ROI da IA: empresas terão de descobrir quanto custa cada resultado produzido pela tecnologia

Foto: Divulgação/Arthur Frota
Para o especialista Arthur Frota, fundador da holding AFPAR e CEO da Escale Biz, a alta no consumo de IA pode ameaçar, inclusive, a margem de lucro das empresas
Hoje, a inteligência artificial já ocupa espaço relevante nas planilhas de custos das empresas. Além dos investimentos em ferramentas e infraestrutura, a tecnologia introduz uma nova variável na gestão financeira: o custo de operar sistemas que assumem tarefas antes executadas por pessoas e que podem ser utilizados em escala. No entanto, os resultados das empresas mostram que ainda há uma distância entre o dinheiro destinado à tecnologia e o valor efetivamente capturado.
Uma pesquisa da Deloitte com 1.854 executivos de 14 países da Europa e do Oriente Médio mostra que, apesar de 85% das empresas terem aumentado seus investimentos em IA, apenas 10% dizem obter retorno significativo. Outro estudo, esse do BCG com mais de 1.250 empresas de 68 países, apontou para uma porcentagem ainda menor: somente 5% dos executivos responderam conseguir gerar valor financeiro com IA em escala, enquanto 60% não registram ganhos materiais, apesar dos investimentos.
Para Arthur Frota, que é mestre em Engenharia com pesquisa em inteligência artificial, além de fundador da holding AFPAR e CEO da plataforma para uso e gestão de IA nas empresas Escale Biz, a alta no consumo da tecnologia pode ameaçar, inclusive, a margem de lucro das organizações. “Uma tarefa que antes exigia duas horas de trabalho pode ser concluída em minutos, mas o ganho financeiro depende de outros fatores: custo da ferramenta, necessidade de revisão, correções, integração com sistemas e quantidade de vezes que o processo precisa ser repetido”, afirma.
O que Frota quer dizer é que uma empresa pode reduzir o tempo de uma atividade e ainda assim não ter reduzido seu custo. “Acompanhar apenas horas economizadas, número de usuários ou tarefas automatizadas pode esconder o custo real dessas operações. Em algum momento dos próximos meses, todos os empresários que contrataram IA vão receber uma conta maior do que esperavam e terão dificuldade de responder a uma pergunta simples: o que, exatamente, a empresa recebeu em troca?”, acrescenta.
Um levantamento do Gartner publicado em junho dá dimensão à preocupação de Arthur Frota: a projeção da consultoria é de que, até 2028, os gastos com ferramentas de IA para desenvolvimento de software poderão superar o salário médio de um desenvolvedor humano.
No relatório do estudo, Nitish Tyagi, analista sênior do Gartner, avalia que desenvolvedores tendem a priorizar velocidade e conveniência em detrimento da eficiência de custos. “Sem um modelo de operação de engenharia com regras claras de gestão, os custos podem crescer mais rapidamente do que os ganhos de produtividade que essas ferramentas foram desenvolvidas para proporcionar”, afirma o executivo.
A conta precisa acompanhar o resultado
O caminho para agir diante dessa realidade, segundo o CEO da Escale Biz, não passa por restringir o uso da tecnologia. Se uma ferramenta ajuda a empresa a vender mais, reduzir erros, acelerar decisões ou liberar profissionais para atividades de maior valor, um custo maior pode ser justificável. “Custo crescente não é problema quando o valor cresce mais rápido. O problema é consumir mais inteligência sem construir mais capacidade”, afirma Frota.
Para acompanhar essa relação, o especialista defende que as empresas incorporem à gestão indicadores como valor por tarefa, valor por resultado e ROI. A escolha das ferramentas também entra nessa conta: uma atividade simples pode demandar uma solução de menor custo, enquanto trabalhos mais complexos podem justificar recursos maiores.
A questão ganha outra dimensão com os agentes de IA, que podem receber um objetivo, acessar sistemas, interpretar documentos, utilizar ferramentas e realizar várias operações até concluir uma tarefa. Para quem faz o pedido, tudo isso pode parecer um único comando. Para a infraestrutura, são dezenas de operações que consomem recursos.
“Para um CFO, isso não é apenas uma nova linha de software. É um insumo variável de produção. O que interessa, no fim, é saber quanto foi gasto para chegar ao resultado e quanto esse resultado vale para o negócio. Essa conta precisará começar a fazer parte da gestão cotidiana da tecnologia”, conclui Arthur Frota.









