Levantamento mostra confiança consistente entre executivos, mas revela tensões operacionais, riscos geopolíticos e lacunas de adaptação cultural que tendem a definir quem cresce globalmente A nova edição do 'Interpreneur 2026', levantamento global conduzido pela Kreston, oferece um retrato claro do mercado para empresas que desejam se expandir internacionalmente: o apetite segue elevado, mas as condições de execução para o avanço além das fronteiras do próprio país se tornaram mais complexas. O dado mais imediato talvez seja o nível de confiança. Executivos C-level atribuem, em média, nota 8,2 em 10 ao ambiente atual para expansão global, com 29% dando a nota máxima e 25% avaliando em 8. Mais do que isso, 86% esperam que esse ambiente se torne ainda mais favorável nos próximos dois a três anos. Esse otimismo não é abstrato. Ele se traduz em percepção concreta de viabilidade: 57% dos respondentes afirmam que é fácil expandir internacionalmente hoje, ainda que 27% considerem o processo difícil. A leitura dominante, portanto, não é de retração, mas de movimento. Empresas continuam olhando para fora como vetor de crescimento, mesmo em um ambiente que combina instabilidade geopolítica, disputas comerciais e reconfiguração de cadeias globais. Mas esse é apenas o primeiro plano da análise. Quando se observa a mesma amostra sob a ótica dos fatores que moldam a expansão, o quadro se torna mais denso. Impostos e disputas comerciais tiveram impacto significativo ou muito significativo para 56% dos respondentes nos últimos um a dois anos, e apenas 2% afirmam não ter sido afetados. Trata-se de um dado que relativiza a ideia de globalização como algo simples. Expandir continua sendo um desejo de muitas empresas, mas está longe de ser uma jornada simples. A influência da tecnologia adiciona uma camada adicional de complexidade. Cerca de 74% dos executivos afirmam que a inteligência artificial já exerce impacto relevante em suas estratégias de internacionalização. Não se trata apenas de eficiência operacional, mas de reconfiguração de decisão: escolha de mercados, análise de risco, modelagem de entrada e até adaptação de produtos passam a ser mediadas por capacidades tecnológicas que ainda estão em consolidação. Ao mesmo tempo, o levantamento aponta para um conjunto de riscos que tende a se manter no horizonte. Nesse sentido, a instabilidade geopolítica é percebida como a principal ameaça para operações no exterior, citada por 45% dos respondentes, seguida por aumento de custos relacionados a tarifas (40%), mudanças regulatórias (37%) e volatilidade cambial (29%). Não há aqui um fator dominante isolado, mas uma convergência de pressões que exige maior sofisticação na gestão da expansão. Se o pano de fundo global já indica maior complexidade, o recorte brasileiro adiciona nuances importantes. Um olhar para o Brasil Executivos no Brasil apresentam níveis ainda mais elevados de confiança. A nota média atribuída ao ambiente atual chega a 8,6, acima da média global, e 90% esperam melhora nos próximos anos. Ainda assim, essa percepção positiva convive com um dado que chama atenção: apenas 45% consideram fácil expandir internacionalmente, abaixo dos 57% globais, enquanto 40% veem o processo como difícil. Há, portanto, um descompasso entre expectativa e execução. Esse desalinhamento se torna mais evidente quando se analisam os fatores operacionais. No Brasil, 52% dos respondentes afirmam que tarifas e disputas comerciais tiveram impacto significativo recente, e 78% indicam que a inteligência artificial já influencia suas estratégias de expansão, ambos em linha ou acima da média global. Ou seja, as empresas brasileiras não estão à margem das transformações de mercado, elas estão inseridas nelas, tanto no âmbito das oportunidades como dos desafios. Essas fricções aparecem de forma mais clara na dimensão cultural e relacional da expansão. Adaptar valores corporativos a contextos locais é citado por 40% das empresas brasileiras como um desafio relevante, acima dos 30% globais. A dificuldade em encontrar parceiros locais, mencionada por 40% dos respondentes, também supera a média internacional. Há, assim, uma dimensão decisiva que merece atenção, já que a expansão internacional não falha, em muitos casos, por erro de diagnóstico de mercado, mas por dificuldades de adaptação, execução local e construção de relações. O próprio levantamento da Kreston sugere isso ao indicar que empresas globalmente tendem a subestimar a necessidade de 'tradução cultural', seja na adaptação de normas internas, seja na gestão de expectativas de força de trabalho ou na incorporação de práticas locais. Esse ponto se conecta diretamente com o que empresas internacionais tendem a subestimar quando desejam investir no Brasil. Nosso país combina, de um lado, forte potencial de mercado e abertura a novas tecnologias, e de outro, um ambiente corporativo que exige leitura de contexto, regulação, tributação complexa e cultura de negócios. Esses são pontos que não podem ser ignorados para quem deseja ser bem-sucedido no ambiente de negócios nacional. Concluindo Por fim, pode-se afirmar que crescer internacionalmente continua sendo um vetor prioritário, mas não é mais apenas uma questão de acessar novos mercados. Trata-se de operar em ambientes mais instáveis, integrar tecnologia de forma estratégica e construir presença local com consistência. Ao acertar esses passos, as chances de combinar otimismo com realidade se tornam efetivas e sustentáveis.