco Systems, pediu perdão a operadoras de serviços por não ter priorizado as necessidades delas. Às vezes, o líder pede perdão por pecados com os quais não tem nenhuma ligação pessoal. Em uma visita oficial à Polônia, na década de 1970, o chanceler alemão Willy Brandt fez um gesto de retratação pelos crimes cometidos três décadas antes pelo regime nazista contra judeus poloneses (aparentemente tomado pela emoção, Brandt se ajoelhou ao se aproximar de um memorial de guerra em Varsóvia). Em 1995, quando presidente da Bayer nos EUA, Helge Wehmeier foi outro a pedir perdão em nome da controladora original, que teria compactuado com os crimes. Em 2005, Ken Thompson, presidente executivo e do conselho do Wachovia, revelou que duas das firmas que o banco americano comprara tinham tido escravos. E disse: Em nome da Wachovia Corporation, peço desculpas a todo o povo americano, e sobretudo aos afro-americanos e a indivíduos de ascendência africana. Sentimos enorme pesar por essa revelação. Fora do mundo empresarial também há uma dose impressionante de autoflagelação. Nos últimos anos, o ex-secretário de defesa dos EUA, Robert McNamara, pediu desculpas em diversas ocasiões por decisões ruins tomadas durante a guerra do Vietnã. Senador, o republicano Trent Lott se desculpou por ter sugerido que os EUA teriam evitado muita dor de cabeça se o então segregacionista Strom Thurmond tivesse sido eleito presidente em 1948. O presidente mexicano Vicente Fox pediu perdão por ter dito que os mexicanos aceitavam, nos EUA, um trabalho que nem os negros querem fazer. O pastor evangélico Pat Robertson se retratou por dizer que os EUA deveriam assassinar o presidente venezuelano, Hugo Chávez, e por sugerir que o derrame sofrido pelo primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, era castigo divino por Sharon ter dividido a terra de Deus. O cardeal americano Bernard Law se desculpou pelo abuso sexual cometido por sacerdotes nos EUA por terem violado uma confiança sagrada. Oprah Winfrey, líder de um vasto império de mídia e de grande influência na cultura americana, pediu perdão por ter caído num conto do vigário e defendido um livro de memórias falsas, por ter dado a impressão de que a verdade não importa. E Lawrence Summers, reitor de Harvard, se desculpou por sugerir que uma aptidão intrínseca pudesse explicar o baixo número de mulheres na ciência e na engenharia. O caso de Summers é um exemplo incrível da energia gasta por um líder para dizer que sente muito. Tendo causado comoção dentro e fora do campus, o reitor pediu desculpas várias vezes. Poucos dias depois do incidente, Summers enviou a cada membro da comunidade Harvard uma carta na qual figurava o trecho: Lamento profundamente o impacto de minhas declarações e peço desculpas por não ter medido melhor minhas palavras. Numa reunião com docentes um mês depois, Summers disse: Lamento profundamente ter enviado um sinal de desincentivo a indivíduos aqui ou não presentes que há tantos anos se esforçam para promover o progresso da mulher nas ciências e em toda a vida acadêmica. E, em outra carta, enviada ao corpo docente da Harvard dois dias depois dessa reunião, Summers declarou: Se pudesse voltar no tempo, teria abordado de modo distinto uma questão tão complexa (…). Deveria ter deixado esse tipo de especulação para quem tem maior domínio da área. Lamento particularmente o ataque àqueles que decidiram questionar certos aspectos de minhas declarações (Summers não pediu desculpas imediatamente, e há indícios de que relutou em se retratar). Naturalmente, é impossível dizer se uma expressão imediata de pesar teria evitado a gritaria, que culminou com sua renúncia (deixa o posto no final de junho). Naturalmente, esse gesto também é um reflexo da cultura na qual se insere. No Japão, por exemplo, um líder pedir perdão não é algo tão notável quanto o é na maioria dos demais países. Um observador chegou a ponto de descrever o país como uma sociedade da retratação por excelência. Contudo, não é exagero dizer que o pedido de perdão como forma de interação social está crescendo em importância em nível internacional. Embora os métodos possam variar na China há empresas que se especializam em dar explicações e manifestar remorso no lugar de outras , a cultura da retratação é um fenômeno mundial. Barbara Kellerman é diretora de pesquisa do Center for Public Leadership e conferencista em políticas públicas na John F. Kennedy School of Government, da Harvard University em Cambridge, Massachusetts. Antiga diretora do Center for the Advanced Study of Leadership da University of Maryland, Kellerman é autora e editora de várias obras sobre liderança, entre elas Bad Leadership (Harvard Business School Press, 2004).